Só sei que nada sei

Quando criança eu ouvia muito do meu pai a frase clássica de Sócrates: “Só sei que nada sei”. Claro que, aos sete anos, ainda não conhecia nada de filosofia e me espantava a ideia do paradoxo desta frase, como alguém poderia não saber nada? Como a única certeza pode ser a incerteza? As certezas do mundo adulto não existiam?

Mal sabia eu, que até então tinha experimentado como único desafio intelectual ler o livro O Pequeno Príncipe inteiro em umas férias chuvosas, que a frase dita pelo meu pai tão pomposamente, iria estar presente durante toda minha vida.

Pensando do prisma de hoje, falar de incertezas nos anos 70 pode ser enganoso, pois de onde estamos, era uma época de certezas absolutas, onde a internet ainda não havia invadido nossas vidas. Mas para um bom historiador, que olha as mudanças mais de perto, vai lembrar também da ditadura militar, da Guerra Fria, as primeiras transmissões da TV brasileira via satélite, enfim, um mundo que mudava a cada dia em ritmo acelerado, trazendo incertezas profissionais, emocionais e inclusive físicas.

Ter escutado atentamente essa frase tão cedo, me fez olhar para esses lugares de incerteza com mais cuidado. Também entendi que lidamos com um nível de certezas muito baixo, na verdade suposições, pois a vida pode mudar radicalmente de uma hora para outra, ou ainda, estar mudando lentamente e não percebermos. Você não sabe se na esquina seguinte não vai virar o pé e passar três meses com um gesso limitando os movimentos, isso para dar o exemplo mais prosaico. É claro que coisas boas podem acontecer a qualquer instante, o reencontro com uma pessoa querida cujo contato havia sido perdido, ou mesmo as reflexões positivas durante o período em que esteve com o pé engessado.

Ao conhecer a Filosofia Clínica, entendi que cada pessoa olha a incerteza em um lugar diferente, a partir da sua compreensão de mundo, dos seus referenciais e história de vida. Na minha própria história pessoal, que relatei um pequeno fragmento sobre a reflexão de meu pai nas palavras de Sócrates, a incerteza é algo familiar, que não causa desconforto, apenas é contornada gentilmente, olho para um mundo onde tudo é incerto como um infinito de possibilidades. Mas isto acontece a partir de uma compreensão de mundo particular, para você que está lendo este artigo, a incerteza pode ser algo assustador e estar em lugares determinados na sua vida, onde pode ser controlada.

Entender que o que é incerto para um pode ser uma certeza inabalável para outro muda a perspectiva, nos torna singulares. Somos únicos como a Alice, correndo atrás do Coelho com um relógio, caindo em um buraco e uma realidade onde tudo é estranho e incerto, mas tudo o que é estranho aos outros pode ser normal aos nossos olhos.

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Luz Maria Guimarães

Filósofa Clínica, terapeuta e empresária. Mas a vida segue linhas curvas, como o pensamento, fiz graduação e mestrado em História, e tenho um escritório de Design Gráfico. Gosto de poesia, arte, filosofia e tudo o mais, e venho trazer algumas linhas sobre como o mundo me parece. Saiba mais no site www.luzmariaguimaraes.com, ou mande um email para contato@luzmariaguimaraes.com

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