Você tem culpa sim!

A crise na educação brasileira não tem apenas como responsável o governo, seja municipal, estadual ou federal. A culpa pela precariedade da educação em solo brasileiro tem, no mínimo, mais três atores: pais, alunos e professores. Cada um destes atores, em sintonia com as políticas de educação precárias engendrados pelos governantes, tem uma parcela de responsabilidade social pela péssima educação fornecida pela rede de educação pública deste país.

Cabe aqui, em primeiro lugar, destacar a falha grotesca que os pais estão cometendo. E aqui não desejamos, nem temos a intenção de culpar por culpar. Mas é preciso, aliás, é mais do que hora, que os pais venham responder por sua parcela de culpa. Cabe aos pais a acusação de terceirizar a educação de seus filhos. E tal acusação é extremamente pertinente e preocupante. Com tal acusação estamos dizendo, e defendendo, que os pais já não sabem mais cumprir com seu papel na formação de seu(s) filho(s). Os pais remetem ao Estado, mais especificamente à política de educação, a formação de seus rebentos. Ora pais, existe uma diferença abismal entre educar e ensinar. O papel da escola, e por conseguinte, dos professores, é ensinar e não educar. Educar é papel da família, dos pais em primeiro lugar. Não cabe a escola educar os rebentos para depois poder ensiná-los. Se este fosse o caso, as crianças deveriam ser retiradas do seio familiar logo quando nascem para que pudessem ser educadas pelo Estado. Mas tal ato seria, no mínimo, grotesco. Friso novamente que a educação vem de berço; ou seja, é responsabilidade única e exclusiva da família. Criança mal criada não é fruto da escola, ou da falta de ensino escolar; é, antes de mais nada, falta de pais que saibam qual seu papel na criação de seus filhos.

Mas as acusações aos pais não param aqui. Sobre suas cabeças pesa mais uma sentença. Os pais são responsáveis pela propagação e implementação de uma política pública de educação que não prioriza a formação do estudante, mas que exige que o mesmo apenas passe de ano, muitas vezes sem saber realizar operações básicas nas áreas de ensino. Operações básicas estas que são a interpretação de texto, matemática fundamental, leitura e escrita coesa. Mas como podem os pais serem responsáveis a tais falhas, que parecem ser de responsabilidade única e exclusiva dos professores? Acontece que, de alguns anos para cá, os governos (estaduais e federais) começaram a implementar a ideia de que a escola pública não deveria criar bons alunos, mas sim garantir que todos tivessem formação de ensino médio. Com isso, implementou-se na consciência da população que as escolas públicas são espaços onde qualquer um passa de ano, realizando ou não as atividades, aprendendo ou não o conteúdo. Em virtude dessa política (e exemplo disso é a progressão automática das séries iniciais) os índices de educação melhoram e muito, conseguindo que o Brasil vendesse ao mundo a ideia de pátria educadora, quando o mais correto seria dizer pátria de aprovação automática, porque, em última análise, não melhoramos no quesito educação nos últimos anos. Aliás, apenas decaímos. Nossos jovens formam-se sem condições de ingressar em universidades públicas e de competir por cargos relevantes em empresas. Claro que boa parte dessa acusação cabe ao governo. As leis e projetos de reformulação da educação (que a cada mandato mudam) provém deles. Mas os pais foram e continuam sendo coniventes. Esperam que seus filhos apenas passem de ano, sem se importar com a qualidade ou se de fato seus pupilos estão aprendendo algo. Há pais que ameaçam professores por estes reprovarem seus filhos. Novamente, os pais compraram esse modelo de aprovação em massa vendido pelo governo e exigem da escola que seus rebentos sejam aprovados, indiferente se estão aptos ou não para tal.

E cabe mais uma acusação ainda aos pais. Eles tornaram-se ausentes na vida escolar dos filhos. Existem pais que não sabem o ano e a turma na qual os filhos estão matriculados. Há pais que jamais olharam o caderno do filho ou o ajudaram a realizar as tarefas de casa (antigo tema de casa). existem pais que não se dão ao serviço de buscar os boletins escolares e aproveitarem o momento para conversarem com seus filhos. Todo esse descaso com a educação de seus pupilos reflete no aprendizado em sala de aula. O aluno acaba, muitas vezes perdendo o interesse porque seus pais não dão valor ao seu aprendizado. Outros acabam revoltando-se em sala de aula, diversas vezes apenas para que seus pais sejam acionados e tenham um momento para o pupilo. Os pais, porém, não percebem essa ausência. Acreditam estarem fazendo demais ao ir rematricular sus filhos. Temos uma geração de pais apáticos, indiferentes com o aprendizado de seus filhos e com a questão da educação em geral.

