Vamos falar de Ética?

A IMPORTÂNCIA DA ÉTICA NA SOCIEDADE

Uma das características essenciais do ser humano é a sua sociabilidade. Logo, a pessoa pode somente tratar de ética quando está inserida em uma sociedade. Para que se possa compreender a ética em si, é preciso primeiramente que se entenda por que o seu estudo é de tal importância.
Sem que percebamos as relações interpessoais cotidianas, devido em boa parte, às práticas capitalistas que geram individualismo, fatores, que são essenciais para a construção – ou não – da ética, permeiam o ambiente a todo o momento. O indivíduo não reflete sobre a importância do outro em sua vida e a interferência que esse tem sobre a sua conduta. Se o fizesse, tomaria consciência de que, talvez, não seria quem és. Outro caso em questão é a dificuldade que se tem de tentar entender o outro, ou seja, pensar por um momento conforme a linha de raciocínio alheio. Isso não significa concordar com o outro, mas sim, se permitir às novas ideias e respeitá-las.
A ética é construída a partir da moral de cada grupo social inserido em uma sociedade, com o intuito de aprimorar a sobrevivência e a convivência dos que ali se fazem presente. Assim sendo, ambas são fruto do contexto (período histórico) e dos diálogos existentes – ou que deveriam existir – entre os indivíduos, haja vista que todas as pessoas são diferentes, devido a sermos seres históricos.
Um exemplo concreto disso ocorre a partir do período compreendido como Modernidade, onde se dão muitas mudanças sociais e, consequentemente, na forma de pensar a sociedade. O homem se afasta da ideia religiosa (teocentrismo) e se coloca como centro da discussão existencial/social (antropocentrismo). Houveram inúmeros progressos posteriores a essa época, porém como o homem passou a não ter mais dever de fazer o certo temendo algo divino (sofrimento após a morte), pensou-se por um momento que tudo lhe era possível, não impondo limites em seus experimentos e afins.
ÉTICA, MORAL E CULTURA
Apesar de muitas vezes serem confundidas por estarem fortemente interligadas, ética e moral não são a mesma coisa. Ética vem do grego éthos (comportamento); Moral vem do latim mos-mores (costumes, valores de determinada cultura). Contudo as diferenças não se resumem na etimologia somente. Assim como foi dito anteriormente, a moral é basilar à ética e compreende as normas de conduta, costumes, valores correspondente aos grupos sociais em particular, sendo assim, se fundamenta em preceitos culturais, históricos, discernimento de bom e mau, certo e errado.
A ética é construída, portanto, através do diálogo entre os indivíduos, sendo considerada um conjunto de regras, não necessariamente escritas, que visam o bem viver geral e a harmonia da sociedade, definindo a boa ou má conduta dos indivíduos.
Através da tomada de consciência individual, por meio desses conceitos é possível garantir a cidadania, que compreende a capacidade política da pessoa frente à cidade. No entanto, obviamente, isso só é alcançado quando permite-se que o cidadão tenha clareza e liberdade para o fazê-lo, o qual em uma ditadura se torna inviável.
Fala-se do indivíduo perante a sociedade, dando-se a entender que a prática ética inicia-se já com o indivíduo em fase quase adulta, mas a ética deve estar presente desde a primeira infância, ou melhor, ela deve fazer parte indiscutível da educação, que por sua vez começa na família, a qual tem grande e indispensável parcela de responsabilidade.
Tudo isso faz parte da cultura de uma população humana. Se tratando do Brasil, essa cultura toma outros caminhos, como por exemplo, situações onde a família inexiste. Fator presente e explícito em nossa sociedade nacional é a violência, que parece estar arraigada, presente em todas as etapas da vida do indivíduo, como na família, na escola, no trabalho. Tal provém do preconceito e discriminação contra grupos sociais que possuem uma cultura minoritária ou não, sendo em todos os casos marginalizada e colocada como inferior a outra, de fato, vigente.
