Os Movimentos Sociais e o Internacionalismo Político no Pós Guerra Fria

A partir da década de noventa, ao fim da monopolização Geopolítica dos dois blocos hegemônicos, organizados pela Ex-União Soviética e pelos Estados Unidos, a geografia política organiza-se em uma formatação multipolar, em que cada nação elenca o seu modelo de desenvolvimento nacional e internacional, a nova ordem mundial é conceituada enquanto organização social a mercê da insegurança, já que os planejamentos para o futuro não são válidos de sua eficácia e de sua condição de tornar-se hegemônico.

Os atores globais decidiram as suas cooperações através de ações técnicas e interesses econômicos, negociando legislações em comum, desde que seus respectivos projetos de desenvolvimento nacional correspondessem um ao outro, criando uma independência das nações perante outras, relações diplomáticas ou rivalidades internacionais a depender do bloco geoeconômico em que estivesse inserida.

A sociedade em redes, tal qual definida por Manuel Castells1 provoca a interação das relações sociais a nível mundial e causa o apego de indivíduos por causas que não estejam localizadas em seu território geográfico, podendo serem criados grupos ativistas em prol de um bem social. Esta luta por direitos e conquistas não necessita estar atrelada ao cotidiano do grupo que militar por algo, porém é necessário que as pessoas ao visualizarem uma reivindicação social, a visualizem enquanto importante e válida de ser compartilhada.

As redes sociais desempenham a função de divulgação de ideais e interesses políticos. Passeatas, manifestações e protestos podem adquirir apoio mundial, pois as informações disponíveis em redes são disponíveis em todos os países que permitam o uso da internet sem o instrumento da censura. Grupos que desejam legitimar as suas ideologias, solicitam apoio mundial em mobilizações; comuns são os abaixo-assinados e pedidos de compartilhamento de posts em redes sociais.

Os navegadores da internet, a exemplo do Google Chrome possuem ferramentas de tradução de textos; acaso um movimento social deseje demonstrar o seu descontentamento com algum caos social, ao qual ocorra em seu país, este material pode ser lido em diversas línguas diferentes e em todos os países que permitam o acesso a este endereço eletrônico. A partir da nova dinâmica do capitalismo proporcionada pelo neoliberalismo, a organização econômica baseada na privatização de serviços, minimização do Estado, transferência de obrigações públicas para o setor privado, desregulamentação da economia e flexibilização das leis trabalhistas, a organização de distintas sociedades podem apresentar semelhanças e proporcionar o surgimento de movimentos sociais transnacionais que propiciem uma dinâmica de atuação a nível mundial.

O fim da experiência socialista no leste europeu, a perda de legitimidade da esquerda política a nível mundial, devido à associação à esquerda democrática ocidental com o regime soviético, consequentemente o término do modelo de desenvolvimento baseado no Estado de bem estar social, levaram aos cidadãos de várias nações a outro modelo de socialização, baseado no neoliberalismo, determinados grupos civis e políticos ficaram satisfeitos com estas medidas, outros grupos sociais inspiravam-se no bloco socialista e/ou no modelo keynesiano.

A transferência de obrigações públicas para o setor privado, a exemplo de transportes, saúde, educação e segurança fora relacionada pelos movimentos sociais de esquerda enquanto uma perda de direitos, os marxistas e social democratas afirmavam que a legislação dos países ocidentais estavam sendo modificadas por emendas constitucionais e que retiravam a obrigação do Estado de oferecer serviços públicos de qualidade.

No Hemisfério Sul, este processo é analisado por meio do geógrafo brasileiro, Milton Santos, em que o mesmo demonstra em suas pesquisas que existe um projeto de transferência de renda do sul para o norte, provocado pelo Consenso de Washington, o Banco Mundial por intermédio do Estado norte americano planejou um modelo legislativo da organização política dos países meridionais com o fim de que eles atendessem medidas dos países desenvolvidos, sendo ambientes propícios ao recebimento de capitais externos; para isso é necessária uma reorganização dos Estados latino americanos com o fim de atenderem as demandas externas, sendo propícia a precarização dos direitos trabalhistas a fim de atender o capital internacional.

