Perniciosa arte da metamorfose

 Um apelo a Kafka e Joe. Há alguns dias atrás comecei a esboçar este artigo com um relato provavelmente incomum à sociedade. Tinha eu, uma barata de estimação. Mas o simples mencionar do fato me fez parecer uma dúbia intelectual.
É começo de madrugada, como sempre, a visita ao banheiro não provoca estranheza, porém o visitante ali presente talvez. A barata de Franz Kafka nunca me provocou repulsa. Apesar de sua aparência incomum, por ser de um tamanho muito grande, de cor canela e uma mancha mais clara em formato de uma folha (como da bandeira do Canadá) em sua cabeça, nada ali naquela barata me fazia sentir, senão, indiferença. Refleti durante alguns dias sucessivos de sua visita que, de uma perspectiva psicológica eu não havia criado medo necessário dela, nem mesmo um nojo como de praxe na maioria das pessoas. Busquei pela memória situações da infância que envolvesse tal figura, e não me recordo ainda de qualquer dia minha mãe, ou alguém do núcleo familiar, fazer um escândalo por tal inseto. Tão pouco também, de ter presenciado algo de extrema ojeriza. Pelo contrário. Ainda nos anos 90 era comum na sessão do SBT a noite passar o filme Joe e as Baratas, que deveras eu achava divertido! Aquelas baratinhas falantes e amigas, quem não simpatizaria com elas enquanto ainda crescia? Ao contrário das aranhas, que não precisava chegar até a ficção para me causar pânico e, preciso frisar que ainda continua. Aí encontrei uma lembrança notável: próximo aos cinco anos de idade uma aranha invadiu o meu banho, descendo, gigantesca pela parede e me aterrorizando. Até hoje eu odeio aranhas, de todos os tipos, formatos e tamanhos e durante essa semana, depois de quase 20 anos pude entender o motivo. Uma razão tão simples, provocada por um momento de solidão enquanto escovava os dentes e olhava pra aquela barata. Que triste é a verdade e a consciência, quando encontramos respostas cabíveis aos atos desnecessários e falhos, principalmente do passado.
A lógica é minha fonte primordial de (sobre)vivência, mas seria insuportável conviver com aquela barata, sem romantizar a situação. Só o nosso flerte, em ter aberto a porta da minha pré-consciência não bastava. Era preciso ir um pouco mais além e, só pra terminar esse versinho rimando: apoiei-me em Kafka!
 
Kafka não é um da redoma das minhas especialidades (ou favoritismo, caso alguém implique com o termo). É um autor de fraca estrutura estética, que mantive por tanto tempo por pena, seu livro guardado. Ainda ligeiramente um clássico, Kafka, ironicamente não me é senão um protótipo do que poderia vir a ser de verdade. Sua trajetória de vida quase me incomoda. Além de sofrida – grande parte desnecessariamente para não dizer, covarde – me intriga pela forma como desistiu de si mesmo ao final da vida. Um escritor existencialista que queimava seus escritos, no mínimo, me despertou a curiosidade. A lógica é minha sentinela até na causa emocional. Precisamos admitir que ele teve o brilhantismo da metamorfose comparada, pois permitiu exteriorizar o incômodo e a insignificância do ser humano em um inseto. Também não escolheu um por acaso. Foi deveras esperto na comparação àquele que possui uma casca, mas é frágil, é rápido, mas tem limites, é feio mas pode ser amado. Vi recentemente também uma defesa de David Foster Wallace, autor de Graça Infinita, sobre o humor contido nos escritos gerais de Kafka. David frisa quanto era difícil em suas aulas, mostrar de fato esse humor que permeia de forma tão gentil seus versos. Penso eu que não devemos tentar muito caber à genialidade em explicações. É um apelo ao ser mais simples, afinal.
 
Estamos de frente a uma época que não permite demais rodeios sobre os assuntos. Estamos todos prontos para informações rápidas, e não estou defendendo a teoria de que nosso ensino deve ser formatado em coisas concisas, mas sim que devemos ter conhecimento suficiente sobre determinado público a ser atingido e saber identificar qual a melhor forma para se agir, para explicar e finalmente ensinar. O apelo de A Metamorfose me parece conversar diretamente com a psicologia social pelo fato de que, independente do padrão de vida que a sociedade nos impõe, e depois suas subdivisões, devemos reconsiderar aquilo que nos é ensinado e aquilo que de fato vivenciamos. Ainda sobre a atualidade, frisa-se: estamos a todo o momento presenciando muitos homens “hablando” difícil, em termos genéricos que poderiam ser reduzidos, em autores que já estão ultrapassados, em outros demais que já serviram de base e hoje possuem novas alternativas e fontes como referenciais para serem usados, mas que, estes tais conservadores, os tais detentores do saber, colocam exposto sendo que no fim não estão nem à margem. Aquele que conhece, mas não consegue aplicar o conhecimento não é digno de nenhuma genialidade. Temos suportado há anos estas figuras heroicas sem motivo aparente. São pessoas que usurpam o modelo ideal, ou mesmo, que o criam, expõe e assim manipulam diretamente como se pudessem fazer algo que, entretanto, na realidade não faz e ainda muito pior – não sabem faze-lo. Aquele que prega a liberdade sem antes experimentar, que defende tal causa sem nunca saber de fato, passar, estar, sofrer ou participar… Aqueles que zombam dos outros, que se mostram superiores, mas não fazem a mínima ideia e, tristemente, não se importam… Todos esses, que estudam tanto a colaboração para com o outro, mas não sabem de forma alguma ajudar em algo… Dentro das salas de aulas eles limitam, em casa não ensinam, na vida social se mascaram… E nessa, de viver sem existir, e de procurar nunca um propósito senão uma vertente de desculpas para continuar vivo, que mora o falso moralismo. São estes ditos intelectos, políticos, amados do povo e seus vizinhos, que usam da arte da metamorfose como complemento. A ligação entre ser e saber, mas poder transformar isso de alguma forma a fim de tornar-se aceitável. É a máscara, é a capa e a arte de continuar personificado mesmo quando, acorda-se barata.
 
É provável que Kafka em tão curta história nos desumanize primeiramente, para em seguida nos eternizar como humanidade. A arte de poder conviver com sua consciência e ainda poder fazer algo de bem a si mesmo, é, antes de tudo uma proeza, visto que quando usada para o mal da ignorância e do social é extremamente perniciosa: a verdade doa a quem doer é a maça já mofada, tirada e atirada em nossas próprias costas.
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Izabela Remor

Cursa Filosofia na modalidade Licenciatura no Centro Universitário Internacional (UNINTER), anteriormente foi aluna na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) na mesma modalidade de Artes Visuais. Atualmente é professora de Filosofia na rede pública de ensino do Paraná.

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