Por isso pode-se concluir que a moral de determinado grupo, às vezes, não condiz com uma postura ética, pois dogmatiza seus valores e ideais, ou seja, se torna um fundamentalismo e/ou fanatismo, pré-conceituando os demais indivíduos de outras culturas através de estereótipos. Isso acontece nos casos de racismo, onde há uma atitude etnocêntrica. Somente por meio da autocrítica é possível reverter esse quadro.
PENSAMENTO FILOSÓFICO E A ÉTICA
A ética e a moral fizeram parte dos estudos filosóficos desde os primórdios pré-socráticos (Grécia antiga). A filosofia, por ser etimologicamente conceituada de “Amor ao Saber” (Philo=Amor; Sophia=Sabedoria), interessa-se, de forma óbvia, pela reflexão existencial, social, fenomenológica, conceitual, linguística; logo instiga o indivíduo a pensar sobre o cotidiano e como tais ações corriqueiras, até então, refletem no organismo social.
Muitos acreditam que a filosofia se faz distante, por eruditos e indivíduos rebuscados, contudo o que ocorre é mais simples do que se imagina. Basta, primeiramente, colocar um ponto de interrogação em grande parte dos nossos pensamentos e conduta. Simplificando, o primeiro passo é interrogar-se “Por quê?” da vida ser de tal forma, principalmente nos aspectos éticos e morais. Sendo assim, “não é possível ser ético sem, antes de tudo, ser reflexivo e crítico” (p. 52) Tratando disso, vários filósofos ao longo da história se interessaram em conceituar e/ou definir o que é ética e moral e, por conseguinte, como alcançá-las. Como Sócrates, que afirma não ser possível alcançar a ética como algo a ser repassado, mas sim somente pela virtude da procura interior. Já Immanuel Kant trata de moralidade e afirma que existem dois tipos, denominando-as de imperativo categórico, que seria um pressuposto de ética universal; e imperativo hipotético, ou seja, em determinada situação tem-se certa atitude justificável a um fim, esse modo de pensar o próprio autor condena, pois seria uma atitude a qual não se pode tomar como exemplo aos demais. Sartre, no entanto, irá dizer que o homem é responsável por si e por tudo que pratica, em suas palavras “o homem está condenado a ser livre.”
Assim, é relevante que o indivíduo reflita por que há pessoas morrendo de fome; outras que trabalham doze horas por dia; outras ainda que lucram sob o trabalho dos outros e vivem no luxo sem, ao menos, precisar assinar algum papel, ao invés de tomarem toda essa realidade por ‘normal’, justificando que em boa parte da história foi assim e irá continuar de tal forma.
A GLOBALIZAÇÃO E A ÉTICA
Uma questão preocupante na atualidade para o estudo da ética são as práticas capitalistas. Em outras palavras, o consumismo exacerbado, a detenção dos meios de produção e do lucro gerado pelo processo capitalista e, principalmente, o individualismo, culminam no pensamento de “querer é poder”, que por vezes é irrefletido por àqueles que deveriam se indignar com a sua situação, mas que não o fazem por falta de conhecimento.
O homem se apossa, primeiramente, da natureza, já que dela provém a matéria-prima para os produtos industrializados e, posteriormente, do ser humano que se encontra em situações de extrema necessidade, tomando dessa sua força de trabalho. Ao longo da história o ideal ganancioso dominou aqueles que detêm a maior parte da riqueza da Terra, fazendo com que a desigualdade político-econonômico-social ganhassem maiores proporções.
Com o avanço das novas tecnologias e, subsequentemente, da globalização, o progresso econômico (capitalista) passou por cima, literalmente, das diferenças culturais, homogeneizando o pensamento, os valores e os costumes dos povos, aproximando o mundo ao indivíduo e distanciando o mesmo do ambiente real em que vive.
Por meio das relações de privatização, o cidadão comum é levado a pensar, através da manipulação de massas, que consumir – objetos que, por vezes, ele nem sequer sabe para que serve realmente e/ou que não tem utilidade nenhuma, de fato, para a sua vida – e acumular bens  é a resposta para a autorrealização, acarretando ainda mais o afastamento do pensamento de convívio social ideal, ou seja, pensar no próximo.
