Vigotski e o aprendizado como processo social

Antes de formularmos melhor a teoria de Vigotski, é preciso deixar claro algumas considerações a respeito de sua vida pessoal. Não vou adentrar nos detalhes sobre sua vida e obra, mas sim sobre a multi e interdisciplinar forma como ele estudava as coisas. Vigotski começou cursando Medicina por força familiar, mas logo mudou para Direito. Logo ele pode se dedicar a licenciatura e também a psicologia. Tornou-se um renomado psicólogo, apesar de sua breve vida – morreu aos 37 anos de tuberculose – realizou mais do que simplesmente sua teoria. Ele codirigiu na faculdade um seminário de artes, ocupou diversos cargos políticos e científicos além de ter conduzido uma intervenção educacional prática com crianças deficientes físicas e mentais. Através de seus conhecimentos diversos, por essa sua busca interdisciplinar envolvendo literatura, história, filosofia, biologia entre outros, que tornou possível fomentar uma teoria mais abrangente da aprendizagem no campo psicológico. Seu objetivo primeiramente era de separar o modelo de desenvolvimento dos processos mentais do aprendizado, tanto da subjetividade quanto da psicologia como ciência natural. É através dessa diferenciação que lhe ocorre a teoria do materialismo, onde o homem transforma e é transformado ao mesmo tempo em sua natureza, diferente do conceito de carga genética ou do pensar-se como uma folha em branco pronta a ser moldada. Em seu ponto de vista, essa nova psicologia não se limitava mais à forma como nós pessoas vivemos, mas sim como estamos direcionados à reorganização e a criação de um novo homem e uma nova ciência.

Além dessa sua multicultura, Vigotski viveu em um período da história na Rússia muito conturbado tal qual viabilizou melhor sua visão da sociedade. Foi a partir da crise política que ele tomou como fio condutor para a análise. Ele passou a analisar as tendências predominantes e propôs ideias que abarcasse os conhecimentos particulares e específicos, dentro da psicologia. Foi então ao estudar toda a psicologia clássica que ele adotou posições para a criação de um novo nível de desenvolvimento, unificando a gênese e a natureza social das funções psicológicas superiores mas, ainda se preocupando com os processos de individualização do homem cultural.
Em 1924, durante o II Congresso Panrusso de Psiconeurologia, Vigotski pela primeira vez explicitou suas ideias propondo uma nova psicologia baseada nos princípios do materialismo histórico e dialético. Pautava-se em uma nova concepção de homem, não visto mais como um produto do meio, mas sim de como um ser historicamente constituído e constituinte nas relações com a sociedade. Só nessa relação de idas e vindas que o homem internaliza o mundo material e interpreta em seguida com sua subjetividade, já que é assim um ser histórico e social, porém também é individual.
Dessa teoria-método criada por Vigotski encontramos o pensamento e a linguagem como o primeiro plano na relação das diversas funções psicológicas. Essa é a principal contribuição para uso educacional.
Compreensão dos sentidos e significados
Primeiramente frisa-se: é por meio da atividade que o homem constitui as suas relações humanas e transforma o mundo.
Ao se apropriar da realidade externa, ocorre uma atividade interna de apropriação e de articulação do novo; o que marca essa atividade interna é a superação, a confrontação, a contradição e a ambiguidade entre o novo e o velho.
Aguiar, 2006
O termo atividade deve se fazer totalmente presente dentro da teoria de Vigotski. Isso porque o ser humano, diferente do animal irracional, através de sua capacidade de experiência e apropriação não só cria ideias como também as planeja, organiza, modifica e volta a por em prática; produzindo então uma nova existência. Para tanto, o indivíduo ao estabelecer essa conexão nunca obterá uma relação direta e mediata, mas sim uma relação mediada pela cultura, já que a sua própria subjetividade é constituída nas e pelas relações com tais atividades que irão mediar o conhecimento. Essa mediação, Vigotski assim como Marx, aprofunda o conceito da utilização de um instrumento psicológico, nesse caso, o signo.
Para Vigotski, os signos referem-se a uma forma de instrumentos psicológicos que se situa fora do individuo sendo que, através das atividades internas e externas irão atingir diferente um ao outro. O ser humano nesse caso, somente planeja pelo pensamento e expressa o mesmo através dos signos para melhor representa-lo.
Dessa forma, é possível compreender que se busca um método onde é possível revelar aquilo que o sujeito pensa. Isso cria nossa própria concepção sobre como é a forma de relação do outro com o mundo, tudo possível através da fala. Levar este sujeito a exteriorizar seu pensamento é buscar a gênese social do individuo para compreendê-lo como se constitui social, emocional e pessoalmente. Apesar do pensamento e da linguagem não terem raízes genéticas em comum, Vigotski alerta para que estes sejam compreendidos como dois processos dependentes, fluindo e atuando em conjunto. Assim o significado e palavra tomam princípios diferentes, porém que trabalham paralelamente para o entendimento final. O significado, diante disso, é um ponto imóvel e imutável enquanto a palavra pode ser interpretada diferente em contextos diversos, sem uma firmeza exata. O sentido passa abranger uma subjetividade maior por possuir a sua unidade essencialmente emocional.
 