Durante a década de 1990, período de ascensão do projeto de desenvolvimento nacional associado ao neoliberalismo, liderado pela direita nacional, em destaque os Chefes de Estado deste período, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso; todos realizaram as suas políticas econômicas baseadas na retirada de direitos trabalhistas, transferências públicas ao setor privado, aumento do tempo necessário à contribuição previdenciária.

Estes episódios da última década do século XX, associada a um movimento global, que se repetira na Europa, impulsionava à esquerda política e seus diversos atores sociais a criarem mobilizações constantes e periódicas a fim de romperem com o modelo econômico baseado na renovação do liberalismo; de acordo com o sociólogo alemão Jürgen Habermas, a democracia liberal restringe-se a manutenção dos direitos considerados naturais, tais quais a liberdade, vida e a propriedade, porém negligenciam novas demandas sociais, devido ao fato que na teoria liberal de John Locke, a obrigação do Estado é o asseguramento destes direitos, porém a sociedade desenvolve-se historicamente e necessita de renovação do modelo de Estado e organizações públicas.

Os movimentos sociais no Brasil, sob a oposição da ordem neoliberal é resultado de alterações históricas do Estado de acordo com as juristas Ana Cecília da Costa Silva Coelho e Renata Guimarães Reynaldo;  os movimentos sociais transnacionais surgem a partir do aparecimento do Estado-Nação, historicamente o mesmo fazia oposição a decisão de atores estatais, a partir da ordem promovida pelo liberalismo, a minimização do Estado, os agentes públicos foram progressivamente diminuindo as suas ações no cotidiano das sociedades; este espaço político antes ocupado por governantes, passa a ser reivindicado pelos movimentos sociais que cobram dos diferentes atores nacionais e internacionais, medidas de solução de problemas sociais para além das propostas da iniciativa privada.

A cientista política italiana, Donatella Della Porta afirma que existem três distintos processos sociais que causam a internacionalização dos movimentos sociais, difusão, domesticação e externalização; a primeira causa, a difusão, refere-se à disseminação de ideias. Inovações políticas tornam-se populares em diversos países, a partir das redes, um determinado cidadão de um país pode divulgar o seu pensamento social para pessoas de diversas regiões do planeta. A domesticação é a disputa pela conquista do apoio ou repulsa de algum evento externo ao país, a exemplo da questão da Criméia, em que partidos, movimentos sociais, sindicatos e militantes debatem a respeito de um mérito ou crítica concedido ao Estado russo. A externalização é um processo institucional em que órgãos internacionais são responsáveis de organizar soluções de um problema social ocasionado em um determinado território nacional.

Estes processos descritos pela cientista política italiana podem ser relacionados com os protestos que ocorreram no Brasil, em especial em 2013, ao fim do Estado de bem estar social na Europa, término na União Soviética, as pessoas descontentes com o abandono público, políticas de redução de custos, iniciaram manifestações contra as decisões governamentais, em 2013, o Governo Federal organizou os seus gastos a fim de atender demandas dos eventos esportivos; de acordo com o PSTU, PCB, PSOL, PCR e o movimento Passe Livre, as demandas de saúde, educação, segurança e transporte foram negligenciadas em detrimento da necessidade de investimentos onerosos em eventos da Copa do Mundo.

Em território nacional brasileiro, existe a presença de movimentos sociais vinculados às reivindicações de pautas da globalização; a Frente Brasileira de Solidariedade com a Síria e a Frente Brasileira em Solidariedade com a Nova Rússia; ambos os grupos realizam manifestações e panfletagens em ruas, na cidade de São Paulo, com o fim de divulgar notícias do conflito, tendo ambas posições políticas e ideológicas para com estes conflitos militares, a primeira apoia Assad e a segunda os civis da Nova Rússia no conflito contra a Ucrânia.

De acordo com os dois movimentos, a necessidade de ambos existirem é desmonopolizarem a cobertura destes eventos por parte dos veículos de comunicação organizados por empresas, a visão destes eventos de acordo com os seus membros é unilateral, apenas a interpretação destes jornais são divulgadas para o público. Paralelamente a isto, as divulgações de notícias destes conflitos militares servem para criar um contraditório nos argumentos perante a interpretação criada pelos veículos de comunicação.