Isso tudo faz com que a vida do ser humano, em sua quase totalidade, seja líquida (BAUMAN, Modernidade Líquida), em outras palavras, tudo se torna transitório, descartável, descompromissado. O ideal de crescimento econômico se sobrepõe ao desenvolvimento humano e os fins, de fato, justificam os meios sem maior remorso da destruição que essa situação causa não só ao ser humano, mas ao planeta.
OS CONFLITOS ÉTICOS DA SOCIEDADE ATUAL
Apesar de todos os avanços na esfera do direito, conquistados ao longo da história por meio da reflexão de certo e errado, de próprio ou impróprio, onde o ser humano evolui sua consciência e se permite ao pensar social, muitas questões ainda são consideradas pertinentes por possuírem uma ideia retrógrada, embasada em pressupostos escritos e/ou mitos de milhares de anos atrás. Por outro lado o pensamento utilitarista e a falta de perspectiva também contribuem para a continuidade no impedimento da evolução consciente e coletiva.
O olhar construído a partir da realidade individual fortalece o pensamento de “querer é poder” e produz a intolerância, que por sua vez, acaba acarretando um efeito de violência sobre as minorias e/ou aqueles que não se enquadram ao padrão imposto pela sociedade.
Questões como casamento entre pessoas do mesmo sexo; a eutanásia e a morte assistida; a pena de morte e, até mesmo, a relação do ser humano para com o meio ambiente, são temas, de fato, relevantes na atualidade e que geram grande polêmica por haver perspectivas e interesses divergentes, onde muitas dessas acabam desconsiderando a liberdade, o respeito e a responsabilidade que todos têm frente à construção da harmonia social.
Para isso, há tempo vem sendo construída e, de certa forma, afixada a ideia de Direitos Humanos, para que haja um entendimento consensual e a garantia de direitos a todos, o que por muitas vezes, fica apenas na teoria, visto que o cumprimento desses direitos torna-se distante da realidade daqueles que sobrevivem em condições quase desumanas, à margem da sociedade.
A Declaração Mundial dos Direitos Humanos (1948) teve três grandes fases, as quais podemos denominá-las de Primeira geração, correspondente aos direitos naturais e/ou inalienáveis, como a liberdade e a igualdade; de Segunda geração, que se configuram por direitos políticos e conceituam o indivíduo como cidadão; e os de Terceira geração que dizem respeito aos direitos sociais, os quais, pode-se dizer, estão em desenvolvimento, visto que essa ideia inicia-se a partir do século XX. A união desses três conceitos, a serem efetivados, garante a vida digna e plena, logo, a cidadania.
Mas antes de pensarmos em Diretos Humanos, os quais são, sem dúvida, de indiscutível importância, precisamos combater a cultura da corrupção, ou, em uma linguagem mais corriqueira, o famoso “jeitinho”. Devido a esse, o indivíduo naturaliza práticas que prejudicam e atrasam a construção da ética em uma sociedade, o que muitas vezes pode passar despercebido, visto que “todos fazem, por que eu não posso fazer?” ou “se eu não faço, o outro faz”. Procurar resolver de forma fácil e prática os problemas, em sua grande maioria, não se configura em uma atitude ética.
Dado o exposto, através da reflexão crítica e do diálogo continuado, visando a harmonia e o bem-estar social (integral), que se dá a partir do sentimento de empatia, pode-se concluir, mesmo com todas as dificuldades existentes, que é possível se construir uma sociedade igualitária e, consequentemente, justa, considerando o ponto inicial dessa caminhada a atitude ética que cada um é responsável de exercê-la.
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Renan Peruzzolo

Reside em Concórdia - SC; Graduando de direito na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Interessa-se por assuntos referentes à Ciência Jurídica, Filosofia, Ciências Sociais, Economia, Relações Internacionais, Geopolítica, História e Psicologia/Neurociência.

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