Perdoe [os preconceituosos], porque não sabem o que fazem.

Na data de 17 de maio deste ano (Dia Internacional de Combate a Homofobia) foi lançado um documentário chamado “Em defesa da família”, no qual retrata a vida de um casal de homossexuais e sua respectiva rotina.

Nesse curta-metragem de meros vinte e quatro minutos que foi exibido no grandioso Festival de Cannes na França, há uma característica que me chama a atenção: durante toda a filmagem – que mostra a rotina de um casal de mulheres – há comentários (ao fundo) de deputados e senadores em Brasília-DF que são contra quaisquer tipos de união matrimonial entre pessoas do mesmo sexo e que inclusive se opõe veementemente a adoção provinda desses casais.

Essas falas (que por unanimidade demonstram um preconceito arraigado) foram proferidas por políticos que compõem a famosa e polêmica bancada evangélica do nosso Congresso Nacional. O que me entristece é que eles não cumprem com aquilo que eles mesmos pregam: o famoso amor cristão (Amar ao próximo como a ti mesmo, certo?!). Dessa maneira, percebemos que há um misto de hipocrisia e prejulgamento desenvolvido nessa argumentação.

Mas a indagação principal que deve ser feita é a seguinte: “Será que um casal de homossexuais é tão errado (e se é, por quê)?”. Se o importante para uma união estável é o amor e o carinho que dois indivíduos possuem entre si, por que raios eu deveria me preocupar com a forma que outras pessoas vivem? Como afirma o grande oncologista e escritor Drauzio Varella: “Que diferença faz para você e para a sua vida pessoal se o seu vizinho dorme com outro homem, se a sua vizinha é apaixonada pela secretária de escritório. Se faz diferença, procura um psiquiatra, você não está legal”. Por mais ríspida que essa colocação seja, é necessária quando nos deparamos com visões fundamentadas em prejuízos.

A questão da sexualidade gera diversas polêmicas por conta da ignorância e do preconceito incrustado nas mentes conservadoras no nosso planeta. Sempre haverá comentários de cunho religioso e ortodoxo de pessoas que se baseiam em livros milenares e com visões extremamente desatualizadas se aplicadas aos dias de hoje. Não sou contra a religião, mas tenho a opinião de que as visões desse meio devem ser pregadas da porta das instituições religiosas para dentro. Afinal, as crenças – como também a orientação sexual de um indivíduo – continuam sendo (ao menos no papel) do âmbito privado, não é verdade?  

Porém, algumas pessoas que fazem parte de grupos religiosos insistem em declarar a sua indignação e demonstrar a sua opinião ao se depararem com pessoas de orientação sexual diferente do “normal” (o que quer que essa palavra signifique para esses indivíduos). Por isso é que ainda há muita luta política e ideológica para ser feita com relação ao meio LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Transsexuais).

O primeiro avanço real foi na década de 90, quando o famoso dicionário da Medicina eliminou o termo “Homossexualismo” (na qual o sufixo “ismo” pressupõe uma patologia). Hoje o correto é “Homossexualidade”, onde demonstra apenas uma orientação sexual que não é mais considerada doença ou transtorno psicológico. Entretanto, os transgêneros e transsexuais ainda são considerados indivíduos enfermos e com problemas psicológicos, evidenciando como a orientação sexual do indivíduo o determina como doente ou alguém normal aos olhos da Ciência.

Para compreender melhor a realidade de alguém que convive com essas adversidades, recomendo outro documentário – disponível na Netflix – muito bem explanado pela colunista Bruna Leite do Filosofia do Cotidiano (Link:http://filosofiadocotidiano.org/laerte-se-parte-1-o-que-e-ser-uma-mulher/) chamado “Laerte-se”,  dirigido pela famosa jornalista Eliane Brum. No qual é explicitada a vida da chargista e cartunista Laerte Coutinho, uma mulher transgênero que expõe suas respectivas problemáticas no processo de mudança de gênero após seus 60 anos de idade. Muitíssimo impactante para a quebra de paradigmas e a compreensão da esfera psicológica, ideológica e política por trás de todo esse meio LGBTT. Não obstante, indico-o para mentes lúcidas que queiram entender a luta diária que essas pessoas enfrentam no âmbito social.

Ademais,esse drama enfrentado por Laerte e por milhares de outros indivíduos seria destruído se o amor cristão fosse realmente praticado. Sendo assim, poderia acolher todas essas pessoas que convivem com a aflição e os pré julgamentos proferidos por diversos grupos.

Um exemplo que me vem a mente e que sempre utilizo para questionar as pessoas que vêem isso com maus olhos é o seguinte: quando dois indivíduos observam um quadro de um ser humano nu, o primeiro afirma que a tela é linda. Já o segundo opina que a pintura é horrível. Pergunta que surge: o problema está na obra de arte ou na pessoa que o rotula? Essa estrutura de pensamento funciona também ao nos depararmos com esses rótulos pejorativos que ouvimos de terceiros ao comentar sobre indivíduos que possuem uma outra orientação sexual.

Não há nada melhor do que lutarmos contra nós mesmos para destruir os próprios prejuízos e evoluir como seres humanos. Lembre-se que só porque alguém é diferente de você, não quer dizer que ela seja errada ou sua inimiga. Apenas demonstra que haverá sempre opiniões, posicionamentos e modos de viver distintos dos seus. 

Para concluir, eu tenho uma mensagem antiguíssima – que por ironia do destino é bíblica – direcionada aos que sofrem com comentários pejorativos: perdoe [os preconceituosos], porque não sabem o que fazem.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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