Podemos Reconhecer a Reificação na Sociedade Atual?

                              Marcelo Teixeira de Jesus

             Reificação é um conceito do início do século XX, esse conceito foi desenvolvido pelo pensador Georg Lukács. Reificação significa tornar algo em coisa. O conceito tem origem na palavra latina res, que significa coisa. O tornar coisa aqui deve ser compreendido, como Lukács pretendia, que todas as relações humanas, no sistema capitalista, são vistas como meros objetivos a serem alcançados, ou seja, as relações humanas são meras “coisas”. Melhor dizendo as relações humanas são relações coisificadas,as relações humanas são realizadas em vista de objetivos. Para Lukács, todas as relações humanas são relações reificadas. Isso inclui relações amorosas, afetivas, de entretenimento, todas as relações interpessoais são realizadas em vista de objetivos. Não há relação interpessoal que não seja reificada, para Lukács. Por que Lukács acredita que todas as nossas relações são reificadas?

            O sistema capitalista tende a dizer como as nossas relações devem ser, como devemos nos relacionar, quais as roupas devemos usar para sermos aceitos em sociedade, como devemos agir, qual o modelo ideal de pessoa; o sistema capitalista não quer apenas que consumamos produtos, ele quer nos dizer como devemos ser. Dessa forma nossas relações se tornam “coisas”. Nossos projetos, relações e objetivos de vida são pautados em busca desse “ideal”. E qual é esse ideal? É um ideal inacessível, que está em freqüente mudança, pois, essa mutabilidade desse “ideal” é necessária, pois dessa forma o sistema está sempre se renovando. Mas se todas as nossas relações interpessoais são reificadas como podemos ter acesso a elas?

            Acredito que nem todas as nossas relações são reificadas, acredito que a categoria de reconhecimento não é reificada. Para ser mais exato me refiro à primeira fase de reconhecimento que Axel Honneth trata em seu livro intitulado Luta por Reconhecimento. Em Luta por Reconhecimento, Honneth atualiza a categoria de reconhecimento do filósofo alemão Gerg W. F. Hegel. A categoria de reconhecimento em Hegel trata, basicamente, da relação dicotômica do opressor e do oprimido no curso da história. Na antiguidade essa relação pode ser vista na disputa do senhor e do escravo, na idade média na relação do senhor feudal e do seu servo, e na época de Hegel nos primórdios do capitalismo no confronto da burguesia e do proletariado, classe que começava a surgir. Na atualidade esse conflito não se dá apenas entre dois grupos, esse conflito se dá na sociedade civil, que é composta por vários grupos sociais. E esses grupos sociais têm interesses diversos, e todos querem que seus interesses sejam reconhecidos pela sociedade.

            Em outras épocas históricas não havia uma diversidade social tão vasta e uma gama de reivindicações tão grande. Em outras épocas históricas o que era reconhecido era apenas os direitos dos dominadores, os direitos desses contemplavam, ou deveriam contemplar, a todos os membros da sociedade. Devido à diversidade de grupos sociais na atualidade, os direitos de alguns não podem contemplar a toda a sociedade, por isso a categoria de reconhecimento de Hegel, segundo Honneth, deve ser atualizada.

            Honneth nos apresenta a categoria de reconhecimento dividida em três dimensões distintas: i) amor, ii) direito e iii) estima social (ou solidariedade). Acredito que a primeira dimensão, a do amor, se for bem desenvolvida no sujeito pode fazer com que esse possa reconhecer as relações reificadas do sistema capitalista. Refiro-me a dimensão do amor porque Lukács nos diz que todas as nossas relações, no sistema capitalista, são relações reificadas, inclusive relações afetivas, por isso, acredito que o bom desenvolvimento da dimensão do amor da categoria de reconhecimento pode fazer com que o sujeito possa reconhecer as relações reificadas; ou seja, acredito que nem todas as relações do sistema capitalista são relações reificadas.

            A dimensão do amor, segundo Honneth, está ligada com a infância dos sujeitos. Não diria apenas com a sua infância, mas essa relação é anterior ao nosso nascimento, ela começa a se dar quando ainda estamos nos formando no útero de nossas mães; pois uma criança que já é amada e recebe todos os devidos cuidados, tais como pré-natal e outros cuidados médicos, antes mesmo de seu nascimento, deverá receber muito amor, carinho e cuidados após seu nascimento.

