Teatro de vampiros

O título da postagem remete para uma canção da banda Legião Urbana que retrata a insatisfação humana, insatisfação essa que leva o homem a estar sempre e eternamente insatisfeito. Trata ainda da alienação humana, na qual o homem vende-se ao sistema, e a “cada hora que passa” envelhece “dez semanas” justamente por não conseguir satisfazer-se. Entretanto, a canção aponta a direção de um resgate e de uma valorização do resquício de humanidade que ainda permanece contido no ser. Diante desse quadro horrendo é preciso encontrar forças para sair e se divertir, permitir que o ser humano se manifeste em contraste ao ser objeto  exigido pelo sistema.

Mas a postagem que aqui escrevo, a primeira dessa nova proposta do blog, deseja apenas fazer uso do título da canção. Porque, para este que aqui escreve, não há, hoje, um título que melhor exemplifique e resuma o sistema sócio-econômico e político brasileiro. Vivemos em um teatro de vampiros. Somos sugados diariamente até os ossos. Sofremos pressão em todas as esferas do nosso cotidiano.

E lamento dizer, mas esse teatro não foi montado na era PT, nem na era FHC. Também é anterior a era Collor. Esse sistema possibilitou a ditadura militar no Brasil. Mas suas raízes são mais antigas. Meu campo de estudo é filosofia, portanto, o que vou aqui apresentar é uma leitura pessoal de um possível momento em que o sistema começou a criar o corpo que hoje tem.

É de conhecimento popular que o Brasil, até alguns anos atrás, era assombrado por um fantasma de nome Dívida Externa. Pessoalmente, nunca soube a quem o Brasil devia. Mas seja a quem for, essa pessoa deveria estar querendo o couro de cada cidadão brasileiro. Ao menos eu estaria muito furiosos se alguém me devesse bilhões de dólares e levasse mais de 50 anos para pagar. Enfim, a dívida existiu e, ao que parece, hoje está sanada. Ao que me consta, essa dívida iniciou com o grande plano político de Juscelino Kubitschek, o plano de metas “50 anos em 5”. Esse plano consistia, basicamente, em trazer recursos financeiros para dentro do país, proporcionando, dessa forma, uma rápida expansão econômica e estrutural no mesmo.

Acontece que todo esse recurso veio de investidores internacionais, e assim iniciou-se a dívida externa. Mas essa história é conhecida por todos. A questão crucial aqui é apontar que um grupo em especial se beneficiou por demais com esse plano: as construtoras. Foram elas quem mais tiveram espaço para consolidar seu poder e sua influência dentro do cenário político brasileiro. E essa influência perpassou governo por governo e vem perpassando mandato por mandato até os dias de hoje.

São, aos olhos deste humilde filósofo, as famílias que comandam as grandes construtoras desse país os grandes vampiros desse teatro social. A cada eleição, elegem-se aqueles políticos que firmam as mais sólidas parcerias com as construtoras. Exemplo claro disso são as obras para a tão difamada Copa do Mundo do Brasil. Vejam bem, quantos bilhões as construtoras receberam para não entregar as obras em prazo hábil. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, os corredores de ônibus estão sendo refeitos, sendo que as obras foram concluídas semanas antes da Copa e o tempo de vida das mesmas foi de poucos meses. Hoje estão arrancando o concreto que fora colocado apenas para “dar a impressão” de que tudo estava pronto. E nessa pequena brincadeira, vão-se milhões. Milhões que faltam na saúde, segurança e educação.

Meus queridos leitores, espero que vocês percebam que o “buraco é mais embaixo”. O problema do Brasil não é quem está no governo, atuando como presidente. O problema está em quem escreve o roteiro desse teatro de vampiros. Essa é a questão que deve ser pauta em nossas discussões políticas hoje. Quem está governando esse país? Ou melhor, para quem governam nossos governantes? A resposta será a mesma quero leitor.

Enquanto você ficar aí nessa falácia de “petralha”, “coxinha” e sei mais lá o que, cada vez mais políticos serão eleitos representando empresas. E em sua maioria, empresas ligadas a construção civil. Não que as obras devam parar, longe disso. Mas o que deve parar é esse país ser guiado a mão de ferro por uma elite de famílias ligadas a construção civil, bancos e agronegócio. O povo brasileiro e mais do que isso. Mas cada um precisa fazer sua parte.

Eu iria parar por aqui, até porque para uma primeira postagem já está de bom tamanho, mas vou trazer mais um dado. Deve ser de seu conhecimento caro leitor que a Câmara dos Deputados é o setor político que representa o cidadão brasileiro, enquanto que o Senado representa cada Estado da Federação. Hoje, nossa Câmara dos Deputados é composta em sua maioria por homens, brancos (as poucas mulheres nem defendem a causa feminista), da bancada ruralista, evangélica e empresarial. Ou seja, um fiel retrato do cidadão brasileiro. Ironia? Acho que está mais para desleixo e descaso do povo. Cada um tem o governante que merece.

O cenário político tornou-se a latrina do sistema. É aqui que se apresentam as falhas, os roubos e os golpes aplicados ao cidadão. E por quê? Porque o sistema não pode ser tocado. Ele se defende usando como escudo a organização política, pois sabe que o povo não vive sem uma estrutura política interna. E sabe também que o povo não é um povo político. E, por fim, porque faz do cenário político o palco para seu teatro, o teatro dos vampiros, onde o povo é a platéia que é sugada a cada ato pelos roteiristas que ficam nas sobras vendo você discutir com seu vizinho se Dilma ou Aécio deveriam ter vencido a eleição… E eles nem agradecem, mas recebem as palmas de glória da população.

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