Por que ler Marx?

Durante toda a história da Filosofia, os filósofos tiveram a liberdade de criar novas formas de observar o mundo e atribuir-lhe respectivos significados de diversas visões. Entretanto, nenhum deles teve a proposta de realmente modificá-lo por meio de seus pensamentos e trazer à tona aquilo que estava coberto pela ignorância. Todavia, Karl Marx (1818-1883) teve por objetivo quebrar esse padrão histórico-filosófico por meio de suas obras. Tal propósito fica claro no último item de seu texto “Teses sobre Feuerbach”, publicado postumamente por Friedrich Engels (teórico revolucionário alemão) em 1888: “Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo”.

Marx nesse aspecto foi o pioneiro, e é por isso que seu pensamento se torna estrondosamente audacioso quando nos deparamos com tais finalidades provindas de uma fundamentação criada a partir do materialismo histórico.

Esse materialismo histórico é uma tese do marxismo (sistema ideológico que critica radicalmente o capitalismo e proclama a emancipação da humanidade numa sociedade sem classes e igualitária), segundo a qual o modo de produção da vida material condiciona o conjunto da vida social e política. Em suma, é um método de compreensão e análise da história, das lutas e das evoluções econômicas e políticas.

Dessa maneira, o método é uma abordagem ao estudo da sociedade, da economia e da história. Além disso, seu pensamento é desenvolvido por meio de uma dialética (que consiste em abordar a questão a ser discutida na forma de tese e antítese, com objetivo de chegar-se a transcendência de ambas, na síntese, que seria uma terceira tese), criada pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831).

Por meio desse materialismo histórico dialético, Marx trará em sua grande obra “O Capital” uma forma de pensamento gradual, na qual haverá também a sobreposição de diferentes graus de complexidade, sendo desdobrada por uma investigação precisa e maciça do sistema capitalista e suas respectivas contradições. Além disso, suas observações sobre o mesmo deixam claro que possuíam uma finalidade prática e política (por essas e outras que apelidaram-na de “Filosofia da práxis”, ou da prática).

Ademais, essa evolução sucessiva de seu raciocínio é separada por meio de duas esferas que são interligadas entre si: base e superestrutura. Sendo a primeira as relações sociais e materiais de uma civilização, na qual estará presente todas as condições de produção da mesma (o tipo de vegetação, o clima, as matérias primas, as riquezas do solo, etc.). A última, de outro modo, estará todos os pensamentos e idéias que há na sociedade. Significa que a superestrutura de uma sociedade é um reflexo da sua base material. Percebemos assim, a conexão desse dualismo presente em cada coletivo. Por essas e outras que Marx decide iniciar sua grande exposição sobre o sistema capitalista por meio da mercadoria e suas respectivas problemáticas, afirmando o seguinte:

“A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma “enorme coleção de mercadorias”, e a mercadoria individual, por sua vez, aparece como forma elementar. Nossa investigação começa, por isso, com a análise da mercadoria.” (O Capital, Livro 1, Página 113, ed. Boitempo)

Desse modo, concluímos que sua análise parte das micro relações para um nível de complexidade enorme, demonstrando que cada um dos elementos observados mais de perto possui um mecanismo que influencia muitíssimo no conjunto de todo o sistema capitalista. Resumindo, cada ponto levantado pelo pensador faz parte de uma gigantesca gama de acontecimentos que afeta um corpo social.

Outrossim, o economista clássico traz dentro de sua obra o tema da famosa “Luta de Classes”, que influenciou diversos acontecimentos no século XX (em especial a Revolução Russa de 1917), na qual expressa o embate entre burgueses (capitalistas) e proletários (trabalhadores), na qual há a briga dos primeiros pelo aumento da exploração dos segundos, e o enfrentamento dos últimos por melhores condições de trabalho. Por isso, o entrechoque de ambos exprime a famosa frase de Marx: “A luta de classes é o motor da história.”

Gostaria de deixar claro também que por mais que essa temática seja classificada como um posicionamento político revolucionário e de esquerda, Marx não inventou o Socialismo e o Comunismo, além do que o mesmo era ferrenho crítico dos comunistas do século XIX e se opunha veementemente aos que se diziam marxistas de sua época. Convido você leitor a ler “O Casaco de Marx” (de Peter Stallybrass) e tirar suas próprias conclusões a respeito da vida desse pensador.

Todavia não há como mensurar de que maneira seu legado influenciou direta ou indiretamente quaisquer acontecimentos postumamente, mas o estudo de seu pensamento é indispensável para mentes lúcidas. Não para que concordemos e façamos disso um mantra, mas para que venhamos a compreender um momento chave que certamente determinou muitos outros que se seguiram depois.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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