            No primeiro estágio da dimensão do amor há um vínculo de ligação muito íntimo entre a mãe e seu bebê; há nessa relação, como diz Winnicott, uma ligação simbiótica, onde o bebê é dependente da mãe, mas a mãe não é um sujeito independente do bebê, ela se vê ligada dependente ao bebê, pois só assim ela se reconhece como mãe. A dependência é mutua. Contudo, ao afirmar que a dependência é mutua, deve-se deixar caro que a responsabilidade não é mutua, a responsabilidade pelo bem estar e desenvolvimento da criança é de responsabilidade de seus pais. Na ligação simbiótica o bebê é totalmente dependente da mãe. Por esse motivo é importante que se tenha um cuidado especial com o bebê, dando-lhe amor e carinho, amamentação correta, visando o seu desenvolvimento físico e emocional. Nesse período a mãe só se reconhece mãe devido ao seu vínculo com o bebê e o se reconhece como um “ser” amado pelos cuidados empreendidos pela mãe. Nessa fase do desenvolvimento o bebê não se vê ainda como um ser independente de sua mãe. Quando se diz que o bebê não se vê como um ser independente da mãe, não se está afirmando que ele se percebe como um ser depende de sua mãe no sentido que ele dependa dela para que ela realize as atividades básicas para manter a sua vida e bem estar, não, se está afirmando que o bebê não distingue a sua mãe como um outro ser, ele a vê como uma espécie de sua extensão, como se os dois fossem o mesmo ser, por isso que se diz ligação simbiótica.

            O estágio seguinte à ligação simbiótica é chamado de agressividade ou destrutivo É nesse estágio que a criança dá seus primeiros passos para a construção de sua identidade. Esse estágio é chamado de agressividade porque há um afastamento brusco da mãe com o seu bebê, esse, o bebê, em um primeiro momento não compreende esse afastamento da mãe. Mas, é esse afastamento da mãe que faz o bebê perceber que há um mundo à sua volta, se não houvesse esse afastamento o bebê não teria acesso a esse mundo. Logo, esse afastamento brusco da mãe, que é agressivo ao bebê, se faz necessário para o seu desenvolvimento. Esse afastamento é o que desencadeia a fase dos objetos ou fenômenos transicionais.

            Como o próprio nome sugere esse é um período de transição. Essa transição se dá em duas etapas, na primeira etapa a criança elege certos objetos que possam suprir esse afastamento brusco da mãe. O objeto aqui pode ser qualquer coisa, desde um bicho de pelúcia, a simples orelha de um bicho de pelúcia, o objeto não é necessariamente algo inteiro, pode ser apenas parte do todo. Esses objetos passam a ter um caráter afetivo e ajudam a criança a suprir a ausência da mãe. O uso de objetos faz com que a criança possa ir à segunda fase de estágio de transição que é chamado de estar só sem medo. Os objetos eleitos peã criança para suprir a ausência da mãe, faz com que a criança aprenda a viver só no mundo exterior. Esses objetos são importantes para o desenvolvimento psíco-motor da criança, pois sem esse desenvolvimento o bebê não desenvolverá o chamado amor maduro, que é o último estágio da dimensão amorosa ou afetiva.

            No chamado amor maduro a criança já é capaz de reconhecer o amor da mãe, mesmo ela estando longe, e a reconhece como um ser independente, e reconhecendo a mãe como um ser independente ela, a criança, se reconhece como um ser independente da mãe.

            O bom desenvolvimento da dimensão amorosa ou afetiva, do bebê pode auxiliá-lo, quando estiver inserido efetivamente na sociedade, a reconhecer relações reificantes, para que esse não se torne um ser reificado. Mas quando ele, efetivamente, estará inserido na sociedade? Quando for adulto e a começar a sua vida profissional, ou quando começar a freqüentar a creche ou a escola? Para Lukács, todas as relações na sociedade capitalista são reificantes. Logo, podemos afirmar que desde seu primeiro contato com a sociedade, o sujeito já está sofrendo a influência da reificação, sendo assim podemos afirmar que a reificação começa na escola.

            A escola, que deveria ser um local de aprendizagem, é um local que reifica o indivíduo. Pois a escola é apenas uma parte da sociedade, e como tal ela reflete também os interesses da sociedade. É na escola que certos valores, despercebidamente, são reproduzidos. Por exemplo, você só é visto como um sujeito socialmente aceito se usar um tênis de tal marca. Essa é uma atitude reificante que não considera o sujeito, mas o considera pelo o que ele usa. Não importa a sua inteligência ou a sua relação com seus pares e outros membros da sociedade, o que está em jogo é com que o sujeito faça parte do jogo; e fazer parte do jogo é ser um sujeito reificado, que aceita as regras do mercado que diz: que você será um sujeito melhor se usar o tênis tal, de tal marca, caso contrário, você não é aceito. Essas regras de mercado tende a ter um caráter universal, e são cruéis, principalmente com as crianças, tendo em vista que essas não têm maturidade suficiente para compreender o que está em jogo. Quando um pai ou uma mãe diz não para uma criança, essa muitas vezes não compreende o porquê desse não. A criança não recebendo o objeto de desejo, aceitável socialmente, pode se sentir menosprezado pelos seus colegas, tendo em vista que ele não tem o objeto aceitável, apenas um “símile”.

