Seu nome é Jesus Cristo


Por Ricardo Luis Reiter
Seu nome é Jesus Cristo e passa fome
E grita pela boca dos famintos
E a gente quando o vê passa adiante
Às vezes pra chegar depressa à igreja
Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa
E dorme pelas beiras das calçadas
E a gente quando o vê aperta o passo
E diz que ele dormiu embriagado

Entre nós está e não o conhecemos!
Entre nós está e nós o desprezamos!
Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto
E vive mendigando subempregos
E a gente o vê diz é um à toa
Melhor que trabalhasse e não pedisse
Seu nome é Jesus Cristo e está banido
Das rodas sociais e das igrejas
Porque dele fizeram rei potente
Enquanto que ele vive como pobre
Entre nós está e não o conhecemos!
Entre nós está e nós o desprezamos!
Seu nome é Jesus Cristo e está sedento
Por um mundo de amor e de justiça
Mas logo que contesta pela paz
A ordem o obriga a ser de guerra
Seu nome é Jesus Cristo e está doente
E vive atrás das grades da cadeia
E nós tão raramente vamos vê-lo
Sabemos que ele é um marginal
Entre nós está e não o conhecemos!
Entre nós está e nós o desprezamos!
Seu nome é Jesus Cristo e é maltrapilho
E vive nos imundos meretrícios
Mas muitos o expulsam da cidade
Com medo de estender a mão a ele
Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem
Que vive neste mundo e quer viver
Pois pra ele não existe mais fronteiras
Só quer fazer de nós todos irmãos
Entre nós está e não o conhecemos!
Entre nós está e nós o desprezamos!
O interesse aqui não é fazer uma homilia, muito menos um tratado sobre o mistério da ressureição de Jesus. Muito antes, o que aqui faremos é analisar o que levou Jesus à cruz, uma vez que a lei judaica não permitia a pena de morte (apenas apedrejamento de mulheres). De fato, Jesus foi condenado sob a lei romana, sendo talvez um dos primeiros episódios em que os militantes de esquerda padecem sob as tramoias daqueles que estão no poder.
Sim, eu disse militante de esquerda. Isso surpreende alguém? O crime de Jesus foi apenas esse: tornar-se um líder de um movimento social que buscou trazer melhorias para o povo, libertando-o das amarras sociais e do peso das leis judaicas que apenas privilegiavam a classe dos fariseus, sacerdotes e mestres da lei. Seus crimes foram proclamar-se filho de Deus e pregar nos sábados. Aliás, esse era um aspecto que muito incomodava Jesus: a hipocrisia do sábado santo. O sábado santo era a síntese da hipocrisia da lei judaica. Era preferível que você morresse, ou deixasse alguém querido, ou um bem seu se perder do que fazer o esforço para salvá-lo.
Mas continuando, a revolução social que Jesus estava provocando ia de encontro direto ao modelo social vigente na época. E o que mais incomodava o grupo dominante era o sucesso que Jesus fazia. Basta olhar os relatos bíblicos que testemunham a massa que seguia Jesus por onde ele passava. Jesus já não era apenas um falso profeta, ou alguém que não respeitava as leis judaicas. Jesus era um líder de um movimento que desencadearia a guerra civil na Palestina e arredores. Jerusalém estava prestes a implodir-se em uma revolta social.
Porém, eis que Caifás dá-se conta de algo. Aqueles que seguiam Jesus eram uma grande massa. Mas uma grande massa de analfabetos políticos. E como tal massa, era facilmente manipulável. A traição de Judas representa a manipulação do povo. De seguidor à traidor por míseras trinta moedas de prata. Aquela massa que seguia Jesus deserto a dentro, sedentos por ensinamentos, cala-se diante do julgamento de seu ex-mestre.
O que aconteceu com Jesus é semelhante ao que aconteceu com Sócrates na Grécia, por exemplo. Ambos são condenados por crimes forjados, que apenas escondem a real intenção de seus julgamentos. Jesus não era um criminoso diante de Roma. Mas foi crucificado. E por quê? Por que Pilatos, que estava convicto da inocência de Jesus concorda com a sua crucificação? Muito simples. Pilatos era o governador Romano em Jerusalém. Ele percebeu o seguinte cenário: um andarilho desencadeara um movimento social que estava levando a região a uma revolta social e, consequentemente, a uma guerra civil. Se tal situação se agravasse, e o exército romano tivesse que intervir, Pilatos provavelmente seria destituído de seu posto, pois não dera conta seu papel.
Pilatos fez o que ele precisava fazer par manter o status quo: eliminou a ameaça. A crucificação de Jesus é política. A vinda do messias é política. O projeto para o povo de Deus é um projeto de revolução político social. E isso se estende até os dias de hoje. Quantos morreram lutando por mudanças sociais. Quantos militantes de esquerda tombaram pela manutenção do status quo do governo?
Então, desculpem-me os cristãos de hoje. Mas a maioria de vocês são hipócritas. Passam o ano batendo panelas contra as melhorias sociais, gritando que bandido bom é bandido morto. Mas na sexta-feira santa comem peixes e dizem que estão de jejum pela morte de seu Cristo. HIPÓCRITAS. Vocês continuam a crucificar Jesus diariamente. Em cada postagem contra programas sociais, em cada piada racista, homofóbica e preconceituosa. Cada vez que vocês viram a cara para alguém em situação de rua. Em cada ato de vocês, exigindo intervenção militar, acabando com os direitos sociais ou vendendo-se a partidos políticos em troca de facilidades, vocês repetem o gesto de Judas. Mas, ao menos Judas deu-se conta e enforcou-se. Mas vocês são hipócritas dem
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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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