Teoria Crítica de Robert COX

Robert Cox é um cientista político canadense, o mesmo estuda a teoria crítica das relações internacionais, tendo uma análise marxista das questões globais, o seu principal referencial teórico é a bibliografia de Antonio Gramsci. De acordo com o mesmo, as relações internacionais são impulsionadas por uma infraestrutura econômica, tal qual abordada por Karl Marx e Friedrich Engels em “Ideologia Alemã”, em que a economia é a responsável por organizar a sociedade em sua superestrutura2.

A partir da internacionalização do capital descrito por Lênin em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, as questões sociais dantes nacionais, tornam-se internacionais. Os cartéis e trustes adquirem dimensão global; tornou-se comum que empresas possuíssem uma cidade, a qual ficara o prédio central do estabelecimento, porém em várias partes do mundos espalhavam-se filiais desta mesma empresa.

Ao existir duas classes sociais, a burguesia e o proletariado, estas não delimitam-se em um território nacional. O capital financeiro impulsionara a internacionalização do capital e das relações de trabalho, os órgãos com fins econômicos, FMI e OMC organizam legislações transnacionais com o fim de equalizar as relações jurídicas do mercado em todo o globo, permitindo a equivalência de fluxos e câmbios em diversos países.

A globalização da economia permite a proletarização em escala global, os novos métodos de produção de capital repetem-se em distintas nações, reproduzidas sob a relação do capital-trabalho, o contingente populacional das várias nações do planeta tem, em sua maioria, pessoas da classe trabalhadora, despossuídas de meios de produção, sendo empregadas, por vezes, por uma mesma empresa em diversos países do planeta.

O proletariado é uma classe, a qual não é nacional, é internacional; os seus problemas, queixas e reivindicações são solicitações de melhorias da qualidade de vida que repetem-se em vários países simultaneamente, isto permite o surgimento de distintos movimentos sociais em diversos continentes; a ordem neoliberal, atual modelo de desenvolvimento do capital, pressupõe a flexibilização das leis trabalhistas, desregulamentação da economia, diminuição dos gastos sociais; a classe trabalhadora, em nível planetário, além de sofrer cortes salariais, perde os seus direitos conquistados historicamente por greves e campanhas sindicais, ao término do Estado de bem estar social.

A exemplo disso, foram as manifestações de junho de 2013, o Governo Federal juntamente aos respectivos governos estaduais promoveram uma campanha de austeridade para adquirirem tributos para a construção de estádios, infraestrutura para o evento da Copa do Mundo de 2014,  paralelamente enquanto promovia cortes em saúde, educação e segurança pública, já que os gastos públicos estavam sendo destinados para o evento esportivo.

Este processo social da mobilização de massas em torno de interesses que comungavam com a manutenção do Estado de bem estar social já iniciara na Espanha em 2009, quando movimentos e partidos de esquerda mobilizaram-se contra o aumento da tributação de impostos promovida pela dívida pública do Estado espanhol, a Espanha havia solicitado empréstimos aos Estados Unidos da América, quando ocorrera a bolha do setor imobiliário3.

A experiência espanhola foi coordenada por um movimento social denominado de “Podemos”; em 2014 este grupo social constituiu-se partido, eles coordenaram campanhas de direito a espaços públicos, combate a austeridade, serviços públicos de qualidade e fim da dívida pública; em 2011, os estadunidenses criaram o movimento social “Ocupe Wall Street”,  eles reivindicavam o direito à cidade, já que o capital financeiro investia em projetos de privatização de espaço público; os norte americanos argumentaram que os projetos do capital financeiro perpetuavam as desigualdades econômicas e sociais por conta de interesses privados de banqueiros e acionistas.

Os Estados não são autônomos; são orientados pelos interesses das classes governantes e aqueles capitalistas são movidos, principalmente, pelos interesses de suas burguesias. Isso significa que a luta entre os Estados, incluindo as guerras, deveria ser avaliada no contexto econômico da competição entre classes capitalistas de diferentes países. Para os marxistas os conflitos de classe são mais  fundamentais do que aqueles entre Estados. (Jackson, R.; Sørensen, G. 2007, p.254.)

O capitalismo é um sistema expansivo, o mesmo amplia os seus mercados em busca por lucros; as multinacionais ao adentrarem em novos países negociam com os Estados nacionais a diminuição de tributos e legislação trabalhista específica para os seus empregados. Esta relação de dominação promovida pelo capital internacional resulta na desnacionalização da economia, falência de empreendimentos nacionais, as tributações para com empresas nacionais não são colocadas abaixo dos impostos cobrados ao empreendimento estrangeiro, a isenção de impostos das empresas internacionalizadas gera a diminuição do Produto Interno Bruto, impedindo o Estado de investir em serviços públicos, isso por conta da diminuição de receitas.

