Vestes da aceitação: vestir ou despir.

Vestia-me completamente desajustado, conduzido a ser eu somente. Porém, era precário para os demais que me engoliam indignados, tanta repugnância por eu mesmo me cobrir de panos simples, nada de adornos em meu corpo. Só uma alma limpa de trajes passageiros.

Simplesmente via-me vaiado, não pelas bocas, mas pelos olhos, em meio à trilha de seres encardidos de uma lógica torta de aceitação, eu ignorei. Manter-se focado em mim, isso me manteria sadio, sadio e saudável, a não me corromper por aqueles belos engravatados que me cercavam.

O que gera uma sociedade que avalia o ser do ser? O que faz conduzir a uma sociedade cujo pensamento está direcionado a dar notas ao que se veste? Será que você vale o que veste?

Em “desprivilégio” às curtas saias de Maria, eram escandalosamente vulgares, o que aos olhos da sociedade a classificava mulher da vida.

De outra vida, vejo e observo as gravatas de Esthenio e sua formação que a todos denotam um homem de respeito, que por trás do conjuntinho de terno, nada sabem que esconde o homem podre que espanca a própria amada, não tão amada assim.

Próximo a Esthenio, encontra-se Dior. Rapidamente os olhos o perceberam desleixado, meninão sem noção de futuro, mal sabem que Dior, é formado em medicina, adora Mozart, e viajou o mundo.  Mas a sociedade julgadora só enxergara o Dior maloqueiro, sabe por quê? Porque suas vestes dizem e falam por si só, que loucura, quem já viu roupas falarem por si só? A sociedade assim diz: o que vestes é o que tu és.

E eu? Eu “tô” aqui contando as histórias dos outros, dos outros que sempre vejo saírem das suas casas nas manhãs, seja de segunda, de terça, não importa. Sempre estou aqui sentado tentando entender o porquê do ser humano julgar nossa índole por um pedaço de pano.

Eu sei que grande parte deles (sociedade) me engole, e com ânsia de vômito me fazem sentir triste, mas nunca inferior, porque sei o quanto valor eu tenho, por detrás das minhas faveladas roupas e por dentro de mim. E sei que não posso ter os melhores chinelos (nem gosto de chinelos) nem camisas com botões bonitos, porém, eu tenho valor, um valor maior que dólar, que se vê na minha face enrugada e nas mãos descascadas pelo tempo.

Se os homens deste mundo soubessem que panos se rasgam e o nosso corpo é o mesmo por trás deles, e que nada valem se forem bem harmônicos por fora, mas imundos por dentro. Aprenderiam a se vestir com as vestes do respeito e da igualdade. Assim espero um dia… Assim espero meus amigos. Por enquanto fico aqui tentando decifrar o mundo das pessoas camufladas de roupas…

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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