Temos uma filosofia no Brasil? E do Brasil?

Costumo dizer que meus textos, para além de proporem informações, propõem dúvidas. E não há nada mais filosófico que perguntas – haja vista que, como disse um nobre escritor, os peixes são os que menos sabem da água.

Acordei hoje, após ler algumas páginas do educador Alceu Amoroso, com diversas interrogações. Tomei um café e na sacada fiquei olhando “nonada” (palavra essa que, criada pelo meu conterrâneo Guimarães Rosa, utilizo largamente). O fragmento que mais me chamara atenção, reproduzido abaixo, aponta justamente para a importância da filosofia no seio da educação – ou, em última instância, no solo do Brasil:

Vimos no capítulo anterior, como muito bem diz o sr. Lourenço Filho, que – “a pedagogia teve, assim, uma larga base filosófica, de que não pode prescindir”.76 Acontece, porém, que o sr. Lourenço Filho, e os mestres modernos que ele segue, começa por arrancar da filosofia seu próprio objeto e sua própria dignidade de ciência mestra. (Alceu Amoroso Lima, Filosofia Pedagógica II).

Alceu, escritor e educador, dedica páginas e páginas defendendo a filosofia dos supostos abusos sofridos das outras disciplinas. E isso, como apaixonado que sou pela velha arte da reflexão, me deixou bastante animado a continuar a leitura. Mas passemos ao próximo ponto, visto que não quero cansar o leitor!

Recordo-me que, ao ler uma entrevista há anos, uma historiadora portuguesa afirmara que “a filosofia ganha importância em momentos de crise”. A coruja, símbolo da velha disciplina, alçaria seus voos no crepúsculo, justamente por ser a metáfora do sombrio se aproximando.

Essa palavra [crise], tão comum no vocabulário atual brasileiro, poderia sugerir que estamos assistindo o alvorecer da Filosofia no nosso país – embora tal pensamento possua certos entraves. De um lado, desde 2007 a matéria se tornou parte integrante dos currículos do Ensino Médio, o que acarreta (se não na valorização), ao menos o conhecimento de existência da mesma. Por outro, temos visto intelectuais e sites (vide o nosso!) que ‘saem à luz do dia’ para expor conversas filosóficas, teorias e outras reflexões. Mesmo com tais intentos, ainda podemos dizer que estamos longe de termos uma cultura filosófica no Brasil. Mas… por qual motivo? Vamos tentar elucidar um dos diversos pontos, para darmos o pontapé – e, quiçá, incentivar o leitor a propor outros.

Os cursos de graduação em Filosofia no Brasil, salvo exceções, são locais de conservação de uma cultura filosófica milenar (2500 anos, lembremos!), que possui sua origem nos gregos e obedece uma linha do tempo assaz linear. Ao matricularmo-nos em tal curso, sabemos de antemão que ouviremos demasiada as ideias platônicas, o animal político aristotélico, a alma em Descartes e tantos outros temas. Eis um problema? De forma alguma, visto que tais temáticas são as bases do que chamamos de tradição filosófica. É importante à formação do estudante, bem como do futuro professor, conhecer tais bases da filosofia ocidental.

Mas… chegamos num ponto que, embora muitos alunos possam fazer tais perguntas, é negligenciado nos cursos: e a filosofia no Brasil? E, mais ainda, ‘do Brasil’? Por um lado, temos comentadores (ou comentaristas) ultra-competentes, muitos dos quais tive o prazer de ter contato. É, sim, um tipo de filosofar: olhar, desvendar, perceber a obra do outro (geralmente europeus) e construir um sistema de ideias. Mas, e quem ousa tentar ir além dessa floresta habitada pelos filósofos ditos clássicos?

Pois bem, é aí que encontramos uma grande dificuldade: a de aceitação que tenhamos filósofos brasileiros que transcendam comentar um texto de outrem. Sem querer entrar em pormenores, fiz minha dissertação com base em um filósofo brasileiro chamado Álvaro Vieira Pinto. Na época, ao conversar sobre o assunto, muitos docentes me interpelavam com “seria a filosofia do autor genuína?” – ao passo que recebiam como resposta “Há uma filosofia genuína?”.

O mito da filosofia genuína nasce quando acreditamos que os clássicos fizeram uma teoria pura, longe de interferências e influências: e isso se mostra falso. Descartes fora influenciado pela sua formação, tanto quanto os medievais, antigos, contemporâneos e modernos. A filosofia lida com o pensamento dialético, ou seja, há sempre troca entre o antigo e o novo. Mas por qual motivo insistem no mito do genuíno? Possivelmente, por crerem que “só se pode filosofar em alemão”, citando a célebre canção (que, acredito, seja irônica. É?).

Desconhecemos, e isso é um fato, grande parte dos filósofos nacionais que ousaram construir uma visão filosófica de mundo. Um dos motivos é que não valorizamos, há muito tempo, a disciplina. Seja nas escolas, universidades, nas ruas ou em casinhas de sapê. Tal ficara presa em círculos fechados, quase de ‘iniciados’, e quando ousava sair de tais era vista como impura. Já temos um movimento, ainda tímido, de cafés filosóficos, canais no Youtube, jornais, sites de textos – e outras mídias – que incorporam a reflexão filosófica como parte da pauta. E isso é de uma importância extrema no país, visto que nossa educação necessita passar por espaços que, muitas vezes, não são oferecidos nas salas de aula.

Temos de perceber que construir uma filosofia brasileira passa pela construção de uma identidade nacional. Nossos temas, já dizia Álvaro Vieira, não são os mesmos de outros países – e é um impulso necessário atermos ao nosso cotidiano, utilizá-lo como mola propulsora de nossas reflexões. Isso não significa desprezar os clássicos, e sim, tais como os clássicos fizeram, subir em ombros dos gigantes: estudar, compreender, interiorizar e criar. Estamos na terceira fase dessa cadeia lógica – que tal passarmos ao próximo ponto?

Mas o estimado leitor talvez pergunte: para que uma filosofia nacional? Para (e assim penso) percebermos que nossos problemas são dignos de teorização, reflexão e transcendência. Se a filosofia nasce da crise, como disse a historiadora do início do texto, não é na crise que ela se encerra: é onde ela toma impulso para pensar e propor soluções para nossos problemas.

Já temos uma filosofia no Brasil? Sem sombra de dúvidas sim. Pueril, iniciando-se, mas temos. E “do Brasil”? Sim, temos, mas precisamos conhecê-la – e valorizá-la, sobretudo. Somente percebendo a importância dos intelectuais que já produziram materiais de filosofia nacional e, também, criando espaços de investigação, poderemos não nos incomodar com a existência de uma filosofia ‘do Brasil’. Mas o caminho é árduo… e talvez, por isso, não desistiremos!

Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de Danilo Švágera Costa

Danilo Švágera Costa

O autor apresenta sua trajetória voltada ao ensino e pesquisa de áreas filosóficas. Além de diversos trabalhos apresentados em congressos no Brasil, seus textos alcançaram países como Portugal e México. Ademais, possui ampla experiência como educador, trabalhando em diversas escolas de nível fundamental, médio e pré-vestibulares, como professor titular desde 2007.

Pular para a barra de ferramentas