Todos Os Nossos Farrapos

A mãe era forte e quase chegou aos cem anos, embora sua vida também tivesse sido arruinada. Não passava um dia sem que ela olhasse para a fotografia de formatura no ginásio de seu bonito garotão do porta-retratos que ficava sobre o aparador da sala de jantar e, em voz alta, perguntasse soluçante ao falecido marido: “Por que é que você o perseguiu tanto até fazer ele ir embora de casa? Um momento de raiva, e veja no que deu!. (ROTH, Philip. Indignação. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 166).

 

Explicações prévias:

Eduardo Giuseppe Avanzo é protagonista de uma história aos vinte e cinco anos de idade. Nasceu no interior do estado do Rio Grande do Sul, precisamente na cidade de Bagé. Para desconhecedores de certos fatos históricos, o Rio Grande do Sul foi arena de uma revolução separatista em um passado longínquo – o que não deixa de torná-la, em essência, sangrenta e representativa de uma das maiores insurreições brasileiras. Tais passagens culminaram na morte de inúmeras vidas. Eduardo nasceu em Bagé, mas cresceu na capital. Nunca gostou de história – caso contrário, segundo as “belas” e apelativas palavras da tia a quem sempre teve afeição superior, tornar-se-ia distribuidor de folhetim de propaganda política em tempos ditatoriais. Nunca arquiteto. Urgem esclarecimentos relativos às ponderações do presente enredo. Eduardo nasceu na mesma cidade PALCO que, em 9 de setembro de 1836 – recordemo-nos que a independência do Brasil foi no dia 7 de setembro de 1822, exatos quinze anos anteriores –, um tal de General Neto, militar e político gaúcho, impôs derrota a outro general da frente inimiga. Persuadidos – no imaginário das artimanhas militares – e, nas crenças de suposições, os chefes farrapos decidiram pela proclamação da República Rio-Grandense. Até os dias atuais, é costume, no Rio Grande do Sul, essa terra longínqua, fria e olvidada tantas vezes em nome de outros interesses, celebrar o dia 20 de setembro – não somente como mera data histórica. A revolução naufragou, mas as vítimas permaneceram como herança fantasmagórica daquilo que certos homens poderiam ter sido e não o foram.  E, tal afirmação, é, por si, cunhada de múltiplas interpretações.

 

A CARTA

 

Porto Alegre, 20 de setembro de 2017.

Mãe

Hoje é vinte de setembro.

Lembra quando eu tinha dez anos? Lembra?

Tu consegues te lembrar da época em que tinha dez anos de idade? Eu te adorava de verdade.  E, nessa adoração, dia vinte de setembro tornava o afeto e amor – ainda que ambos fossem sentimentos não compreendidos em totalidade por uma criança em formação psicológica –, extrapolar o imaginário. Vinte de setembro era a data em que me vestia como um legítimo guerreiro gaudério. Despertava às cinco horas da manhã. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. O mundo se transformava; as botas lustradas no chão, a bombacha, o lenço vermelho em sua beleza intrínseca, a cor que reverbera no olhar de qualquer indivíduo, tudo a combinar com a camisa branca bem passada. A indumentária gaudéria em sua completude.

O menino homem que iria desfilar como um gigante pela liberdade. Ser um gigante pela liberdade. Carregado de sonhos que habitavam o peito.

Nesses dias minha mente voava a galope. Pensava nos Lanceiros Negros. Lembras-te da história? De homens cuja bravura, nos dias atuais, resume-se a silêncios da historiografia? Articulavas que indivíduos de pele distinta, entre falas e silêncios que obscurecem, foram inaudíveis, enquanto heróis. Lutaram bravamente pela independência, pela revolução, tudo em nome da promessa da liberdade – porque a escravidão ainda fazia-se presente no país. Nesse ínterim, outros grupos conservadores e suas respectivas oligarquias não foram esquecidas.  Cada lanceiro, meu filho, foi subtraído em nome de um ou mais nomes. Morreram em nome de uma promessa. A promessa da liberdade. Uma covardia sem igual nomear inúmeras ruas e avenidas do estado com o nome de outros, detentores de status ou poder. Nunca os Lanceiros. Covardia é como uma doença que se alastra pelo corpo e não tem cura.  Tropel em que se unem gerações…

Esse meu relato logo acaba. A revolução ocorreu, deixou seus vestígios; a marca na história. Um belo dia a insurreição de meu corpo também ocorreu, deixando marcas na história. Na minha história. Em nossas histórias. Nas revoluções. Entre os silêncios ininterruptos, mãe, o segredo foi teu pior aliado. Até que tudo desmoronou.

