Pelos caminhos da América

Um tanto da minha inquietação filosófica e social vem das músicas que escuto. Em minha playlist não se encontram músicas vazias. Cada uma delas é escolhida a dedo e carrega significados e significâncias. Agora compartilho com vocês uma música forte, desconhecida pela maioria, mas que é, de certa forma, um hino para os movimentos de esquerda social. Talvez esta música vá além. Acredito que ela seja um hino de resistência da América Latina que sangra pelas feridas abertas nas várias ditaduras militares que presenciou.

A música apresenta, através de breves analogias, a luta de resistência da América Latina contra o grande dragão –  a ditadura militar. Apesar das pedras manchadas de sangue, das cruzes beirando as estradas, o povo  busca a liberdade. Tantos monumentos sem rosto, homenageando todos aqueles que deram sua vida pelo sonho da liberdade. Tantos heróis esquecidos e apagados da história, mas que encheram de terror os olhos do soldado que via avançar o amor naquele ambiente marcado pelas caveiras dos ditadores. Um ambiente onde, até hoje, as mães choram, gritam e clamam pelos filhos que foram vitimados na ditadura. Filhos que simplesmente foram arrancados de seus lares, torturados e desovados.

E em meio a tudo isso, a resistência vencia. Grupos lutavam pela liberdade. Homens e mulheres encorajavam-se e, munidos da verdade, desafiam os generais. Profetizado por La Boétie, quando o povo nega-se a obedecer, o tirano cai. Foi o que aconteceu. A revolta popular derrubou a ditadura. A resistência que, semeando teimosamente ideias de paz, permitiu a criação de um amanhã, de um futuro florido, onde um menino toca violão, um negro toca tambor e um índio toca flauta.

Originalmente escrita e cantada por Zé Vicente, compartilho com vocês a versão cantada pela Banda PJ e Raiz: https://www.youtube.com/watch?v=ldUdUKdbt_w

Pelos caminhos da América,
Pelos caminhos da América,
Pelos caminhos da América,
Latino América.
Pelos caminhos da América há tanta dor,
Tanto pranto, nuvens, mistérios,
Encantos que envolvem nosso caminhar.
Há cruzes beirando a estrada,
Pedras manchadas de sangue,
Apontando como setas,
Que a liberdade é pra lá.

Pelos caminhos da América há monumentos sem rosto
Heróis pintados, mau gosto, livros de história sem cor
Caveiras de ditadores, soldados tristes, calados,
Com esbugalhados, vendo avançar o amor.

Pelos caminhos da América há mães gritando, qual loucas,
Antes que fiquem tão roucas, digam onde acharão,
Seus filhos mortos, levados na noite da tirania,
Mesmo que matem o dia, elas jamais calarão.

Pelos caminhos da América, no centro do continente,
Marcham punhados de gente, com a vitória da mão.
Nos mandam sonhos, cantigas, em nome da liberdade,
Com o fuzil da verdade, combatem firme o dragão.

Pelos caminhos da América, bandeiras de um novo tempo,
Vão semeando, ao vento, frases teimosas de paz.
Lá na mais alta montanha, há um pau d’arco florido,
Um guerrilheiro querido, que foi buscar o amanhã.

Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta,
Recusando a velha pauta, que o sistema lhe impôs.
No violão um menino e um negro tocam tambores,
Há sobre a mesa umas flores, pra festa que vem depois.

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Foto de perfil de Ricardo Luis Reiter

Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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