Histórias para o Brasil Part. 1 – Introdução

Para o indivíduo sincero é sempre desconcertante falar sobre o Brasil ressaltando qualquer outra coisa que não sua diversidade. Este fato está ligado a uma realidade pulsante: no Brasil a mistura é a regra, onde outros países conseguiram manter determinadas identidades em espaços comuns, no Brasil a indistinção se manteve.

Tal indistinção, no entanto, aumentou o desafio de fundamentar o sentimento de pertença do cidadão ao seu país, e, desprovido deste sentimento, o cidadão é automaticamente afastado das chances de colaborar na definição dos rumos do país. No que diz respeito aos demais países de proporções continentais, com exceção da Índia, cada um foi capaz de produzir sua própria auto-imagem no imaginário de seus cidadãos, os EUA com a ideia de liberdade[i], a China com a ideia de progresso compartilhado[ii], a Rússia com o orgulho eslavo[iii]. No Brasil  a distinção de uma identidade única é impossível, os traços culturais, étnicos, espirituais e intelectuais são tão diversos que seria uma perda de tempo procurar um enquadramento único.  Outrossim, mesmo a Índia, e suas milhares nações, conta com um traço comum inexistente no Brasil: a herança religiosa milenar e o sistema de castas.

Partindo da compreensão segundo a qual o conhecimento é um processo sempre em curso, e mesmo as mais clássicas e importantes obras são apenas etapas deste processo, podemos dizer que a influência da obra dos grandes intérpretes do Brasil serviu ao efeito de produzir a base discursiva para que os (então) futuros operadores do Estado pudessem justificar suas ações. A nobre tarefa do intelectual: produzir novas descrições para coisas cujas descrições atuais não são mais úteis.

Retomando o tema central, mesmo diante de tal diversidade, já houveram momentos em que todo o país parecia unido em torno de um ou mais objetivos, para citar alguns exemplos: o populismo e o trabalhismo de Getúlio Vargas, o governo popular de João Goulart, a luta pela redemocratização do país, os protestos contra Fernando Collor, os governos do ex Presidente Lula e a disputa acerca do impedimento da ex Presidenta Dilma Rousseff. Em todos  os momentos citados os registros fazem parecer que toda a diversidade do país deu lugar a uma polarização de tipos muito “simples” entre apoiadores ou opositores de determinado regime ou personalidade política. Em cada um dos momentos citados houve um fato, uma emoção ou uma estratégia que uniu os cidadãos individualmente, a sociedade como um todo e a classe política sob um ou mais objetivos comuns. Outros momentos da história nacional conseguiram unir apenas os cidadãos individualmente, ou apenas a opinião pública e outros ainda apenas a classe política. São exemplos, respectivamente: as tentativas fracassadas de eleição do ex Presidente Lula, a eleição de Fernando Collor e o Golpe Militar de 1964.

Ou seja, para que possamos ter novamente a união dos cidadãos individualmente, da sociedade na forma da opinião pública e da classe política, é necessário recriar aquelas condições que um dia nos uniram. No entanto, o problema se torna mais complexo justamente quando consideramos que tais condições foram produto da atuação de diversos atores que cooperaram, ou não, para aquele momento. Ou seja, não é possível estabelecer uma teleologia da mobilização a partir de um passo a passo simples para um determinado agente.

Desta forma, resta aos amantes do Brasil a função de construir narrativas que fundamentem a união entre as diversas identidades culturais, étnicas. Obviamente  que tais narrativas, por si, não produzirão esta união. No entanto elas são o pressuposto dos projetos políticos, sociais e afetivos que venham a ser criados. Sem essas narrativas a imaginação institucional brasileira fica refém da distopia comum que já experimentamos  na rejeição da política e da própria ideia de espaço público. Seguindo o conselho de um dos nossos mais interessantes intelectuais vivos, Roberto Mangabeira Unger, podemos dizer que é necessário sublimizar o espaço público, transformá-lo no centro das grandes realizações.

A energia criativa típica dos brasileiros, dos melhores e dos piores, precisa ser direcionada para a atividade de criar imagens para um um país à nossa imagem e semelhança, uma democracia brasileira que dê conta de endereçar nossas demandas de forma harmônica, dinâmica. Esta criação, longe de ser algo a ser começado, já possui bases firmes na literatura, na música, no futebol e no cotidiano de nossos rincões e subúrbios. Desta forma, minha primeira contribuição para este espaço pautará estes elementos já presentes em nosso imaginário e que possuem o condão de contar uma história na qual cada brasileiro possa se ver parte, e possa fazer parte. Minha esperança é que o leitor possa sentir-se impelido a imaginar sua própria história para o Brasil, por isso deixo o convite: Imagine-se diante de uma folha em branco na qual você tenha a tarefa de desenhar e descrever o melhor aspecto do brasileiro, após completo o desenho logo abaixo descreva a última vez em que viu a manifestação daquele aspecto.

[i] Susan Neiman diria que os EUA são a realização constante do iluminismo.

[ii] O nacionalismo chinês é produzido não apenas pela máquina de propaganda do governo, mas pela própria percepção do progresso realizado como país.

[iii] Aleksandr Dugin promove atualmente uma verdadeira cruzada em prol deste orgulho, com apoio de Putin e de grande parte da intelectualidade russa.

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Marcelo Silva

Marcelo Silva, 26 anos, doutorando em Filosofia Prática pela UFRJ, graduando em Direito e mestre em Filosofia Política, Liberalismo e Pragmatismo. Com pesquisa em Teoria da Justiça, Teoria Institucional, Teoria Moral, Análise Econômica do Direito e Liberalismo Político. Leitor e ouvinte de Blues, Jazz e da literatura e música brasileira, de Cartola a MC Zói de Gato, de Villa Lobos à Manezinho Araújo, de Machado de Assis à Ruben Fonseca. Militante progressista e amante de um bom café.

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