                   Se a criança tiver bem desenvolvida a primeira dimensão de reconhecimento talvez ela possa ignorar essas ações reificantes, negando dessa forma ser reificada e ser vista apenas como uma mera coisa, valorando-se como indivíduo, ou melhor, dizendo, se auto-valorando como sujeito. A expressão “se auto-valorando” tem um valor intrínseco ao sujeito, pois o sujeito se auto-valora, diz para si e sabe o valor que tem para si, negando dessa forma a reificação. Na sociedade capitalista, que é uma sociedade cujas relações tendem a ser reificadas, a auto-valoração só pode ter um caráter intrínseco ao sujeito, pois na sociedade capitalista o que é aceitável socialmente é a valoração mercadológica; ou seja, aquilo que o mercado diz que é aceitável. O sujeito que aceita a valoração mercadológica está se autorreificando; dessa forma o sujeito passa a ser visto como uma coisa pelos demais membros da sociedade. Contudo, não podemos afirmar que o sujeito que se autorreificou tem consciência que ele se tornou uma coisa, pois, ele faz parte de um sistema complexo que, talvez, não permita que ele tenha consciência do que esteja acontecendo consigo. Para que a reificação não tome conta de nossas vidas, devemos tentar eliminá-la já no seu estado embrionário, e onde estaria o embrião da reificação? Na escola.
            É na escola que iniciamos a nossa vida social e é na escola que começamos a ter contato com a reificação. Se não usamos o tênis tal não somos aceito, se usamos o tênis tal somos aceitos. Mas uma criança não está preparada emocionalmente para lidar com esse tipo de coisa, é nesse momento que deve aparecer as figuras da mãe e do pai, que serão importante para o desenvolvimento da criança, e para dizer como a criança deve lidar com essa situação. Aqui temos um ponto que pode ser decisivo para o futuro da criança frente a reificação, a atitude dos pais frente a uma situação que envolve o seu filho: comprar ou não comprar o tênis tal? Comprando o tênis tal deixarão o filho contente e ele será aceito facilmente pelos outros coleguinhas; contudo, podem estar dando o primeiro passo para que seu filho seja visto como uma”coisa” e não como sujeito, e podem estar facilitando dessa forma a sua autorreificação.Não comprando o tênis tal estarão dificultando a sua inserção no seu meio social; contudo, podem estar ensinando a criança uma grande lição, dizendo a eles que essas relações que se dão por aparência podem não ter um valor afetivo que deveriam ter, que as pessoas devem gostar dele pelo o que ele é, e não pelo o que ele possa ter ou aparentar ter ou ser.

            Esse primeiro “não” que os pais dizem à criança pode ser salutar nas suas futuras relações. Pois passando pela escola e se negando a ser reificado, chegando à idade adulta, talvez, esse sujeito possa perceber que a reificação está presente em toda a sociedade: no trabalho, em relações amorosas (nem todas, talvez), nas mídias e em geral. No trabalho podemos notar a reificação na impessoalidade no meio de trabalho e na uniformização dos empregados. Cada vez mais nos empregos os funcionários conversam menos entre si, as empresas criam cada vez modos de impedir o relacionamento entre seus funcionários: impedindo que colegas de serviço possam namorar, não contratando parentes de funcionários, fazendo divisórias entre uma mesa e outra. Outro meio de reificação encontrada pelas empresas é a uniformização de seus funcionários. O funcionário atualmente não usa apenas o uniforme da empresa, ele deve agir, ter uma postura tal, usar o corte de cabelo aceitável pela empresa, em certos casos estar bem barbeado; todas esses exemplos podem fazer com que o indivíduo passe a se sentir como uma “coisa” e perdendo assim a sua pessoalidade, tornando-se assim reificado. Mesmo superando o obstáculo de ser reificado na escola, recebendo apoio da mãe e do pai, o sujeito quando chega ao meio profissional pode ser reificado. Pois, quando chega ao meio profissional o sujeito se depara com aquela uniformidade da empresa onde os sujeitos se vestem igual, estão barbeados e usam o mesmo corte de cabelo (no caso dos homens), os sujeitos não conversando uns como os outros, ele pode achar que esse ambiente impessoal do trabalho seja normal, aceitando assim a reificação.

            Para que isso não acontece, a mãe e o pai desse sujeito devem prepará-lo desde novo para a vida. Ainda lá na escola quando a criança tiver seu primeiro contato com a reificação, sua mãe e seu pai devem lhe dizer que não é só na escola que a reificação está presente, ela pode estar presente em todas as nossas relações: trabalho, conversas informais. Temos que saber reconhecer a reificação, e ademais, temos que saber como não ser reificados. Só podemos reconhecer a reificação se tivermos um bom desenvolvimento da primeira dimensão do reconhecimento, amoroso ou afetivo, contudo afirmo aqui que essa dimensão do reconhecimento tem que estar sempre presente em nossas vidas, pois, não podemos viver sem amor e sem sermos afetuosos.     

Referências:
Honneth, Axel. Luta por Reconhecimento. Editora 34, 2ª edição (2009)
Honneth, Axel. Reificação: um estudo de teoria do reconhecimento.
Hegel, Georg W. F. Fenomenologia do Espírito. Editora Vozes, 9ª edição (2002)
Adorno, Theodor W. e Horkheimer, Max. Dialética do esclarecimento.  (Fonte: http://antivalor.vilabol.uol.com.br)

Lukács, Georg. História e consciência de classe. Editora Martins Fontes (2003)
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