Pobre menino rico – A fábula pós-moderna do burguês que não aguenta a pressão da expectativa

Eu nasci e cresci dentro do que no Brasil chamamos de classe média baixa e pobres. Conheci durante a minha socialização muitas pessoas que sofriam na pele e na realidade todo tipo de carência, mas principalmente a material. Do meu tempo de ensino fundamental, ostentação era ter R$0,50 para comprar o sonho do bar da escola, já que o normal era todo mundo se lambuzar e repetir a merenda gratuita oferecida pela escola, que para alguns era a única refeição do dia. As minhas escolas eram públicas (municipal ou estadual) com direito a tudo que uma escola pública brasileira tem de pior (violência, drogadição, evasão escolar, gangues, armas, gravidez precoce, professores desinteressados, falta de professores, falta de estrutura, descaso das autoridades, enfim, tudo que tem numa escola pública de periferia). Não que não haja possibilidade de se formar ou se tornar um bom estudante saindo da escola pública, porém, nesse ambiente a dificuldade é muito maior.

Para meus colegas de ensino fundamental e médio vencer na vida era: para homens, não entrar no mundo do crime e sair da escola para um emprego estável de carteira assinada; enquanto que para as mulheres, se formar aos 17 anos antes de ser mãe. Ou seja, nesse tipo de realidade, a expectativa de futuro não era algo exuberante, já que muitos desses estudantes ao se formar no ensino médio conquistavam muito mais que seus pais que na maioria das vezes, nem isso conseguiam em termos de educação. Havia dentro da escola sempre aquele aluno ou aluna que se sobressaía em dinheiro com relação aos demais, nada absurdo, a maior ostentação que essas pessoas faziam era ter o material escolar mais caro, ir para a escola com roupas e sapatos de marca ou circular com o celular do modelo mais novo. Conheci nesse período gente que literalmente morava numa maloca e que fazia questão de gastar muito para ostentar marcas e modelos de celulares caros. Naquela época, eu entendia aquilo como “o pobre que come ovo e arrota peru”, e via aquilo como uma grande bobagem, já que não tratava-se apenas de aparência e ilusão. Outro grupo que se destacava era dos alunos mais empenhados, ou com melhor estrutura familiar (pai e mãe presentes) que faziam curso técnico do Senai, no turno inverso da escola, onde depois já eram encaminhados para alguma das fábricas da cidade para o primeiro emprego.

Da turma daquela época, uma parte eu perdi para a violência, alguns como vítima outros como agressores; a outra parte, é muito bem-sucedida e feliz com seus empregos, pagando suas contas e prestações, tendo seus filhos e sua rotina diária de 8 ou até 12 horas de trabalho. Há ainda dentro dessa margem aqueles que foram além, e conseguiram ir acima da expectativa da sociedade sobre eles, conseguindo fazer a faculdade. Eu estou entre estes estudantes, saí da escola pública e entrei na faculdade privada através do Prouni (ou como alguns dos meus “colegas de berço” diziam – pela porta dos fundos) onde me deparei com a realidade de quem sofria com as altas expectativas. Veja bem, eu que saí de escolas com tráfico e armas correndo solto dentro e ao redor da escola, onde ter um bom professor de português que realmente quisesse dar aula era a maior sorte do mundo, agora dividia a sala de aula com filhos de médicos, advogados, juízes, engenheiros, e todo tipo de gente “muito bem-nascida” que desde a mais tenra idade era educada nas melhores e mais caras escolas. Gente que não apenas era fluente em inglês, mas que estava aprendendo a terceira ou quarta língua na escola de idiomas mais cara da cidade, que nas férias faz mochilão na Europa patrocinado pelos pais. E dentre esse grupo de “filhos bem-nascidos”, ou como eu chamo – “herdeiros do mundo”- há dois tipos que se destacam: os “riquinhos exibicionistas”, que são ricos mesmo e fazem questão de gastar seus milhares de dólares de mesada com luxo e futilidades; e os “pobres meninos ricos”, que são os filhos de grandes e médios empresários, que se apresentam contra o capital, que bancam o “desencanadão”, comunista, anarquista, mas que não recusam a mesada gorda ou o benefícios que tem por ser filho de quem é. Nos dois casos, ambos são ricos por herança, e não há mal nisso, eu se tivesse nascido nessas condições também aproveitaria as minhas oportunidades.