Esta evasão de divisas permite o fluxo de capitais e a extração de rendas. Os países, aos quais locam as sedes destas empresas, tributam os capitais que adentram em seu território, estes capitais são oriundos dos investimentos em países subdesenvolvidos; isto gera a projeção geográfica de dominação econômica a partir do eixo Norte-Sul, países do hemisfério norte desnacionalizam as economias do hemisfério sul, criando a relação do desenvolvimento desigual e combinado já desenvolvida por Lênin e Trostky.

Recentemente a Frente Nacional, partido francês, realizou passeatas pela França; criticando a dinâmica do capital internacional, a candidata a presidência da República Francesa, Marine Le Pen, liderou pessoas nas ruas, suas promessas a estes civis baseavam-se na proteção da economia nacional e do protecionismo, a candidata dissera que a França fora vítima da globalização, em que a produção nacional fora deslocada para a Ásia e países do Leste europeu; isso motivou pessoas a irem às ruas por medidas protecionistas. Esse evento ocorrera em movimentos e partidos da direita e esquerda francesa, a CGT, principal central sindical francesa, convocou passeatas galgando medidas econômicas similares as da Frente Nacional, como pleno emprego, valorização do trabalho, melhoria nos serviços previdenciários, manutenção e conquista de direitos trabalhistas.

As forças sociais do capitalismo estão hoje envolvidas em um intenso processo de globalização econômica correspondente a uma internacionalização da produção, assim como aos movimentos de migração do Sul para o Norte. A globalização foi impulsionada pelas forças comerciais, mas Cox prevê que seus novos movimentos sociais críticos ficarão cada vez mais fortes e isso iniciará uma nova fase de luta entre forças sociais pelo controle da regulamentação da globalização econômica (Jackson,R.; Sørensen,G, 2007, p.258)

Robert Cox, ao descrever a projeção geográfica da imigração, motivada pela extração de recursos locais pelo processo de desnacionalização da economia por parte dos países imperialistas, apoiadores do capital monopolista4, impulsiona a saída de trabalhadores de seu respectivo território nacional para outra nação com fins econômicos, isso motiva a criação de movimentos sociais de caráter nacionalista, aos quais compartilham com o trabalhismo e nacionalismo.

Os membros da Frente Nacional na França e os apoiadores da candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos defenderam enquanto pauta, a defesa da economia nacional, a regulamentação das fronteiras, delimitação da taxa de imigrantes, tributação diferenciada para empreendimentos nacionais e estrangeiros, diminuição do tempo de permanência de estrangeiros no país. Passeatas foram realizadas nestes países em prol destas pautas, são movimentos nacionalistas à direita5.

Os países do hemisfério sul compartilham de sentimentos nacionalistas que são caracterizados enquanto grupos de esquerda, a literatura leninista dos movimentos sociais locais contribuem para criticar a desnacionalização da economia; a defesa da economia nacional é argumentada por meio de uma crítica ao imperialismo dos países do hemisfério norte, a partir da interpretação da obra “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”.

O movimento social “Nova Pátria”, fundado no Estado de Pernambuco, possui o caráter marxista-leninista e realiza interpretações stalinistas da conjuntura política nacional. Eles compartilham da interpretação de Josef Stalin a respeito deste fenômeno social; a opressão nacional descrita por Stalin é caracterizada pelo empobrecimento de nações subdesenvolvidas devido à economia expansionista do capitalismo desenvolvido pelas grandes potências, Stalin recomendou que o proletariado organizasse nacionalmente em cooperação com outras nações, formando um internacionalismo composto por diversas nações simultaneamente.

A contribuição de Robert Cox para este estudo é a associação do processo de globalização com categorias marxistas. O Estado analisado por diversas vezes em seu caráter técnico, ofusca as relações de classe em sua dinâmica interna. Os órgãos administrativos são liderados pelas respectivas burguesias nacionais; inicialmente em um determinado território nacional; a posteriori, capitalistas dominam diversas nações por meio suas negociações com os burocratas de países distintos. As disputas de Estados são lutas entre os burgueses a fim de ampliarem a sua concentração de capital durante o período de modo de produção do capital monopolista; paralelo a isso, estes Estados ao atenderem os interesses da economia burguesa, não corresponde às necessidades do proletariado, que pode se organizar nacionalmente e internacionalmente na luta de classes.

