Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial na perspectiva de Aleksandr Dugin

A Nova Ordem Mundial é um projeto geopolítico que começou a ser debatido no final dos anos 80, quando, no fim do regime Soviético, Gorbachev cogitou a cooperação entre a União Soviética e os Estados Unidos, convergindo em uma política internacional em comum, especialmente em específicas cooperações de interesses comuns, tal qual a Guerra do Golfo, em 1991.

Este conceito geopolítico é moldável às circunstâncias históricas, após 1991, sob o fim do regime socialista no Leste Europeu, o historiador Fukuyama escreve a respeito de uma Nova Ordem Mundial, caracterizada pela hegemonia econômica pautada no livre mercado e tendo seu principal ator, os Estados Unidos da América em que foi o guia desta vitória durante o processo de Guerra Fria.

No atual momento histórico não há uma ordem mundial vigente, mas um período de intervalos que determina um processo histórico de criação de uma ordem, devido à paradigmas das relações internacionais que estão tentando delimitar o poder político-econômico a nível global por meio dos interesses de possíveis atores de medidas em escalas internacionais; o pensador russo cria uma dicotomia entre o regionalismo e o globalismo, analisando-os enquanto delimitações geográficas possíveis de alcance e controle de poder político.

O pensador russo afirma que os Estados Unidos almeja criar este império global, porém precisa dominar os meios de operacionalizar os recursos necessários a este fim, pois caso não haja este elemento, o futuro do país na política internacional será incerto, existindo três possibilidades para este caminho, o primeiro denota que o espaço interno, no caso o território nacional norte-americano, deve ser comandado por uma boa gestão organizada, equilibrada e sem propensões ao caos para que possa projetar seus esforços na política externa e fragmentar os territórios nacionais alheios, assim pendendo-os à uma dominação.

A segunda via é a de criação de blocos políticos regionais, nos quais fossem dotados de parcerias mútuas entre países de interesses em comuns, com o fim de fortalecer um bloco geopolítico, que assim pressionasse países contrários ao seu modelo de desenvolvimento a aderir seus ideais, sendo também oposição a países de posturas isolacionistas, que não compartilhassem de determinado bloco, mas que prezasse pela soberania e pela segurança nacional com o fim de proteger-se de ameaças externas. Obama em sua gestão foi um autor neste projeto segundo o teórico.

A terceira via é fundamentada em uma aceleração da globalização, em que o fim é criar uma jurisdição internacional na qual sob os termos legais, os Estados Unidos seja o ator político internacional que lidere o desenvolvimento de outras nações, este projeto seria de autoria de George Soros, em que o mesmo representa este projeto por meio do Conselho de Relações Internacionais.

Os três projetos inserem os Estados Unidos da América enquanto potência que guia os outros Estados a um modelo de desenvolvimento em comum; historicamente este modelo de progresso adquire sua maturidade após o fim da Segunda Guerra Mundial, pois os Estados Unidos representaram a vitória dos Aliados, enquanto representante Ocidental, e desde este período o mesmo é o defensor de um universalismo de princípios, tais quais à democracia, liberdades individuais, liberalismo e o livre mercado.

Os Estados Unidos da América reorganizam o modelo universal de civilização que é idealizado pelos projetos imperialistas, desde a Roma imperial; o mesmo projeta-se enquanto guia deste modo de desenvolvimento, sendo o liberalismo uma oposição ao tradicionalismo e regionalismo, já que o mesmo perpetua a secularização e cria uma organização unipolar nos costumes das diferentes civilizações.

“Atualmente, fala-se em termos de direitos humanos, promoção da democracia e da tecnologia, instituições de livre mercado, etc. Mas, essencialmente, estamos lidando com uma nova edição do universalismo ocidental que passou pelo Império Romano, pela cristandade medieval, pela modernidade (com a colonização e o iluminismo) até chegar aos dias atuais com o pós-modernismo e o ultra-individualismo.” (p. 27)

Os Estados Unidos para este teórico é o financiador da globalização, que tem por objetivo expandir os negócios da burguesia internacional, desde que o fluxo de renda esteja interligado ao americano; para tal a entrada de tecnologia estrangeira no país, produtos e propagandas é com o objetivo de destituir a identidade nacional, na qual fora historicamente desenvolvida para substituí-la pelo conjunto de relações socais particulares à pós-modernidade, que na perspectiva do autor, representa o individualismo enquanto elemento pétreo à destituição de laços coletivos existentes num determinado território nacional.

