Sofrimento e arte : uma homenagem aos 229 anos do “filósofo do pessimismo”

“Em uma viagem fatigante e perigosa, ele [Heinrich Florio Schopenhauer] tomou um navio e depois a carruagem em que arrastou de volta para Dantzig, sua esposa [Johanna Schopenhauer] já no final da gravidez, e foi ali que Arthur veio ao mundo, em 22 de fevereiro de 1788”

Assim o historiador da filosofia Rudiger Safranski nos conta sobre o dia do nascimento do filósofo Arthur Schopenhauer, em seu excelente livro Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. Segundo Safranski, Schopenhauer teria nascido na Inglaterra, não fosse a insistência de seu pai de que seu filho viesse ao mundo em solo prussiano. Assim, é com grande júbilo que inicio minha contribuição para este projeto escrevendo justamente no dia em que comemoramos o nascimento (por mais que seja questionável a possibilidade dele mesmo considerar o dia da entrada de qualquer pessoa neste mundo de dores e sofrimento motivo de comemoração). Para tanto, gostaria de tecer alguns comentários e explicações (quase que de maneira acadêmica) a respeito do pessimismo, tentando elucidar do que de fato se trata esse pessimismo comumente atribuído a ele que, vale lembrar, difere consideravelmente de outros filósofos do pessimismo, especialmente os mais contemporâneos, como o de Emil Cioran, por exemplo. Ademais, numa tentativa salvar o sentido da existência, apresento por cima as considerações ascéticas de Schopenhauer a respeito da natureza da arte.

Schopenhauer é facilmente reconhecido como o grande filósofo do pessimismo (quando não o pai do pessimismo). Essa denominação não me deixa muito feliz justamente por fazer parecer que antes dele o mundo era a coisa mais maravilhosa que existe e que todas as pessoas amavam suas vidas e a existência, mas Schopenhauer teria vindo e inventado uma forma depreciativa de interpretar a existência em sua filosofia. É verdade que ele alimenta certo desgosto pelas banalidades do mundo, que ele pôde conhecer de perto quando, aos 15 anos, saiu com seu pai e sua mãe para conhecer o mundo.

As experiências depreciativas a respeito do mundo que ele colheu nesta viagem, somadas aos estudos renderam, de fato, uma apreciação negativa do homem e do mundo. A Estética de Schopenhauer, descrita no livro III de “O mundo como Vontade e como Representação” é, num certo sentido, um marco em seu pensamento por expressar uma saída que ele via na arte para livrar a humanidade, por um breve momento que seja, da sentença irrevogável do sofrimento na qual ele – o homem – estaria fadado em razão da natureza volitiva da existência. É verdade que ele apresenta outra opção, que parece ser definitiva, através da ascese. Mas como um sujeito minimamente conformado com a minha natureza desejante, me interessa mais a solução temporária apresentada pela arte, por mais que, em meus estudos da filosofia de Schopenhauer, me aproxime muito mais das discussões da Ética no livro IV d’O Mundo como Vontade e como Representação.

O sofrimento não é meramente um postulado ou uma hipótese ad doc de Schopenhauer para que as outras partes de sua filosofia tenham coerência. Ele é o resultado de uma importante reflexão que surge quando o autor encontra em Kant a resposta para o modo que nos é possível conhecer o mundo. A proposta de Schopenhauer adotada a partir de Kant é de que os objetos que conhecemos são o “resultado” da relação entre o objeto independente do conhecimento e o conhecimento humano, na medida em que este último aplica certas “qualidades” àqueles objetos, como o tempo e o espaço. Estas qualidades que me permitem conhecer um objeto como estando “aqui e agora” são inerentes à capacidade humana de conhecer; estão presentes na mente humana que aplica aos objetos que estão fora dela, mas não estão nos objetos mesmos. Só é possível conhecer o mundo, pelo menos para Kant, enquanto ele satisfaz as exigências para que possa ser conhecido pela mente humana como portador daquelas qualidades que aplicamos a ele no processo do conhecimento. Este objeto, que é conhecido, Kant chamará de fenômeno, enquanto aquilo que não pode ser conhecido denomina a coisa em si, ou seja, o mundo independente de nós humanos e do nosso conhecimento.

Schopenhauer aceita esta ideia de Kant. No que diz respeito ao fenômeno, ele chamará ao mundo que existe somente na medida em que é conhecido pelo homem como Representação, uma vez que só exista na medida em que é representando pelo sujeito do conhecimento, que “constrói” este mundo. Diferente de Kant, no entanto, Schopenhauer acredita numa via de acesso segura àquilo presente por trás dos objetos representados, isto é, uma forma de acesso à coisa em si mesma. Veja que por mais que no mundo percebamos a pluralidade de seres e objetos, Schopenhauer não fala em “coisas em si mesmas”, mas numa única coisa que seria o núcleo do mundo inteiro. Isto porque a pluralidade não é uma característica inerente ao mundo, mas é o resultado da aplicação das formas a priori do conhecimento humano: o tempo, o espaço e a causalidade, que Schopenhauer vai chamar de o princípio de individuação. Ora, se é a mente humana que reconhece o mundo como portador de individualidade e pluralidade de seres e objetos, é logicamente correto afirmar que na ausência do conhecimento só haja uma única coisa. O mundo independente do conhecimento humano só pode ser uma única coisa, e esta está por trás de todas as representações, inclusive o homem – que é mais uma representação sustentada também por esta mesma coisa em si que é o núcleo de tudo o que existe. Ele acredita, então, que o homem, como uma classe especial de representações, possuindo o poder da razão pode, em alguma medida, encontrar em si mesmo algo elementar e que o defina como sendo em essência, aquilo que ele reconhece como elementar e que, por dedução, é também o núcleo de todo o mundo. O autor acredita encontrar a resposta para isso no atestado de que somos nós seres humanos, acima de qualquer coisa, seres volitivos. Ou seja, ele argumenta que a coisa em si não é outra coisa se não Vontade.