Mãe: sabes de nossos afetos e cumplicidades. E, tua sinceridade – ou ausência –, fizeram-nos reféns pela simples razão de que teu filho – e meu irmão – resulta, hoje, como desaparecido político.

Todo vinte de setembro, despertava, por conta própria, mais cedo do que o habitual enquanto todos na casa dormiam e dormiriam – com exceção de nós dois, é claro. Realizava as tarefas necessárias higiênicas de um soldado que ama sua terra, porque dia vinte de setembro não era e nunca será um dia qualquer. Era o que deveria ser a proclamação de uma República que nunca existiu. Existindo ou não, eu iria poder subir no lombo de um cavalo e desfilar. Antes de sairmos de casa, tu tomavas dois ou três mates amargos e carregavas a cuia junto de uma garrafa térmica para o desfile.

E, se todo vinte de setembro despertava algo nas entranhas de meus ossos, toda realidade, agora, desperta fragmentos, retratos, fotografias de um menino – guri –, o pacto da conservação da memória. Paradoxal ou não, esse menino não está a sofrer com cortes ou feridas ou balaços. Ele vive em tempos de democracia.

Tu eras como eu.

Mas não almejavas uma revolução dentro de tua própria família.

No meu imaginário, se tivesse vivido naqueles tempos de Revolução Farroupilha, naquele passado longínquo, seria homem pronto para lutar em nome da pátria – mesmo sabendo que não era bem pátria de verdade. Na escola, alguns professores chegavam ao absurdo de ensinar que “essa era nossa Pátria Rio-Grandense”. Sinto dor estomacal apenas em recordar o “parricídio ao Brasil”. Um negócio totalmente além da realidade, porque sempre teve o sete de setembro e, no dia sete de setembro, celebrava-se a pátria e, noutro, poucos dias depois, outra pátria – como se vivêssemos em duas. Uma confusão completa na cabeça de uma criança.

Não sei se entre uma mãe e um filho existem espaços para perdões. Não sei uma série de coisas.  É difícil admitir o que não quero admitir. Sempre soubestes disso. Cúmplices. Nunca me recriminou, nem o faria, nem o fiz, nem o fizemos. Fomos coadjuvantes com capacidade de significarmos mais, de sermos espectadores ativos – mas silenciamos. Em nome dos mortos, eu lhe pergunto: valeu a pena? Tuas lágrimas, na solidão em que passavas sem teus filhos, valeram a pena em nome dos vivos, dos mortos ou não-mortos?

Mudando de assunto, não estou aqui para julgar. Nunca estarei. Quem julga sem pudores é sempre e necessariamente o ser que nunca foi julgado e se acha mais apto a julgar do que a enfrentar a si mesmo.

Ela, a mãe, é outro alguém. Eu? Existencialmente, espacialmente e quimicamente, continuo aqui. Os corpos se movem e sou observador. Agora, nesse exato instante, estou observando um império de sujeira que faz-nos sofrer, um império de egoísmos e palavras ditas pelas costas, nunca cara a cara. Quem tem coragem de enfrentar tal qual uma despedida? Vou recomeçar: não sei se, entre uma mãe e um filho, existe um último sopro de vida e reconciliação. A viveza de teus olhos, mãe. Tudo mudou. Suponho que apenas escutes… o pai também apenas escuta, sou o único que escreve. Sou o filho mais novo e, no meio das desgraças, sempre definhei a sensibilidade dos filhos mais novos, a única que os últimos reconhecem submergir no sangue.