No intuito de materializar seu pensamento e exemplificá-lo, o escritor afirma na obra “Os EUA e a Nova Ordem Mundial”, que as intenções dos Estados Unidos no mundo árabe é a invasão de seu território, com garantias de domínio, a posteriori, redistribuição dos povos que ali habitam, devido à distribuição geográfica dos territórios nacionais em que a população ali encontrada, ainda é distinguida pela sua identidade cultural, crença, costumes, assim ao fundi-los e reorganizar este território, o coletivo que antes fora incentivado pelos seus hábitos em comuns e defesa de valores regionais, iria encontrar-se fragmentado e sem o mesmo potencial de organização social.

O pensador russo afirma que os Neoconservadores são convictos do êxito do sucesso norte-americano, na criação do programa geopolítico unipolar, porém o mesmo ressalta as dificuldades do projeto, da implantação da perspectiva hobbesiana nas relações internacionais, tal qual pensada pelo ex-presidente Bush, em que regulamentações no Direito Internacional e padronização dos regulamentos de guerra, estes planejados pelos Estados Unidos podem abranger a projeção de poder mundial dos mesmos.

Os multilateralistas opõem-se aos neoconservadores, acreditam na dificuldade e impossibilidade dos Estados Unidos regulamentarem o sistema internacional do capital financeiro e dos parâmetros legais de guerra com êxito, por isto defendem que outras potências que queiram compartilhar deste projeto imperialista, possam ser bem vindas e dividir os esforços e ganhos deste trabalho para criarem uma nova ordem econômica a nível internacional em que estes possíveis países regulamentem e controlem o sistema de finanças.

O autor defende a existência de uma visão “americanocêntrica” já que a autonomia dos Estados será substituída pela estratificação política de nações mediadas em suas respectivas posições pelas aproximações políticas e econômica com os Estados Unidos, assim poderão sofrer o processo de desnacionalização da economia e perca da soberania nacional, por vezes sendo um protetorado, submisso aos interesses americanos, já que a ordem coercitiva os levará a aderirem a posição de dependentes do Estado americano.

A ordem mundial analisada por um olhar não americano, é colocada primeiramente por uma série de países em desenvolvimento ou desenvolvidos que não aceitariam este projeto de Governo supranacional, dissolução de sua ordem interna, perda da soberania política nacional e autonomia administrativa, em exemplos ele cita a China, Irã e Índia, de acordo com o autor, mesmo estes países não estando alocados nas mesmas condições de desenvolvimento de potências europeias, o seu recente desenvolvimento os permitirá a preferirem um modelo de conquista de soberania nacional ainda que inserido em um processo histórico de longo prazo.

O escritor denomina de oposição reativa, a rejeita da americanização pelos os países que a negam, porém a reação a este modelo é realizado de forma desorganizada e sem parcerias internacionais, ainda sem haver consenso sobre o que irá acontecer, caso a hegemonia global norte-americana venha a desaparecer; existem os grupos subnacionais, que são movimentos sociais, culturais e religiosos que por se opor ao modelo de civilização norte americano o enfrentam, por meio de manifestações em rua, mídias sociais, meios de comunicação, movimentos políticos e culturais.

No campo religioso, a tradição religiosa opõe-se ao secularismo oriundo do materialismo presente na sociedade americana, os de cunho político agem por via ideológica, socialismo e comunismo por exemplo; os culturais são por vezes, regionais em que os grupos advogam que suas culturas não são compatíveis com elementos vindos do exterior e por isto defendem o regional, enquanto alternativa contrária ao global.

