O Sorriso

por Flávio Luís Schnurr

Envelhecido, maltratado pela erosão do tempo e das circunstâncias bem ou mal vividas em vidas loucas, passivas, dominadas pelo poder cativo, ou livres sem medo e sem remorso, guiados pelas falácias que cresciam em gotas, absorvidas pela mente vazia, aberta ao todo e a tudo, colhendo e peneirando emoções e sensações e sorrindo.

Marcada por idas e voltas na relatividade do passado e presente, que do passado guarda lembranças boas e más, imutáveis como consequência sentidas e vividas, que marcaram, ensinaram, machucaram ou iluminaran-se no êxtase máximo do prazer, sorrindo.

No presente, momento crucial do ser ou não ser, questão de escolha  na dúvida da intuição que leva a viajar na inércia do espaço do tempo que passa, leva, desgasta e esgota a nobreza da beleza aparente externada num sorriso já outrora cativante, de feições perfeitas forjadas por velhos átomos num jovem corpo em metamorfose hormonal, sorrindo.

Agora, semblante cansado pela revolução dos radicais livres que sugam o fluido da beleza escondida sob a face atacada pelo tempo, pela insensatez do invólucro corpóreo caído, esboçando movimentos na tentativa de emitir um sorriso antes fácil e cativante já sem reação.

Os olhos então brilham e dizem: podemos sorrir.

A carne cansada num corpo decadente e vida útil limitada, guarda em si a força de suas experiências vividas, presas em suas feições marcadas e endurecidas pelo tempo.

Desiludido então, o sorriso já eternizado volta-se para dentro de si mesmo, percebendo então, que quando um corpo já não puder mais expressar sua alegria o sorriso migra para a alma.

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