O que me incomoda nessas atuações de dos “herdeiros do mundo” é a desonestidade intelectual de uma parte desse grupo. Particularmente, eu acho que o “riquinho exibicionista”, apesar de quase sempre se tratar de uma pessoa superficial, tem uma atitude honesta. Honesta no sentido que essa pessoa sabe que é rica, que é privilegiada e age como tal, não finge pertencer a qualquer classe oprimida, porque ela se vale completamente da opressão social do qual é beneficiada. Enquanto que os “pobres meninos ricos” pagam de comunistas, anarquistas, politizados, defensores das causas sociais, mas que quando precisam se valer dos benefícios do capital que tanto “desprezam”, o fazem sem a menor culpa, em qualquer situação. E o pior, esses “pobres meninos ricos” fingem ser pobres muitas vezes, para justificar suas posições e opiniões. Sobre os “pobres meninos ricos” paira a ideia de que não é fácil viver com grandes expectativas, onde todo mundo espera que você leve adiante o nome e a fortuna da família. Eles não querem ter de trabalhar tanto quanto seus pais ou antecessores para manter o alto nível de vida. O que eles querem é a liberdade de viver o sonho de liberdade vivendo como cidadão do mundo, bancado às custas da mesada eterna dos pais. Afinal de contas, tudo o que eu quero é vender a minha arte na praia e aproveitar a vida. E o pior é quando esses “pobres meninos ricos” conseguem convencer os verdadeiros pobres que encontram na faculdade de que todo o sistema é uma opressão e que todos deveriam de alguma forma boicotá-lo, como eles fazem. E os pobres que de fato vivem a realidade da carência material acreditam naquela encenação, e muitas vezes até jogam fora as oportunidades que eles poderiam e deveriam aproveitar dentro da faculdade, porque compraram o discurso que tudo aquilo é tudo é apenas opressão. É claro que há opressão na faculdade, ninguém nega isso. Só que aquilo que os “pobres meninos ricos” enxergam como a pressão de manter o nome e o patrimônio da família, para outras pessoas é a grande oportunidade de mudar a própria realidade.

E agora, esses “pobres meninos ricos” não estão apenas dentro das universidades vendendo o sonho anarquista e vivendo quase que em segredo a comodidade do capital. Eles estão se popularizando nas redes sociais nos chamados sites de conteúdo alternativo, e vendendo imagem do “vagabundo” bem-sucedido. O cara que larga o emprego bem-remunerado, que abandona a carreira promissora para ser adestrador de coalas na Austrália, para vender tapioca gourmet na praia badalada de Florianópolis, ou para abrir algum negócio alternativo qualquer. Como? Com uma ajudinha financeira do pai aqui, um carro de presente ali, uma mesada lá, ou seja, com todo apoio financeiro possível e desejável. Afinal, é muito mais fácil se arriscar a viver o sonho da aventura infinita, sem rotinas e sem cobranças, tendo todo o apoio e financiamento dos pais. É muito mais fácil enfrentar o mar num cruzeiro de luxo, do que numa jangada. O que não admito é a hipocrisia desses “pobres meninos ricos” tentando me fazer engolir a conversa fiada de que eles são bem-sucedidos por mérito próprio, por ter coragem de largar tudo e viver o sonho azul. É muito mais fácil querer ser o filho pródigo, quando sabemos que alguém está trabalhando duro para manter tudo aqui guardadinho para você. Quero ver ter coragem para largar tudo quando não se tem nada, nem ao menos um pinto para dar água. Quando se tem de escolher entre as contas, as responsabilidades e os sonhos. Quando o que a sociedade espera de você é apenas que seja um assalariado honesto e um bom pagador de impostos. E eu não tenho nada contra viver fora ou além do sistema capitalista, na verdade num mundo ideal, todas as pessoas deveriam viver seus sonhos e não apenas perder a vida tentando ganhá-la em uma fábrica, um canteiro de obras ou um balcão. A diferença é que para muitos dos meus colegas de ensino médio e fundamental usar um avental e ficar atrás do balcão era o único emprego disponível, enquanto para esses “pobres meninos ricos” é a realização do tal sonho alternativo de liberdade se tornar um empreendedor da sofisticada vida gourmet.

A grande diferença entre o “o pobre que come ovo e arrota peru” e os “pobres meninos ricos” é que: o primeiro ostenta, porque na ostentação encontra não apenas satisfação, mas também autoestima; o segundo, finge ser oprimido porque não aguenta a pressão de ser um dos “herdeiros do mundo”; quer apenas usufruir do conforto e da comodidade, mas não querem ter que sujar as mãos no processo. E enquanto isso o mundo gira, e quem “pode” vai viver o sonho, e quem não pode tenta sobreviver.

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