Quando os pecados do meu pai pousarem sobre minha alma

Fotografia: Cristian Giordani

“Calei as feridas que a traição deixa (…).” (TRUEBA, David. Blitz. São Paulo. Planeta do Brasil, 2017, p. 32).

Há um pouco de mentira em cada verdade. Por via das dúvidas, é melhor pensar na tênue linha entre aquilo que é, por natureza, genuíno ou honesto e diagramas infligidos pela oposição chamada farsa. Os vocábulos são dados aos homens. Contrastá-los não é, em absoluto, tarefa difícil.

Paradoxos existenciais: a verdade liberta. Pelo menos são essas as palavras do novo e velho testamento. Em Zacarias 8:16 + Eféfios 4:25: Falai a verdade cada um com o seu próximo. Reticências: há um pouco de mentira em cada verdade.

Sei que há destruição e adultério, mas não admitirei ser controlado ou sujeito do domínio das hipocrisias familiares. Não posso deixar meu futuro escapar como areia entre as mãos. Tampouco esquecer aqueles que queimaram quando acreditei na palavra ternura.

É muito tarde para voltar atrás. Vejo a escuridão de dias que se foram, de tempos em que as ideias escaparam; noites de insônia e pesadelos intermináveis.

Um corvo pousa sobre minha janela. Os gatos tentam atacá-lo, mas não sabem, com precisão, a sutil diferença entre uma janela aberta e fechada. Em verdade, não são apenas os gatos que desconhecem o inacessível. O tempo ditou as regras do voo da liberdade; enclausurou as evidências das relações sensíveis. Ele, o pai, morreu. E, ao falar sobre sua morte, sinto uma forte dor no peito, o naufrago da dor mental, dor incalculável e é óbvio que me faz sofrer, tudo como uma ferida para sempre aberta. Sou adepto da ideia de que não era sua hora.

A discussão a respeito da passagem do tempo já não possui nenhuma utilidade. Nascemos, crescemos e vivemos até que as mãos são erguidas, como em um assalto, e a morte oferece o tiro fulminante.

Olhos negros do corvo observam-me. Brilham, como se estivessem repletos de sabedoria. A ampulheta da vida. Visto a camisa social negra, o torno de mesma tonalidade e escolho a gravata de mesma cor.

A frase costura cada redemoinho de meus axiomas: olho por olho, dente por dente.

Logo o cerne dessa história será desvendado; pediria paciência. Enquanto ponho a gravata, penso, em inglês, no trecho de uma música que diz come join the murder – venha se juntar ao assassinato. Una-se aos corvos. Aquele corvo fantasmagórico, que está na janela, continua a observar-me. É um psicólogo ou psiquiatra em busca de respostas. Ele sabe que a trama é repleta de uma série de conflitos. Mas nada disso interessa. Não mais.

A vestimenta é refúgio natural. Minha trajetória, a partir desse período, seguirá fluxos precisos. Serei senhor de meu destino. Serei senhor de minha alma. Não busco a essência perfeita. A causa de minhas ações é a descoberta do livre arbítrio. É Newton: ação e reação.

Um distúrbio no silêncio. Um distúrbio mental e psicológico por não aceitar as regras da vida e a clareza acústica de dois segundos após o disparo, quando a pistola calibre 38 reverberou O momento da vingança; não existem mais abandono, tampouco aceitação; e chega a ser estranho causar a morte de outrem quando seus olhos observam nitidamente, entre a arma, a vítima, outra morte. Duas mortes em um velório. Os silêncios esquadram as vozes altas de desespero e correrias. Nenhum pingo de sangue em minha roupa. Escolhi a vestimenta certa. Logo estarei dentro de uma caixa. A vingança, em certos casos, não é erro, senão redenção. O negro de meu terno ante o sangue espalhado no chão. Ele cai. O primeiro tiro acerta o ombro direito. O segundo, a cabeça.

Antes de qualquer coisa, devo advertir que nunca tive vocação, tampouco desejei, nem nos maiores delírios, assassinato. Caso exista reencarnação, pagarei a dívida da vida em colapsos. Mas ele, o homem baleado e sem pudores, não apenas ultrajou a anatomia da destruição psicológica. Quando descobri a verdade sobre minha irmã, tive de recusar todos os discursos de pacifismo. Ele a matou destruindo sua identidade; violentou-a. E os minutos de sofrimentos ininterruptos jamais apagarão a dor da memória. As dores físicas da memória. Todas as outras incomensuráveis dores. Asas quebradas; a asa de um anjo caído. E ainda consigo recordar o relato na completude: tudo o que conseguia ouvir significava relâmpago de aflições como se a martírio fosse uma nota sonora.

Minha irmã, não resistiu. Mas foi capaz de falar a verdade com cada um de seus próximos.

A sociedade, defeituosa, ignorou o grito de suas dores incomensuráveis.

Renan, um amigo, disse-me: a honra, em certas situações, tem muito mais tem a ver com vaidade do que com dignidade.

Que assim o seja

Disparei a arma. Ele, por sua feita, suprimiu e eliminou-a. Check-mate; tornando-a refém de um pesadelo. Fez da palavra “dor”, uma regra.

Depois, apenas resquícios de pólvora. Estou vestido com cores apropriadas para permanecer em outra caixa de madeira e, quando a terra vier, os vermes deglutirão resquícios de esperanças e desejos; o funeral, depois dos dois disparos, colocou o violentador em um caixão, tal qual o homem que estava dentro de uma caixa funerária, dentro de outro palco, como uma espécie de vampiro que seguiu o único código de conduta que estrangularia a traição de um passado de silêncios e mentiras.

Make it rain. A verdade nem sempre liberta. E, quando a chuva cair, tudo será pólvora de um pesadelo passado.

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Foto de perfil de Ana Carolina Guimarães Seffrin

Ana Carolina Guimarães Seffrin

Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria/RS (FADISMA); Mestra em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Escritora.

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