Aleksandr Dugin: A Geopolítica Multipolar e a Mobilização Popular Por Alternativas da Globalização. 

Aleksandr Dugin é um sociólogo russo, doutor em sociologia. Suas pesquisas são dedicadas ao estudo dos efeitos da globalização na Geopolítica, suas hipóteses de pesquisa são fundamentadas na possibilidade de perda ou ganho de autonomia institucional por parte de cada Estado nacional provocadas pelas relações internacionais do pós guerra fria. Foi o chefe do departamento da disciplina na Universidade de Moscou, atualmente dedica-se a escrever livros e artigos a respeito da Geopolítica contemporânea.

Ele firma que uma nova ordem mundial foi estabelecida após o fim da Guerra Fria; o mesmo era contrário a existência da União Soviética. De acordo com o mesmo, os países vizinhos foram submetidos a uma relação de dependência perante a Rússia, além de que fora perdida a autonomia institucional dos diversos Estados nações. Ele é crítico aos distintos projetos internacionalistas, a exemplo da internacionalização do mercado proposta pelo liberalismo e o internacionalismo proletário proposto pelo marxismo.

O mesmo não considera-se um ideólogo das ideologias clássicas, pertencentes à direita ou à esquerda, ele analisa a política a partir da tipificação jurídica da soberania nacional, em que os civis de cada nação devem defender a economia nacional, instituições nacionais, defesa territorial, negociações justas e respeitosas nas relações internacionais. O mesmo, distintamente de outros escritores, atribui significância às relações internacionais ao defender um determinado projeto político.

De acordo com o sociólogo russo, o pós guerra fria seria um período oportuno ao retorno do multilateralismo político, demarcado por características do Tratado de Westfália,  em que o Estado-Nação era o responsável por coordenar as demandas sociais oriundas de cada território, porém ele compartilha da visão de Thomas Piketty de que na globalização, um país exerce poder sob o outro a depender de seu Produto Interno Bruto.

A partir de 1993, esta autonomia institucional concedida aos Estados é interrompida, a União Europeia é criada, o parlamento europeu é responsável de organizar uma legislação em comum entre as diferentes nações que compõe o bloco, por vezes ignorando demandas locais, tratando as mesmas enquanto universais; as condições econômicas e as características regionais são distintas, a evasão de divisas, desindustrialização, equivalência do câmbio prejudica ou contribui no desenvolvimento de cada nação a depender de sua economia nacional.

Dugin recomenda a utilização de mecanismos estatais de autonomia institucional, em que a política interna não esteja submetida a interesses estrangeiros, negligenciando as necessidades dos nativos de cada país. Dugin denomina de “primavera dos povos”, a ascensão de movimentos nacionalistas simultaneamente em cada país após a bolha provocada pela crise imobiliária nos Estados Unidos.

Ele considera que os movimentos sociais atuais, oriundos desta ocorrência provocada pela globalização não devem estar necessariamente ligados à extrema direita ou ao nacionalismo de esquerda, a exemplo da antiga Aliança Nacional Libertadora, ele caracteriza que para além de fundamentações filosóficas, existe uma nova dinâmica política que deve ser examinada pelas Relações Internacionais e pela Geopolítica, o modelo clássico de análise política apenas por categorias ideológicas interpretadas pela filosofia não podem existir mais, ao menos não isoladas, o mesmo recomenda que deve ser considerada a proposta dos movimentos sociais para a globalização.

Ele denomina estes movimentos de dissidentes, a dissidência neste aspecto relaciona-se à defesa dos interesses regionais e nacionais, sendo uma nação formada pela soma de povos que a compõem e que a dinâmica social elencada pelas pessoas que habitam estes territórios é o critério adequado às escolhas políticas de cada país. Dugin defende a formação de movimentos sociais e milícias populares, caso necessário para proteger a soberania nacional, a qual ele considera ameaçada devido às características da globalização.

