Pingentes

“A filosofia deve fazer o papel de moderador das diferentes formas de pensamento; jamais deve agir como polícia do modo de pensar”. Indiretamente, cito aqui Guillaume Le Blanc e sua palestra A vida pode ser fora das normas? (vídeo da palestra completa). E essa postagem fará uso de algumas ideias levantadas pelo filósofo em sua palestra, juntamente com colaborações minhas.

É sabido que toda e qualquer sociedade em que se vive, para que a mesma exista e se mantenha, é realizado um “acordo social”. Esse acordo consiste em uma série de normas e leis que regem a vida social naquele espaço. Um casamento, por exemplo, é um acordo social. A vida em família, é um acordo social. A organização de um país, seja democracia, tirania, monarquia, parlamentarismo, é um acordo social. Basicamente, um acordo social consiste em cada indivíduo abrir mão de seus direitos naturais e repassar a manutenção do bem estar social para uma representação. Em algumas formas de governo (as mais autoritárias), esse acordo é forçado. Em outras, é deliberado a respeito. Mas em todas as formas, cada cidadão tem um certo valor, um papel a desempenhar dentro do sistema.
Dentro do acordo social, existem três locais onde um indivíduo pode se encontrar: incluso, excluso ou em estado de precariedade. E aqui começamos nossa abordagem, a partir do que Le Blanc apresenta em sua palestra, com experiência nos revolucionários de Maio de 68 na França (Foucault, Derrida, Deleuze). 
A experiência, ou o estado, de inclusão é aquele no qual o indivíduo tem as propriedades sociais  mínimas necessárias , sem as quais ele não poderia se desenvolver. Aqui se encontram todas as teorias que defendem um estado de bem estar social, e também as políticas públicas (indiferente do que motiva as mesmas). Mas, em suma, estar incluso é estar dentro das leis, ou regido pelas leis. 
A experiência de exclusão é aquela na qual não se possui estas propriedades sociais. Em outras palavras, significa estar fora do conjunto de leis que regem o contrato social. E quem aqui se encontra já não é mais visto, ouvido, reconhecido… Voltaremos a este ponto daqui a pouco. Por hora basta ressaltar que aquele que está a margem da sociedade é comumente rotulado como violento, ameaça, vulgar, imoral… Entenderemos isso mais adiante.
Por fim, temos ainda aqueles que se encontram em um estado de precariedade. Consiste em continuar a estar integrado na sociedade, graças a certos bens. Isso garante uma vida cotidiana garantida, mas com um pé dentro e outro fora da sociedade, uma vez que já existe uma perca das sociedades maiores de inclusão. E aqui quanto mais a vida é excluída, mais ela escorrega para fora das leis. 
E como ocorre essa migração? Em tese, o próprio Estado (ou sua forma econômica e de governo) acabam por dar conta disso. O estado neo-liberal, que aflorou após o Maio de 68, trouxe em seu ventre uma desumanização do ser humano. E voltaremos a isso adiante. Por hora, serve de exemplo a disputa que existe dentro do mercado de trabalho. Quem não se profissionaliza acaba por se tornar obsoleto, ultrapassado. Deixado a margem. E este é apenas um exemplo.
E o que é uma vida fora das leis? Basicamente, é uma vida que já não é mais reconhecida como tendo capacidade de ser dentro de um espaço comum de leis. É uma vida que foi banida. Equivale dizer que é uma vida que perdeu seu significado para com o mundo. É uma vida que parece não valer a pena ser vivida.
Esse processo de exclusão, de fragilização social é, em suma, o processo de perda de voz, imagem e humanidade do indivíduo. E agora vamos começar a retomar os pontos que deixamos abertos acima.
O indivíduo excluído perde sua voz não porque ele não tem voz (como muitos autores defendem), mas sim porque sua voz é destituída de sentido. Ouvimos nossos pais porque a voz deles tem sentido. O mesmo ocorre com um professor, com um líder em relação aos seus liderados. Eles são portadores de vozes que ecoam e cuja mensagem tem efeito e sentido para quem os ouve. A voz do excluído, entretanto, perde seu sentido, seja porque se tornou bárbara ou porque já não é mais levada em consideração. Em muitos casos, por não ser mais escutado, por ver que sua voz não é mais levada em consideração, o marginalizado acaba recorrendo a barbárie para ser escutado. Mas ele não percebe que esse movimento apenas o afasta do seu ouvinte. No Brasil, temos o fenômeno do funk, que surgiu como forma de expressão do marginalizado, através de uma música que, antropologicamente falando, afeta os instintos primitivos do homem, e com letras que defendem a ostentação, a vulgaridade e a “imoralidade”, confrontando o sistema de leis do contrato social.
O passo seguinte é o excluído tornar-se invisível, não porque não tem um rosto, mas sim porque sua voz (que se perdeu) já não pode ser associada ao rosto que a carrega. Em tese, para que eu não te veja, basta não te escutar. Assim você se tornará apenas mais um em meio a tantos. E aqui abro espaço para uma canção de Mário Barbará, que retrata bem essa questão da invisibilidade social:
Desgarrados
  
Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas,
Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas
E são pingentes das avenidas da capital
Eles se escondem pelos botecos entre cortiços
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias
E então são tragos, muitos estragos, por toda a noite
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho
Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade
Viram copos viram mundos, mas o que foi nunca mais será
Cevavam mate,sorriso franco, palheiro aceso
Viraram brasas, contavam causos, polindo esporas,
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço,
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhos
Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno
O milho assado, a carne gorda, a cancha reta
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho
Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade
Viram copos viram mundos, mas o que foi nunca mais será
Continuando nossa análise, será que tantos excluídos, que dormem ao relento em nossas cidades, simplesmente não estão aí quando passamos, ou será que não os vemos? Somente em Porto Alegre, o número de moradores de rua varia entre quase dois mil a cinco mil habitantes (os dados variam conforme o órgão consultado: FASC 1.347 pessoas, conforme o último senso; UFRGS relata que o número atual pode chegar a mais de cinco mil) reportagem. Aonde estão todas essas pessoas? Elas existem, posso comprovar porque trabalho com elas. Mas, você as vê?
O terceiro passo é a perda da humanidade. A perda da qualidade humana de vida, que é fruto da perda de voz e imagem, é a maior de todas as perdas. O ser humano já não é mais visto como um SER HUMANO. Mal é visto como um ser. Alguém nessas condições perde toda a sua capacidade de realizações. Perde o sentido da vida. E torna-se um escândalo para o outro. O outro que não percebe que aquele que está ali, sem voz, imagem e humanidade, é, no fundo, descarte do sistema. Todos corremos o risco de terminar ali. 
Mas existe uma saída. Mas não cabe ao filósofo abrir as portas. O máximo que ele pode fazer é dar as chaves. Ou melhor, os instrumentos para que cada um use as chaves e abra as portas que ele achar melhor. Porque não existe sistema melhor ou pior. Nenhuma ideia ou solução é natimorta. Ela precisa de investimento. Cabe ao filósofo proporcionar isso. Não condenar, mas garantir o respeito para que a mudança floresça.
Socialmente, alguém está morto quando o que ele produz já não é mais considerado uma obra à qual possa ser agregado valor econômico. Mas, é preciso começar a questionar: por que só é considerado trabalho quando existe remuneração? O que acontece com o trabalho voluntário? E as comunidades auto-sustentáveis? 
O cidadão da margem tem a possibilidade de fazer um uso singular das leis. Ele pode introduzir nas leis formas de vida que contestem a utilização dominante das leis. Parece contraditório? Sim, parece. Tem uma citação indireta de Marx, que no Manifesto Comunista defende algo parecido: que o proletariado deveria tomar o poder e excluir todas as classes de poder, inclusive a sua. O cidadão da margem precisa apontar novos modelos que coloquem em cheque o modelo social. Esse é o verdadeiro movimento de resistência. Não basta combater o governo, derrubando um partido para colocar outro no poder. O sistema se manterá. É preciso combater o sistema com sistemas alternativos.
O modelo neo-liberal implantou traços dos quais podem resultar slogans como “Feche uma escola e abra uma prisão”. Parece piada? Sim, mas não é. O sistema neo-liberal defende uma educação voltada para o mercado de trabalho. Uma educação que não permite que sejam criadas alternativas. Ele produz seres descartáveis, porque poucos tem fôlego para se profissionalizar a medida que o sistema exige. Ele produz seus próprios prisioneiros, seus próprios excluídos. E por quê? Para lembrar a todos a velha máxima do sistema: PRODUZA, NÃO QUESTIONE, OU TERMINARÁ COMO ELES. 
“E são pingentes nas avenidas da capital”… Para lembrar o preço do fracasso com o sistema.
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