Somos pessoas ou somos coisas?

Quem já não passou por um morador de rua e virou o rosto; ou fingiu não ver a índia adolescente amamentando seu bebê sentada na calçada; o africano vendendo quinquilharias no chão? Você pode pensar que estas questões não têm relação com a filosofia, mas na verdade o nosso olhar sobre o outro, ainda mais esse outro tornado uma coisa no contexto social, diz muito sobre nós mesmos, sobre filosofia, sobre ética, e esta reflexão impacta em muito o cotidiano.

Quando você compra qualquer produto, já sabe que ele tem uma vida útil, mas mais que a deterioração natural, existe também a decisão do fabricante de vender com um prazo de validade determinado, ou seja, algo que vai se tornar ultrapassado em pouco tempo. É a famosa obsolescência programada, que faz celulares com menos de um ano de uso serem descartados, isso sem falar em eletrodomésticos e tantos outros objetos, eletrônicos ou não.

Meu interesse aqui não é a questão da quantidade de lixo físico que produzimos e sim o quanto as relações sociais copiam essa obsolescência programada. Temos também, assim como os objetos que compramos, uma vida útil, um prazo de validade? De que maneira nos relacionamentos, nos comportamos? Como se as pessoas e objetos fossem iguais, descartáveis, outra qualidade de lixo?

Sim, você vai dizer, pessoas não são objetos, e, mais ainda, são diferentes entre si. Agora, quando a felicidade é calculada pelo número de curtidas, isso é ou não uma objetificação dos relacionamentos, ou ainda, uma coisificação de si mesmo, como um produto na prateleira?

Falo a partir do prisma da Filosofia Clínica, que é uma abordagem terapêutica com fundamento na filosofia. Na perspectiva deste método, trabalhamos com a ideia que cada pessoa tem sua própria representação de mundo, de acordo com sua história pessoal que molda um olhar sobre a vida, sua singularidade. Porém, somos desiguais em um mundo de iguais, um mundo que uniformiza comportamentos, que nos coloca em situações onde mesmo o mais sensível termina por virar o rosto, e tratar como objetos os sem-rosto que a cidade produz.

Essa capacidade de descartar a sensibilidade numa ida ao centro da cidade e retomar ao assistir a um comercial de TV, fala muito sobre que humanidade estamos alimentando ou de que maneira lidamos com nossas próprias questões internas, tornando algumas visíveis, como o comercial e outras invisíveis, como o morador de rua.

Seria descuido meu dizer que todos lidam da mesma maneira com essas situações. Lembro de um conhecido que cada vez que ia ao centro de uma grande cidade, passava mal fisicamente. As diferentes singularidades, e mesmo o estado de cada um ao enfrentar cada circunstância, pode determinar se essa pessoa será afetada a ponto de imprimir ou não mais sensibilidade na sua vida. Alguém enfrentando uma doença grave, pode estar extremamente tocado pelas emoções e mesmo assim não perceber as árvores floridas no outono. Já quem caminha ao lado, numa outra situação de vida, pode encontrar beleza mesmo onde o outro não vê.

Penso que a grande contribuição da clínica, mais ainda, da Filosofia Clínica, é a possibilidade de entender a si mesmo como ser único, onde cada singularidade se encontra ou se choca com o que é socialmente aceito. E o que deste encontro pode resultar na vida de cada um.

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Luz Maria Guimarães

Filósofa Clínica, terapeuta e empresária. Mas a vida segue linhas curvas, como o pensamento, fiz graduação e mestrado em História, e tenho um escritório de Design Gráfico. Gosto de poesia, arte, filosofia e tudo o mais, e venho trazer algumas linhas sobre como o mundo me parece. Saiba mais no site www.luzmariaguimaraes.com, ou mande um email para contato@luzmariaguimaraes.com

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