Proteção de linha

Eu? Uma peça, tecido levemente moldado ao cuidado. Ao zelo das mãos dela, eu me sentia levemente viva por saber que me cabia e me moldavam numa pele, num corpo, num ser… que angustiava em ter receio dos olhos humanos sob si.

Sou seda, porém, existe também a tal da dona viscose, que em seu processo de vida já se mantinha em farrapos. Entretanto, venho aqui relatar um pedaço de mim sob Vanessa.

Podemos ser chamados de panos. Contudo, agradaria a minha pessoa ser adjetivada de máscara para o corpo. Eu era o acúmulo naquele corpo medroso. Nossa carne compostas de peles (linhas) e músculos se decompuseram feito tecido podre nos extremos que ela ocultava.

Eu era uma sociedade (pano) que vestia as carnes despidas, eu era uma sociedade da qual, para alguns membros, caberia ter a função de esfumaçar a visão do corpo interno para focar no corpo externo, porque somos um corpo também que protege outro corpo – cuja lavagem já fora feita mil vezes. Ela necessitava de mim, e permanecer isolada da visão humana, para ela, era sentir-se segura.

Queira eu me encaixar à alma dela e construí-la e vendá-la com meus acúmulos de linha.
Vanessa me vestia quase todos os dias, dava-me banho ao sentir- me suja, me secava ao sol.

Gostaria de poder gritar para Vanessa que ela poderia sentir-se leve e gostosamente livre ao contato humano. Vanessa era mantida no seu mundo de modo que o contato, para ela, era medonho. Eu, a seda, era o seu contato e se ela soubesse o que eu sentia ao ser tocada pelo vento, aprenderia a ser alcançada pelo seu oposto, se permitiria evaporar das dores tensas que camuflava ao me usar.

Vanessa não sabia que eu sentia por ela a dor de ser sozinha. Sei que sou um pequeno tecido que lhe cobre do mundo, mas que não esconde-a dos seus medos e vontades de ser ou não ser alguém. Parece que eu escrevo por ela ou para ela. Só gostaria que ela se revelasse mais, pois seria sorte do mundo ver a formosura de Vanessa. Sei que não sou a única que faz do seu corpo uma peça escondida, porém, eu me sinto a sua veste de proteção: ela me incorpora a sua estrutura e eu a salvo do medo dos olhos sob ela.

Até quando permitirá se ocultar? Vanessa não tem respostas, ela nunca pensou na possibilidade de se despir do medo e ser a leveza dos seus próprios traços.

Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de Myra Soarys

Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

Pular para a barra de ferramentas