Teu problema, mãe, era que tua fraqueza – e verdade – era que teu ponto fraco tinha nome e o nome era Giuseppe Avanzo. Meu pai. Nosso pai, meu e de meu irmão, se depender de documentos jurídicos. Tu? Tu também estavas carregada de sonhos que habitavam o peito.

A verdade? E eu te adorava de verdade. Talvez ainda adore. Talvez ainda ame.

Lembra-te da virada de ano de 1964 para 1965? O pai chamou todos. Conhecidos, desconhecidos, empresários e até mesmo familiares distantes – fossem eles detentores ou não detentores de poder aquisitivo financeiro –, todas as tuas irmãs, a tua mãe e teu pai e demais seres existentes na face da terra para uma festança na casa de praia, lá pelas redondezas da cidade de Rio Grande.

A praia do Cassino. A casa na praia. O pai, bêbado. O filho, bêbado. A mãe? Tu, mãe? Bêbada. Os primos mais novos? Bêbados. Imagino que, na virada do ano, somos levados a agir como os outros, como um ato de valentia ou heroísmo mesmo que ilegal o seja. Todos alcoolizados.

Lembra-te, mãe, do que ocorreu?

Todos, um dia, crescem.

Mas falemos sobre o agora.

Ou sobre o antes.

Lembra-te, mãe, ou vai se esforçar em dizer que nada ocorre à tua memória?

O episódio poderia ter sido pior, é claro. Começou com o pai falando em voz alta, algo patético em demasia, algo sobre o sobrenome “Avanzo” ter sangue azul, o sangue dos nobres, da nobreza, palavras totalmente desconexas ao momento. O foguetório característico da virada de ano se deu minutos antes da meia noite quando o irmão mais velho irritou-se e disse algo sobre a grande merda que ele, o pai, estava falando, até chegar nas palavras que todos os presentes e convidados escutaram: Sangue azul? Tá falando sério? A única coisa que corre de azul no teu sangue é tua hipocrisia alcoólica. Eu te pergunto se tu te lembras do olho azul da mãe após um de teus inúmeros tragos, tu a chegar em casa como um mórbido que ressuscita e usa da covardia para deixar o olho daquela que gerou teus próprios filhos preto de tanta pancada, fruto das tuas violências. Tu és hipócrita? Tem cara de pau em falar de sangue azul em plena virada de ano com toda essa gente aqui e ignorar todos os teus ignóbeis atos que resultam no azul presente no teu suposto sangue? Consegues me chamar de mentiroso na frente de toda família? Consegues? Prefiro ser um “João ninguém” do que um “Avanzo”. Porque o único avanço de tua vida foi teu próprio retrocesso mental.

O pai pergunta: como é que é?

A coisa ficaria mais séria em termos físicos se o tio Enzo, irmão do pai, não afastasse o recém batizado “João ninguém” e, por sua feita, o tio Luca, não tivesse segurado com toda a força o pescoço do acusado, o réu violentador; eu tinha vinte e cinco anos na época. Vinte e cinco. Não era vinte de setembro, mas, se o fosse, eu teria valentia para enfrentar, ao lado de meu irmão, a verdade? Teria ousadia suficiente para derramar o cálice de um pai violentador?

Tu, mãe, a mulher cujos olhares atraíam a todos. Mas esses mesmos olhares nunca captaram tuas tristezas ou melancolias. Nem quando exibias na cidade teu frágil rosto e teus olhos demarcados de um roxo azulado ou negro profundo, frutos da violência, frutos daquilo que um homem é e não deveria o ser. A covardia. O “João ninguém”, em pleno Ano Novo, ousou. Quando estava mais calmo, afastou-se de todos quando os fogos de artifício da virada de ano começaram, caminhando em direção ao mar, sozinho, uma alma que se escapava na própria solidão e cuja sensibilidade ninguém era capaz de compreender. Um homem de valores. Ele desapareceu. Naquela noite, ele troteou rumo ao mar, como uma despedida fatal, as ondas desejando abraçá-lo, o mar e a paz e o pai ignorando a realidade assim como todos os outros.