Avançando para o lado pedagógico, podemos introduzir  as linhas de investigação de Vigotski de forma prática na sala de aula. Após as considerações acerca do pensamento, construção posterior e linguagem, ele nos deixa claro que mesmo em idade iguais cada sujeito tem sua maneira e tempo particular de desenvolvimento. Ou seja,  mesmo que a partir da adolescência o sujeito extinga o pensamento dado até então como complexo e passa a assumir um caráter mais reflexivo e intelecto, não há delimitações dos mesmos por questão de idade. Sabemos que cedo ou tarde o processo se dará, porém não podemos esperar ou assumir uma postura rígida frente aos alunos justamente por saber disso, pelo contrário, deve-se então procurar maneiras de ajudar a superar as fases determinadas caso haja dificuldade.
A percepção da dificuldade apresentada pelo aluno é incluída na teoria de Vigotski sobre aprendizagem e desenvolvimento. Ele desenvolveu etapas para verificação que são fundamentais para e na escola porque cria diagnósticos e prognósticos acerca do aluno e aquilo que você deve desenvolver em seguida.
A teoria na área pedagógica
 
O objetivo de desvendar as inter-relações complexas em áreas específicas do aprendizado escolar tornou possível suas quatro séries de investigações, já mencionada antes, e são elas: a leitura, escrita e gramática, a aritmética, ciências sociais e ciências naturais. Já fica claro a partir daí que é necessária a instrução escolar, de um modo mais formal. A resolução desses problemas conta com ajuda de um companheiro mais experiente e assim revela a zona de desenvolvimento proximal – muito conhecida pelas iniciais ZDP. O ZDP se caracteriza pela distância do nível de desenvolvimento real – NDR, que é o que a criança sabe já realizar, e do nível de desenvolvimento potencial – NDP que implica no que a criança faz com a mediação a um adulto.
A atuação do professor segundo essa teoria é partícipe integral, pois há um ciclo no processo de transformação recorrente a todo instante para o desenvolvimento. Operacionalizando estes meios como prática pedagógica torna-se possível criar novas estratégias educacionais direcionadas à tal aluno e sua fase. É dessa forma que Vigotski contribui imensamente para a prática escolar, pois torna possível futuras ações já direcionadas, fazendo assim o ensino se tornar muito mais eficiente e com um caráter excepcionalmente humano.
Através desse trabalho, Vigotski mesmo em um tempo mais remoto acabou por se tornar essência até o presente, isso porque deu ênfase a multi e interdisciplinaridade –  tanto das matérias abordadas, quanto dos professores para com seus alunos.
O olhar para o outro de uma forma mais humana, mais afetiva e não mais mecânica, trás à educação bases fortes para a construção de uma realidade escolar mais produtiva e sem dúvida, evoluída.
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Izabela Remor

Cursa Filosofia na modalidade Licenciatura no Centro Universitário Internacional (UNINTER), anteriormente foi aluna na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) na mesma modalidade de Artes Visuais. Atualmente é professora de Filosofia na rede pública de ensino do Paraná.

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