A exemplo destes movimentos estão o IRA, movimento irlandês que agia sob manifestações e atuava enquanto guerrilhas armadas em combates contra as forças regulares do exército britânico, a sua principal reivindicação fora a saída da Irlanda do Norte do Reino Unido. Eles pregavam o direito de autodeterminação dos povos; em seus cartazes de manifestações, a palavra de ordem era “Voltem para casa soldados britânicos”, isso pode ser caracterizado enquanto movimento político de combate a um modelo específico de globalização.

Nas Repúblicas Islâmicas do Oriente Médio, milícias populares e movimentos nacionalistas foram criados a fim de proteger os valores nacionais contrários à globalização, em uma reação a criação da Comunidade Internacional em 2012, formada pela Alemanha, França e os Estados Unidos; estes países decretaram o princípio de Guerra Justificada na ONU durante o ano citado anteriormente, fora considerado que qualquer país que não compartilhassem das liberdades individuais, democracia e dos direitos humanos, poderiam sofrer ataques militares sob a justificativa de serem uma ameaça à paz mundial.

Os nativos das nações do Golfo, das Repúblicas Islâmicas, ao tomarem conhecimento desta declaração, afirmaram que estes valores são particulares ao Ocidente, essas formas de organizar a sociedade são particulares da relação do humano com o seu território, em especial os territórios encontrados no Ocidente e não são adequados a serem replicados no Oriente, pois o desenvolvimento histórico das culturas possuem caráter diferente.

Entre 2001 e 2012, governos árabes foram substituídos por representantes ocidentais no Oriente Médio, a exemplo de Saddam Hussein e Muammar al-Gaddafi; sob esta justificativa e em defesa das conquistas da Revolução Iraniana, Liga Árabe; os movimentos de libertação nacional formaram milícias populares a fim de retomarem um modelo constitucional adaptado ao seu país. A exemplo disto existe o Hezbollah, grupo que possui setores específicos em sua base que atuam enquanto movimento social, milícia e partido; existe divisões de funções internos ao movimento.

O Hezzbollah declara que o Golfo é ameaçado pelos Whabbismo, oligarquia árabe, classe dominante da Arábia Saudita oriunda do pacto colonial realizado entre colonos e metropolitanos durante a colonização britânica; a Arábia possui uma projeção geopolítica de expandir as zonas de interesses de seu Estado na região do Golfo e oficializar o Whabbismo enquanto religião oficial deste novo Estado árabe; o Hezzbollah concorda com o princípio de autodeterminação dos povos, em que as pessoas organizadas politicamente numa determinada região tem o direito de organizá-la.

Hassan Nasrallah, Ex-Líder do Hezzbollah promovia passeatas no Líbano e convocava pessoas para a luta armada, o seu objetivo é expulsar as bases militares da Comunidade Internacional de seu país, que fora instalada através da sentença concedida pelos países membros deste órgão internacional no Conselho de Segurança da ONU. O grupo libanês não reconhece a legitimidade da punição, não concedem legitimidade ao Partido Conservador que está desempenhando políticas econômicas liberais, e, de acordo com o grupo, empobrecendo o país e rompendo com o bem estar social promovido no período de Gaddafi.

O escritor russo afirma que os movimentos de esquerda dos países da América Latina realizam uma oposição à visão americocêntrica6 de economia, em que o capital público norte americana participe dos empreendimentos locais. Ele enfatiza o papel de Hugo Chaves, o Partido Socialista Unido da Venezuela na campanha de 2008 juntamente aos movimentos sociais de esquerda de seu país lideraram a campanha de retirada de tropas militares norte-americanas do território nacional venezuelano, o Ex-Chefe de Estado contou com o apoio da Rede Revolucionária Bolívar e Zamora.

Dugin em seus escritos a respeito da Geopolítica ressalta a importância das Relações Internacionais no momento de analisar os atores políticos das diversas partes do globo, por conta que após o término da Guerra Fria, os Estados nacionais passaram por dois anos de autonomia institucional, isso levou aos movimentos sociais de caráter nacionalista, sendo de esquerda ou direita, a atuarem mais na política de seu país. A Nova Ordem Mundial caracterizada pela instabilidade provocada pela disputa de projetos de desenvolvimento levam os indivíduos a se organizarem em grupos em prol de uma causa que esteja relacionada a Geopolítica contemporânea, o autor explicita em seus trabalhos acadêmicos que é a favor do multilateralismo político, soberania nacional, valores nacionais e da Geopolítica multipolar.