Mas eu falei que eram três os atores que deveriam ser chamados a responsabilidade. Vamos ao segundo, o objeto do aprendizado, aquele para quem professores preparam aulas e provas: o aluno. Se por um lado temos uma geração de pais ausentes e apáticos, por outro, temos alunos que perderam (ou jamais tiveram) consciência do papel da educação em suas vidas. Alunos estes que não encontram sentido em ficar 5 a 6 horas em sala de aula, recebendo informações (muitas vezes de forma desinteressante e ultrapassada) e que não parece ter nenhum eco na realidade por eles vividas. São alunos líquidos (para usar Bauman), alunos que na primeira oportunidade saem da sala (ou da escola), enfrentam professores e direção. São alunos desinteressados, frutos de uma época (geração) onde as perguntas para a vida podem ser obtidas em curtos cliques em uma tela. Aprender para eles tornou-se algo chato, irritante e desnecessário. Pensar é algo que lhes cansa, angustia, irrita. Por isso não pensam, não sabem mais escrever e raciocinar. Não sabem emitir opinião, porque simplesmente eles não tem opinião. São seres alunos (sem luz). Alunos! Jamais tal expressão serviu para definir tão bem uma geração de jovens. A única luz que brilha em seus rostos é o reflexo do brilho do smartphone. Escravos de um conhecimento pronto e raso. Seres sem interesse pelo aprendizado e que tem o respaldo dos pais. Jovens que tem consciência de que, aprendendo ou não, irão passar de ano. E por não lutarem, por não exigirem um novo modelo educacional, merecem ser sim responsabilizados pela crise da educação.

Chegamos por fim aos últimos a serem acusados: os professores. E aqui me pergunto se é possível acusar e exigir que estes se responsabilizem pela crise na educação. Afinal de contas, quantos trabalham com seus direitos violados, em espaços que não possuem a mínima estrutura física para lecionar? Quantos enfrentam salas de aula lotadas, sendo desrespeitados a cada momento? Podemos responsabilizá-los, culpá-los, por não terem um respaldo da política de educação? Sim, eu acredito que podemos e devemos. E o faço com dor, porque sei das lutas que enfrentam meus colegas docentes. Mas não posso dar-me o direito de dizer que os professores são apenas vítimas deste modelo, quando na verdade muitas vezes eles acabam ajudando a perpetuá-lo.

Em primeiro lugar, aos professores cabe a culpa de se acomodarem, de se prenderem em seus modelos tradicionais de aula. E sei o quão polêmico é este tópico. Mas é preciso que seja citado. Há professores que precisam urgentemente rever sua metodologia de sala de aula. Quando uma turma inteira se desinteressa pela aula é porque aquele que está ministrando a aula está cometendo uma falha. Outra crítica que deve ser feita aos professores é sobre o fato destes não resgatarem com os alunos a importância e o significado da educação. É chocante ver professores preocupados apenas em encher o quadro de conteúdo, na vil e utópica esperança de que os alunos ingressarão em alguma universidade de ponta. Seria mais útil e interessante, preparar alunos para a labuta diária. Nossos alunos saem da escola sem preparo para nada; não ingressam nem em universidades, nem no mercado de trabalho qualificado.

E a última crítica que cabe aos professores é o descaso em formar jovens pensantes, jovens com pensamento crítico. Temos uma juventude alienada, sem conhecimento de mundo. E muito disso se dá pelo fato dos professores preferirem fazer provas objetivas ao invés de reflexivas e dissertativas. Temos uma gama de alunos preparados para gabaritar questões de múltipla escolha, enquanto que o vestibular da vida exige redações e respostas dissertativas. Despertar o pensamento crítico deveria ser a grande missão dos professores. Se acreditamos que a mudança social, do pensamento social, será fruto da educação (e eu acredito nisso), então precisamos mais do que urgentemente rever nossos preceitos enquanto professores.

Sim, a crise na educação é fruto de um governo que se interessa em criar uma massa de pessoas ignorantes, mas com certificado de ensino médio concluído. É dos governos e de suas nefastas políticas a maior parcela da culpa pela crise na educação brasileira. Porém, ao governo cabe 51% de responsabilidade. Os demais 49% devem ser divididos entre pais, alunos e professores. Porque estes três grupos de atores são diretamente afetados pela precária e retrógrada política de educação e pouco ou nada fazem para mudar a mesma. É possível acreditar em uma mudança a partir da educação? Lógico que é! Mas jamais nos moldes de modelo de ensino que temos implementado hoje. A atual conjuntura educacional do país nos levará diretamente para a idade média. Basta analisar a proposta “Escola sem partido”.

Imprimir

Compartilhe:

Pular para a barra de ferramentas