Olhares passageiros

Um menino de uns 20 anos, usando um boné, lava a louça e olha sem interesse para as pessoas que frequentam a lanchonete na qual trabalha; uma senhora de touca de tricô come um pastel e toma café com leite. Ao meu lado um rapaz de uns 30 anos explica o que é mais-valia para uma menina sorridente de cabelos crespos.

Passa um casal de idosos; tem uma jovem com uma roupa de Snoopy comendo um doce diante de uma mala grande, uma mulher de meia idade entra, olha os salgados e sai com cara de enojada. São quatro e vinte, diz a mulher com a criança no colo e uma mamadeira na mão, são doze reais o pastel e o café com leite. Não eu não gosto de economia, só filosofia e história diz a menina crespa, considerando sequer ter dinheiro ou fazer o que gosta. O rapaz segue detalhando da mais-valia aos seus projetos de vida, que envolvem ter uma pousada com muitos funcionários em Florianópolis. O atendente da lanchonete passa um esfregão no chão engordurado, e a gerente olha atravessado para o casal que conversa sem consumir nada. Você sabe que uma passagem de trem de Portugal para a Espanha custa 50 euros? Sério? No banco perto, sentam duas garotas muito magras com uniforme de comissárias de bordo, algumas linhas, com viagens longas, oferecem esse serviço, li uma matéria tempos atrás. Na televisão toca uma música da Anitta e a gerente olha novamente para o casal, que talvez não saiba que é um casal.

“Screcht, screcht, screcht”, a chapa está sendo raspada pelo menino de boné, minha cabeça dói e o rapaz segue explicando as maravilhas de olhar com olhar de turista para tudo. Encontro um comprimido para dor na bolsa, é folga do menino de boné, que sai animado com o celular na mão, enquanto o rapaz ao meu lado cita Nietszche. A menina crespa está maravilhada, escuta sem interromper uma longa explicação sobre design social e design ambiental. “Screcht, screcht, screcht”, a gerente segue limpando a chapa, e eu penso nas complicações digestivas de quem comeu um lanche antes desta limpeza. A família é essencial, Anitta não canta mais e começou uma discussão política na televisão. Para a alegria da gerente o casal resolve pagar os dois sucos que consumiram em duas horas de conversa, o rapaz paga e saem rindo alto.

São quatro e cinquenta, os ônibus seguem saindo e chegando, por R$ 200,00 você pode ir ao Uruguai, por R$ 1,00 você toma um café em pé; no segundo andar tem um centro de acolhida ao migrante, perto das encomendas tem um espaço de atendimento ao turista, cheira mal e o funcionário não olha para quem entra. São cinco horas, a comissária de bordo se foi, acabou o meu café e o menino de boné não retornou – preciso ir.

Para nos salvar do cotidiano ainda bem que temos a filosofia.

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Luz Maria Guimarães

Filósofa Clínica, terapeuta e empresária. Mas a vida segue linhas curvas, como o pensamento, fiz graduação e mestrado em História, e tenho um escritório de Design Gráfico. Gosto de poesia, arte, filosofia e tudo o mais, e venho trazer algumas linhas sobre como o mundo me parece. Saiba mais no site www.luzmariaguimaraes.com, ou mande um email para contato@luzmariaguimaraes.com

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