Por uma estética com bases em Marx

É verdade que Karl Marx, autor do livro O Capital, não publicou nenhum livro sobre estética. Também é verdade, porém, que Marx deixa transparecer em seus escritos princípios estéticos, ou até colunas para uma teoria estética, que nunca foi publicada. E tais apontamentos são mais comuns em sua juventude, nos escritos do “jovem Marx”, e conforme ele amadurece vão se tornando mais escassos, mas sem deixar de estar nas entrelinhas de obras do “velho” Marx, como o já citado O Capital. 

Alguém pode-se perguntar no que se fundamenta, ou o que traz de novo a abordagem de Marx da ética. A resposta é clara, mas está espalhada em seus escritos. Talvez seja irônico, mas a passagem que, aos olhos deste que aqui escreve, melhor apresenta a tese de Marx, não está nas suas mais famosas obras, mas sim em um artigo escrito em 1842 para a gazeta Renana e publicado aqui no Brasil (juntamente com outros 5 artigos) pela L&M POCKET sob o título Liberdade de Espresssão: 
“O escritor certamente deve ganhar sua vida a fim de existir e de poder escrever, mas não deve de nenhuma maneira existir e escrever a fim de ganhar a vida.” (MARX, Karl. Liberdade de expressão, p. 77)

Está curta afirmação traduz e expressa a importância da estética para Marx. De fato, para ele, a estética, a produção artística é condição essencial e até primordial para afirmação do homem enquanto ser humano. A arte é o reduto último da humanidade do ser no humano. Existe no homem uma necessidade inata de produzir artisticamente. E conforme a produção vai se tornando manufaturada, corrompida pelo capitalismo, mais o homem perde sua humanidade, mais ele se torna um mero objeto, um pingente de uma máquina que produz por conta.
Lê-se a seguinte passagem nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos:
“É verdade que também o animal produz. Constrói para si um ninho, habitações, como a abelha, castor, formiga, etc. No entanto, produz apenas aquilo de que necessita imediatamente para si ou sua cria; produz unilateralmente, enquanto o homem produz universalmente; o animal produz apenas sob o domínio da carência física imediata, enquanto o homem produz mesmo livre da carência física, e só produz, primeira e verdadeiramente, na sua liberdade com relação a ela; o animal só produz a si mesmo, enquanto o homem reproduz a natureza inteira; no animal, o seu produto pertence imediatamente ao seu corpo físico, enquanto o homem se defronta livremente com o seu produto. O animal forma apenas segundo a medida e a carência da espécie à qual pertence, enquanto o homem sabe produzir segundo a medida de qualquer espécie. E sabe considerar, por toda a parte, a medida inerente ao seu objeto; o homem também forma, por isso, segundo as leis da beleza. (MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos, p. 35)

A produção segundo as leis da beleza, ou a produção artística é, para Marx, o diferencial entre o ser humano e o animal. Não se trata apenas de uma produção com grau mais elevado. Trata-se de uma produção com sentido, com objetivo anterior aos instintos de sobrevivência. O homem não produz apenas para sobreviver. Ele produz para firmar-se no mundo. O Ser humano transforma o mundo para responder a uma necessidade inata de produção artística. 
Isso pode parecer estranho, mas é completamente plausível. Basta analisar o contra exemplo. Ao estar preso em um sistema onde exige-se uma produção humana sem arte, e aqui volta-se a primeira tese apresentada, na qual o homem produz qualquer coisa para sobreviver, sem a oportunidade de se firmar enquanto ser humano, ou seja, sem responder e saciar essa sua necessidade inata de produzir artisticamente, o homem acaba por adoecer e sua vida perde o sentido. Surge então uma descoberta de cura milagrosa e que resgata a auto estima das pessoas que tem atividades “estressantes”: os livros de colorir para adultos. 
Eu lhes pergunto, o que são os livros de colorir para adultos senão uma desesperada tentativa de permitir que cada ser humano possa, num curto intervalo de tempo, entrar em contato com essa sua necessidade de produzir artisticamente e saciá-la? É simplesmente isso. Não surpreende a este que aqui lhes escreve que tal iniciativa, tais livros, sejam um sucesso. É da natureza humana produzir artisticamente.
Mas a tese central de Marx alerta para o perigo daquele que precisa condicionar a sua arte ao sistema. Ou seja, aquele que produz artisticamente, ou dedica sua vida a arte, mas que precisa produzir aquilo que o sistema deseja comprar. e aqui se encontram cantores, pintores, artistas dos mais variados meios, escritores… Quão triste é encontrar um artista triste porque precisa interpretar um papel dado pelo sistema ao invés de produzir a sua própria arte. 
E finalizo aqui citando Pierre Zaoui. Em sua palestra disponível no YouTube, Zaoui faz um pertinente questionamento: não devemos analisar as sociedades pela sua produção econômica ou militar; precisamos avaliar as sociedades sob o prisma de sua produção artística. Ou seja, nos perguntar, quais sociedades produzem os artistas mais interessantes?
Este é um questionamento fundamental principalmente porque rompe com a lógica do sistema. de fato, nem sempre quando um certo país estava em acensão econômica ele produzia manifestações artísticas relevantes. No Brasil, encontramos uma explosão artística de altíssima  qualidade em um dos momentos mais opressores de sua história, a ditadura militar. Até hoje ecoa e houvem-se canções daquele período, muito porque foi uma produção marcante. Da mesma forma, governos podem acabar com a manifestação artística de um país, como aconteceu na Rússia durante o governo de Stalin. Portanto, se fossemos apontar hoje, uma sociedade com artistas interessantes (veja que o termo é interessantes e não famosos), para onde olharíamos? Ouso dizer que a França ainda possui artistas interessantes (artistas englobando quem produza qualquer forma de arte). Mas posso estar enganado… 
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