O que nos inclui, obviamente. Não basta ser livre, forte, aguerrido e bravo. Nessa guerra, ele era um transeunte em uma família de raízes italianas exacerbadamente deslocadas do eixo da normalidade. Isso se a normalidade existe.

Eu? Mero protagonista. Aquele que observa, observa e observa. E, quando convém, atua conforme as regras do jogo. Nunca me orgulhei dessa postura patética. E nunca serei capaz, não ao pensar sobre tudo o que essa noite gerou, a necessidade imediata em voltar no passado e ter tomado a mesma e explícita posição do “João ninguém”, porque embora não fôssemos soldados – ou éramos e não sabíamos – deveríamos, em conjunto, defender-te. Defendermo-nos.

Agora, mãe, os farrapos da memória.

Sabes porque estou a ler ao invés de falar diretamente? Porque não sei coordenar a fala; sou bom com concreto, escalas, mapas, desenhos, tudo o que é real no imaginário e construído a partir de pressupostos arquitetônicos. Mas a égide da arquitetura familiar nunca foi meu forte.

Preciso ir. No próximo final de semana, volto, como sempre, para te visitar. Deixarei a carta na cabeceira da cama; quem sabe uma enfermeira leia e tu possais relembrar por mais que a doença esteja impedindo. Se, por um ou mais segundos puderes te lembrar de mim, de um filho que te ama sem dimensões e, igualmente, lembrar-se de outro que igualmente te amava em proporções absurdas, um cara que não se chamava “João ninguém” – porque tu não darias à luz a nenhum “João ninguém” -, se, por um instante, puderes se lembrar de Giovanni em toda sua juventude, alegria e beleza, que esse momento perdure até que o sono venha e te leve a outros confins em que somos uma família de verdade, não uma farsa histórica tal qual aquela revolução.

Mãe: não existe idade para nossas liberdades.

Na tortura das noites, insistias para que eu me acordasse calado e nunca escutavas, nunca querias escutar, mesmo que meu silêncio fosse maior de todos os sons e te pergunto, o que ganhastes? O pedido de um cálice afastado de um vinho tinto? Ou o medo de um filho que sempre amou ou tentou amar?

Tu estás calada. Solitária. Afastada dos cálices.

Lembra quando Giovanni tinha dez anos? Lembras? Ele te amava de verdade. Quando eu tinha vinte e cinco anos, nós o perdemos. E todos os nossos farrapos deram lugar às lágrimas que nunca o trariam de volta.

Hoje é vinte de setembro. Lembra quando eu tinha dez anos? Lembra que povo que não tem virtude acaba por ser escravo? A liberdade, mãe, será somente liberdade quando desejares e, a verdade, essa incógnita, é o produto do amor de dois filhos que tinham tanto a te oferecer e que, importunamente, foram transpostos do eixo do tempo e da vida. 

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Em homenagem a todas às vítimas da Revolução Farroupilha e outras revoluções.

Explicações prévias posteriores:

É, no tropel das tradições, reflexionar, não apenas como uma sociedade que nasceu num terreno de faixa chamado Rio Grande do Sul e Santa Catarina, senão em um país chamado Brasil; tarefa primordial pensar nas velhas tradições e seus ensinamentos éticos em prol do futuro das gerações vindouras.

Música de Leopoldo Rassier

“Veterano”

Link:

https://www.youtube.com/watch?v=6C4pW03l4e0

 Música de José Claúdio Machado

“Quando sopra o Minuano”

Link:

https://www.youtube.com/watch?v=uCE5tXBVFTU

Hino do Rio Grande do Sul por Neto Fagundes, em um dos maiores festivais de música do Brasil;

Link:

https://www.youtube.com/watch?v=QeV4fFxBZWw

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Foto de perfil de Ana Carolina Guimarães Seffrin

Ana Carolina Guimarães Seffrin

Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria/RS (FADISMA); Mestra em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Escritora.

  • Alexandre Bassani

    Ótimo texto Ana!

  • Rafael Junges Cruz

    Maravilhoso, escrito com alma, e, por muitas vezes inspirador. Parabéns Ana

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