Conclusões. 

Tal ciência veio à emergir na cultura ocidental, como ocorreu com as Relações Internacionais nos anos 20, pois a internacionalização dos problemas estatais ganharam tamanha proporção, junto com os conflitos mundiais, com o desenvolvimento de uma economia de capital global e surgimento de redes de comunicações extranacionais, que buscou-se uma forma de garantir, através do estudo de Geopolítica, a previsão de conflitos internacionais e/ou a estruturação do cenário mundial. (Dugin, A. 2012, p.7)

Tal qual explicado por Aleksandr Dugin, os problemas políticos não são mais nacionais e sim internacionais, as ações estatais de uma determinada nação pode repercutir em outra região do globo, criando movimentos sociais que cooperem internacionalmente por uma causa única, a exemplo disto estar o direito à cidade, os defensores deste projeto criticam a lógica do capital privado que privatizam os espaços públicos e torna o ambiente do cidadão com o seu município intermediado pela relação monetária, esta crítica expressada em manifestações foram recorrentes na Espanha, Estados Unidos e o Brasil liderados respectivamente pelos movimentos Podemos, Occupy Wall Street e Passe Livre, sequenciado por estes anos 2009, 2011 e 2013.

As nações interligadas pelo capital financeiro não podem mais manter-se perante a postura do isolacionismo, isto já não é mais possível, não por meio dos agentes estatais que criam tratados de comércio entre os países e são dependentes de economias estrangeiras, os povos que ocupam estas terras são os possíveis modificadores deste sistema, a perca de direitos comquistados no Pós-Guerra durante a fase do capitalismo keynesiano gera a organização de civis em movimentos, tanto da reação à direita quanto da transformação social à esquerda.

A esquerda para com a globalização em que ela denomina de imperialismo necessita de uma revolução social, os movimentos sociais de esquerda cumprem o papel de organizar as pessoas politicamente em prol desta causa, da revolução social, de acordo com Joséf Stalin a opressão nacional é sistemática, ela oprime os povos nativos da nação imperialista, por não reconhecer outras organizações fundiárias que não esteja ligada ao capital monopolista e as nações subjugadas aos interesses do império são colônias ausentes de autonomia política; Nelson Werneck Sodré, historiador brasileiro afirma que o conceito de colônia é o país que possui a sua renda em maior parte concentrada em um território externo a ele; o que contextualiza o império para a fase do capital monopolista, o imperialismo enquanto fase superior do capitalismo.

“Os problemas nacional e colonial são inseparáveis do problema da emancipação diante do poder do capital – Josef Stálin.” (“Pravda”, número 98, 8 de maio de 1921.)

A direita, especificamente a extrema direita, distintamente de conservadores e liberais possuem um nacionalismo chauvinista, analisam o processo de produção de capital pela perspectiva de que os problemas externos à nação não devem atingi-las, a sua postura para com a imigração não é relacionada à dinâmica do capital internacional e sim a questões jurídicas e étnicas as quais devem delimitar os cidadãos as quais podem viver em um determinado território nacional; são movimentos de reação ao fluxo de mão de obra; seu discurso estar relacionado a medidas de limpeza étnica, os sentimentos pátrios são valorados por estes grupos, a exemplo do Fronte Nacional na França e da Direita Cristã dos Estados Unidos, a presença de um civil em um Estado é determinado pela sua vinculação jurídica e sanguínea com a nação; é atribuída ao Estado de origem do estrangeiro a responsabilidade de lhe promover condições dignas de vida e desenvolvimento humano; estes setores da política defendem a categoria de direito sanguinium em que a relação do indivíduo com o território é fundamentada pelo seu vínculo cultural e sanguíneo com um Estado.

De acordo com a perspectiva marxista, a infraestrutura econômica, internacionalizada devido a nova dinâmica do capital internacional possibilita que a estrutura social crie ideais as quais contribuam para o surgimento de forças políticas relacionadas ao debate de problemas globais, devido ao caráter da Sociedade Internacional e da Política Econômica Internacional; isto possibilita o surgimento de movimentos sociais de alternativas ou oposição à globalização; a exemplo de movimentos responsáveis por militarem por soluções de problemas gerados pelo capital financeiro.

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