Fora do mundo como Representação então só existe a Vontade una, que contempla uma face do mundo onde tudo que existe é ela mesma em sua totalidade, e que está presente em toda manifestação empírica que podemos conhecer no mundo como representação. Ora, sendo a vontade e somente ela este outro lado do mundo que não pode ser apreendido pelo olho humano, o seu querer só pode ser voltado para si mesma. Ou seja, no seu mundo particular, a Vontade quer Vontade, quer ela mesma e uma vez que só há ela, está em constante processo de desejo e satisfação entre querer a si mesma e ter a si mesma. O problema reside quando a vontade sai de seu mundo particular e dá origem ao mundo que só existe diante do olho humano. Isto porque, como já disse, só no mundo como representação é possível a existência da individualidade e da pluralidade. Nesse mundo, regido pelo mesmo querer incessável, a Vontade permanece querendo a si mesma, mas como ali há pluralidade, querer outro objeto é como querer a si mesma, um vez que ela se reconhece em todo objeto e todo ser vivente. Viver, neste sentido, é querer e nunca deixar de querer. É jamais estar satisfeito por completo, pois a raiz da natureza é vontade que, diferente de como ocorre no mundo como Vontade, onde só há ela e ela pode se satisfazer constantemente, no mundo como representação o desejo jamais é satisfeito, pois a cada objeto existe um objeto de desejo em potencial.

É neste sentido que encaramos o pessimismo de Schopenhauer. A existência é uma completa insatisfação, pois a raiz do mundo nos leva a jamais estarmos completos e buscarmos com toda a força de nosso coração algo que acreditamos ser o objeto de nossa felicidade, mas constantemente nos deparamos com a insatisfação e o desgosto de descobrir que aquilo que antes representava tudo, agora não passa de um objeto jogado ao canto que dá lugar a um novo desejo, e a cada desejo há um sofrimento de buscarmos aquilo que não temos, pois a ausência do objeto de nosso desejo é responsável pela dor que sentimos, e a presença deste objeto não leva a outra coisa se não ao tédio e a um novo desejo, e logo a um novo sofrimento. Pouca ou talvez nenhuma esperança resta para nós, seres volitivos, na nossa busca por satisfação.

Entretanto ele parece ter encontrado uma saída temporária, uma espécie de momento de paz para onde podemos ser levados através da experiência estética. Esta experiência depende, no entanto, de uma categoria de homens como os da caverna de Platão que conseguiram se desprender das correntes e contemplar as Ideias. O que Schopenhauer afirma é que entre a manifestação da Vontade no mundo como representação através da pluralidade, existe um meio termo que seriam exatamente o que Platão chamará de Ideia. São os arquétipos do mundo que ao serem representados através daquelas categorias a priori presentes no indivíduo formam a pluralidade. Neste sentido, estes arquétipos estão muito próximos à coisa em si mesma. São as manifestações diretas dela, cuja experiência sem o interesse de conhecimento é possível a uma classe especial de homens: o Gênio artístico. Este é capaz de uma mirada não verbalizável no mundo extrair mais que representações. Ele extrai a Ideia, o arquétipo por trás de nossas representações que ligam este mundo ao mundo como Vontade. A experiência estética, neste sentido, é uma aproximação com a vontade, uma saída da pluralidade do mundo, responsável pelo sofrimento. Um “derramamento” do individuo nas proximidades do núcleo do mundo e da sua própria existência.

Neste sentido, as pinturas, esculturas e todas as demais formas de arte não são na verdade uma cópia do mundo, mas são a forma como o Gênio nos leva a suspender o conhecimento, o chamado princípio de individuação e nos permitirmos por um breve momento que seja a contemplação dos arquétipos da natureza: as Ideias. A obra de Shakespeare, neste sentido, nos chama a atenção não por contar a história de um amor proibido, no caso de Romeu e Julieta, e do sofrimento daquele casal por não poder ficar junto, mas aquele caso nos coloca num estado de contemplação pura do arquétipo que norteia tantas outras representações do dia-a-dia.

Há, entretanto, uma forma especial de arte. Schopenhauer acredita que a música é uma linguagem que vai além da Ideia. A harmonia das obras de Vivaldi, por exemplo (escolhi Vivaldi por ser o meu compositor favorito) nos coloca diante da própria raiz do mundo, pois ela não expressa uma mirada não verbalizável para a Ideia, mas diretamente na Vontade, onde o juízo não é capaz de interferir. É neste sentido que o autor escreve que “a música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende”, pois a linguagem da razão é justamente o limite do mundo como representação. Os caminhos trilhados pela arte são obscuros à razão, em especial os caminhos da música, que nos levam do núcleo do mundo e da nossa própria existência. Para ter uma experiência genuína com a raiz do mundo, deixemos de lados nossos discursos e argumentos filosóficos, nossas labutas e os devaneios do dia-a-dia e escutemos como a arte nos fala lá no fundo. Numa experiência que nós mesmos não podemos compreender. Se para Platão o Belo era difícil, em Schopenhauer a natureza na Beleza da obra de arte é, no limite, indescritível.

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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