Os projetos subnacionais que se projetam a uma ordem transnacional são o Projeto do Estado Mundial Islâmico pautado no objetivo de internacionalizar a teocracia fundamentada no Islã com o fim de que as regras sociais dos diversos países estejam guiadas pelo livro do Alcorão; o plano “neo-socialista”, representado pela esquerda da América do Sul, em uma nova crítica ao imperialismo, enquanto fase superior do capitalismo, processo este descrito por Lênin, encerrando a dominação Norte-Sul por meio deste projeto e internacionalizando o socialismo com o fim de pôr fim ao processo da dominação de uma nação para com as demais.

Existe o projeto Eurasiano, baseado nos grandes espaços, demarcado pela cooperação oficial entre Estados de culturas e civilizações com semelhanças em um determinado bloco continental, no qual as decisões políticas são dialogadas entre as diferentes nações com o fim de representar o interesse regional por meio da cooperação de povos, havendo blocos continentais que possibilitariam a criação da geopolítica multipolar, sendo a União Europeia, um exemplo factual deste modelo geoestratégico.

A localização geográfica dos Estados Unidos da América é um elemento fulcral à sua projeção para com a dominação marítima, o pós-guerra encerrou o ciclo de dominação norte-sul, vinda da Europa para com a África, porém os Estados Unidos poderiam galgar este posto de dominante geopolítico devido à contínua falência do império americano, os demais continentes do Sul, passaram a ser economicamente dos Estados Unidos, substituindo o papel inglês na economia mundial.

Os blocos continentais, tais qual a União Europeia, assim que formado em outros continentes podem contribuir para a união de povos em objetivos em comum, a identificação cultural regional os contribuirá para exercer uma sensação de pertencimento ao território geográfico no qual está locada, a moeda em comum oportunizará o compartilhamento de interesses econômicos e os levará a proteger militarmente o continente já que a proteção dos recursos locais será de interesse dos países que compõem o bloco geopolítico.

A defesa regional, em especial a meridional, possibilitará a autonomia administrativa dos Estados, pois diminuirá a influência norte-americana na região, o diálogo dos diferentes países a respeito do modelo de desenvolvimento a ser empregado possibilitará a democratização das conquistas políticas regionais, as tecnologias locais servirão para os interesses da produção oriundos da mesma região geográfica, não mais sendo economicamente dependente dos Estados Unidos da América.

A projeção geográfica do Norte é propensa ao desenvolvimento do comércio, povos navegadores, por isto o liberalismo foi propenso a ser desenvolvido nesta região, pois as trocas comerciais necessitavam de liberdade e quebra de barreiras alfandegárias para expandir-se, além das navegações rumo ao sul, que proporcionou colônias e a acumulação primitiva nas Américas, o que possibilitou o acúmulo de reservas para os futuros investimentos em mercado e industrialização.

Os povos a leste, em destaque a China e a Rússia são povos que desenvolvem-se em ambientes terrenos, propensos a grandes fronteiras, economia comunal, propriedades comunitárias, o deslocamento destes povos foram feitos por via terrestre o que lhes proporcionaram combates a povos que se localizavam nos territórios vizinhos, os quais eram alcançados devido ao processo de expansão das terras russas e chinesas, tal experiência possibilitou o combate entre os povos da região oriental, investimentos em armas, desenvolvimento de uma cultura belicosa, isto decorrente de sua projeção geográfica que permitia o deslocamento por via terrestre, assim o choque de civilizações permitiu o intercâmbio cultural e guerras, pois estes encontros das diferentes tribos que hoje formam os países orientais foram por vezes pacíficos ou resultaram em conflitos militares.

Os Russo-Chineses contam com o apoio dos independentistas, neossocialistas, latino-americanos e islâmicos, pois a formação cultural de ambas as regiões divergem do atlantismo inspirado no individualismo, livre mercado e direitos humanos os primeiros são povos propensos a Telurocracia, desenvolvimento e expansão de suas terras por via terrestre e o segundo é propenso a talassocracia, o que indicam formações culturais distintas e é nessas diferenças de pensamento que a do bloco Russo-Chinês, junto ao hemisfério sul resiste à expansão marítima, cultural e política ocidental.

Imprimir

Compartilhe:

Pular para a barra de ferramentas