Silêncio: Entre a virtude e a falácia

Certa vez, em uma aula de filosofia ainda no ensino médio, formulei uma frase e a escrevi na contra capa do meu pequeno e estufado caderno; esperei a aula terminar e dirigi-me ao estimado professor para mostrar e lhe pedir o que ele pensava sobre tal. A frase era um misto de Sócrates com autoajuda “Facebookiana” e dizia mais ou menos o seguinte: “Quanto mais aprendo, penso que menos sei; e por saber que pouco sei, calo-me em frente àqueles que dizem saber”. Logo, o professor sacou uma lapiseira e rabiscou a minha frase, exclamando verbalmente: “o problema do silêncio é que ele é uma adaga de dois gumes”.

Você, nobre leitor, já deve ter lido em algum lugar que silenciar-se frente algumas situações pode levar o indivíduo à sabedoria, ou algo do tipo. Pois bem, logo porque, ao que parece de certa forma, as pessoas que se portam de tal maneira, rementem a intelectuais, pessoas que pensam e refletem, possuem uma visão crítica sob certos aspectos da “realidade” (o que geraria uma outra longa discussão).

Contudo, a questão não é essa – e talvez a resposta já apresentada tenha passado despercebida. Não é propriamente o silêncio – e isso pode parecer óbvio para alguns – possuidor de significado estreito à sabedoria, mas sim a observação. O silêncio é mera consequência de um cérebro que grita; de ideias que brotam e não se organizam facilmente.

Ao que me parece, de forma leiga, o ser humano tende a estereotipar muitas das condutas, estilos, gostos, prazeres. Isso quer dizer, “se você se porta de forma quieta e observadora”, tende também a fumar cachimbo lendo Shakespeare em inglês dentro de sua sala decorada com tapete indiano; escrever em uma “Olivetti” que está sobre a mesa de mogno, enquanto o “whisky” lhe faz companhia.

A essa altura do texto – a qual talvez já tenha desviado o foco do tema – você deve estar pensando: “esse cara não falou nada que eu já não soubesse”, contudo, ressalta-se a reflexão feita pelo professor. O silêncio pode significar algo bom, sim, mas também pode ser associado a conivência e/ou falta de argumentação, despreparo. Pode-se até ir mais longe, supondo-se que tal atitude é egoísta e confortável, pois – quando não utilizado esse tempo para auto crítica – nada mais representa, se não ignorância (do verbo ignorar).

Um exemplo claro – tente recordar – era (é) quando o professor ou palestrante, enfim, ao final da sua fala, indaga: “Alguma dúvida? (Silêncio) Bem, acredito eu, então, que todos absorveram tal conhecimento…”. Se, de fato, o silêncio provém do caos interno que o momento gerou, ótimo! Mas não deixe de falar, pronunciar aquilo que achas que deve expor. A liberdade de expressão não está a serviço dos momentos que contam a favor da maioria; liberdade de expressão é o princípio da expressão da liberdade. O silêncio pode até significar algo favorável, mas é sempre subjetivo, não fique à mercê da boa-fé.

Além do silêncio ser uma adaga de dois gumes, esses mesmos são bem afiados, visto que, por vezes, mesmo que a verdade seja difícil de ser ouvida, não há nada que gere mais agonia do que o silêncio; e nesse caso, esse silêncio (de outrem) culmina em devaneios que podem revigorar ou adoecer.

Portanto, arrisco-me a dizer, mais do que com as palavras, tenha cuidado com o silêncio, tanto quando o fizer, como quando o sentir.

Sugestão para ouvir: “É preciso” – Jota Quest.

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Renan Peruzzolo

Reside em Concórdia - SC; Graduando de direito na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Interessa-se por assuntos referentes à Ciência Jurídica, Filosofia, Ciências Sociais, Economia, Relações Internacionais, Geopolítica, História e Psicologia/Neurociência.

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