Opinião Pública

Afinal, o que é “Opinião Pública”? aquela que as mídias e afins anunciam os resultados de pesquisa em opinião pública sobre determinados assuntos. Os institutos que são conhecidos no Brasil e fazem pesquisas neste sentido são o Ibope, Data Folha, IBGE… etc. Cujo partem da ideia de que a opinião pública é a somatória de opiniões individuais sobre temas por eles mesmos aferidos. Para Bourdieu este tipo de opinião não existe.
 
              Um ponto que tem que ser esclarecido é a definição de opinião, e a diferença para a opinião que é pública. Ex: a aula foi ruim; a comida está apetitosa, etc… — A especificidade da opinião pública em relação a simples opinião é que, a opinião pública terá por objeto temas que digam respeito a toda a cidade, a toda “polis”, temas “políticos”, portanto. 
              Um dos principais requisitos para que um objeto seja tido como público hoje: ele deve estar presente nas pautas dos meios de comunicação. A agenda dos meios determina a agenda pública. A opinião pública, para ser pública, terá que ter um tema presente nos meios de comunicação de massa. O valor atribuído ao objeto da opinião pública é atribuído por um grupo, ou seja, é um valor coletivo e compartilhado por um grupo de pessoas. 
              A mídia, principalmente a grande mídia — monopolizada na maioria das vezes — é aquela que “dita” os assuntos de interesse público, percebemos isso nos jargões proferidos em jornais, programas televisivos e etc. (notícia/reportagem de interesse público), normalmente a população não observa essas relações de um ponto de reflexão filosófica, por fim acredita que ela é “imparcial”. É muito difícil haver imparcialidade na mídia com relação à opinião pública, pois para fazer parte da pauta da mídia ela deve passar por um filtro e pelo interesse dos que vão divulgar ela.  
          A “opinião pública”, para ser entendida como somatória de opiniões individuais, como mostrada pelos institutos de pesquisa e mídias afins, parte de algumas premissas: 

 

  1. Seria preciso que todos tivessem opiniões individuais sobre os temas da agenda pública, o que não é o caso, pois nem sempre há opinião individual sobre os temas próprios da opinião pública.
  2. Além disso, seria preciso que houvesse uma referência para que seja feita a comparação – Um critério a partir do qual julgar.
  3. Seria preciso que elas fossem “somáveis”, e só são somáveis unidades da mesma espécie. Ou seja, as opiniões individuais teriam que ser equivalentes para poderem ser somadas. O que não pode ser feito, já que cada indivíduo tem suas características específicas, diferentes legitimidades sobre o assunto, experiências diferentes, formações diferentes, especialidades diferentes, etc. 
  4. Os temas objeto de pesquisa teriam que ser os temas mais relevantes, mais importantes para os indivíduos da sociedade. Perguntar sobre determinados temas é pressupor um acordo social sobre a importância desses temas, o que está longe de corresponder à verdade.

 

               Então, conclui-se que: a definição de opinião pública como simples somatória das opiniões individuais, é uma definição que não convém. Já que a opinião pública NÃO é a somatória das opiniões individuais, partindo das teses de que: 1º) A opinião pública é lógica e cronologicamente anterior às opiniões individuais; 2º) A opinião pública é condição das opiniões individuais; 3º Fazer acreditar que a opinião pública seja a somatória das opiniões individuais interessa a “alguém”, pois esconde instancias de poder e protege aqueles que conseguem interferir nos caminhos da opinião pública.
          A opinião pública é lógica e cronologicamente anterior às opiniões individuais: Segundo Durkheim, “a sociedade é lógica e cronologicamente anterior aos indivíduos que a compõem”. Quando o “homem” surge na evolução da espécie, ele já vivia em sociedade, assim como as etapas anteriores ao homem nesse processo também já viviam em sociedade. Ou seja, a evolução do homem se deu em sociedade — assim como a sociedade precede o indivíduo. A opinião pública precede a opinião individual, pois os indivíduos nascem em contextos onde as opiniões públicas já estão amplamente consolidadas.
           Fazer acreditar que a opinião pública seja a somatória das opiniões individuais interessa a aqueles que estão por trás da construção efetiva das opiniões dominantes sobre os temas políticos. O que Bakhtin propõe em sua obra “Marxismo e filosofia da linguagem”: a consciência tem como matéria prima signos, as palavras são um tipo de signo. Esta por sua vez, é povoada de palavras, as palavras constituem a consciência, mas ela é dinâmica e pressupõe a articulação permanente entre essas palavras. Cada palavra possui um significado. A consciência é construída dentro de um pertencimento na sociedade, de fora pra dentro. É a sociedade que oferece as condições materiais para articular a matéria prima semiótica que o indivíduo usa para falar. É a sociedade que propõe o significado das palavras que os indivíduos utilizam. Bakhtin afirma que todo o signo é ideológico. O significado das palavras é resultado da construção social de agentes em conflito, que querem que as palavras digam coisas diferentes do que elas querem dizer para seus adversários. Existe uma luta social pela definição do que devemos entender sobre as palavras. O significado das palavras é um troféu em disputa. Se a consciência é povoada por signos em articulação, e esses signos em articulação só se articulam em função de significados em circulação na polifonia social, é evidente que um indivíduo só consegue propor uma opinião individual se tiver sido devidamente abastecido por uma matéria prima semiótica que lhe é dada pela polifonia na qual ele está inserido.
           Temos então, neste caso uma opinião pública que precede o indivíduo e a cada momento sócio-histórico temos um foco diferente. A grande mídia determina de acordo com seus interesses a opinião pública, interesses que podem ser desde a simples audiência ou até mesmo interesses políticos. Quando nós nos deparamos com o “opinião pública” devemos redobrar nosso ceticismo e refletir filosoficamente sobre os objetivos, interesses e consequências da “opinião pública”, e sobretudo questionar a origem e os interesses da pauta pública e quem tornou ela “pública”.
Referências: Curso de Ciência Política, de Clóvis de Barros Filho.

por Douglas Ferrari

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