O sequestro da subjetividade no Cristianismo

Segundo o texto bíblico do Gênesis, no jardim do Éden, Deus passeava com sua criação – e nisso percebemos a necessidade que as religiões têm de mostrar como um ser superior está disposto a se encontrar com a pequenez da sua criatura. Contudo, a interpretação dessa relação custou caro a muitos fiéis. Outros, porém, nem notam o problema gerado desta interpretação. É o que chamamos aqui de sequestro da subjetividade.

A imagem do sequestro pode parecer forte, mas, é metodologicamente útil, porque, também aprisiona pessoas, não com correntes, mas as ideias, que por não serem tão visíveis, tornam-se difíceis de serem analisadas em suas consequências. Assim, a ideia que Feuerbach tem da religião, é que a religião é a consciência de si mesmo, uma autoconsciência. Muito embora, seja uma autoconsciência indireta, pois ser humano religioso não apresenta a consciência de que a consciência de Deus é a consciência de sua essência.[1] E é exatamente desta perspectiva que a religião se alimenta, a saber, a falta de consciência genérica do homem.

O resultado desse estranhamento do homem em relação a sua essência é o surgimento de um ser estranho ao homem. O caráter negativo é de fato esse, o distanciamento do homem em relação a sua essência. Diante de Deus e da religião, o homem perde a consciência de sua essência, escondendo a sua essência em ilusões e mentiras. Como o próprio Feuerbach afirma:

O carácter da religião é a contemplação imediata, espontânea, inconsciente da essência humana, como uma outra essência. Mas esta essência objetivamente contemplada num objeto da reflexão, da teologia, torna-se uma mina inesgotável de mentiras, ilusões, cegueiras, contradições e sofismas”. (FEUERBACH, 1988. p. 255)

O distanciamento do homem em relação a sua essência é a causa da alienação, pois com a projeção da essência humana se estabelece a infinita diferença entre Deus e o homem individual. Com isso, acaba-se afirmando o domínio de Deus sobre o homem. O homem é dominado por sua própria ilusão. “Deste modo, a origem da religião é explicada por Feuerbach como a projeção hipostasiada em um Deus estranho, independente, todo poderoso e ídolo, tornando o ser humano um sujeito passivo e alienado.” (HAHN, 2003, p. 117.)  O resultado dessa ação é que o ser humano se torna passivo e alienado, pois esse ser ilusoriamente independente que ele criou passa a determiná-lo. O homem não tem mais o poder sobre sua criatura, perdendo o controle.

Parece haver uma espécie de sequestro, onde se explica sobrenaturalmente aquilo que poderia se explicar de maneira natural. O poder colocado sobre as religiões, necessariamente passa, muitas vezes, pelas capacidades retiradas da humanidade. O que aqui quer se apresentar é que determinadas realidades devem-se aos seres humanos, são próprias deles, da sua estrutura física e psicológica. Por isso sequestro, pois mesmo a doença, pertence a eles, e até mesmo a capacidade de ser doente é roubada deles. 

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Matêus Ramos Cardoso

Natural de Sombrio, Santa Catarina, 34 anos. Filósofo. Escritor. Palestrante. Especialista em Ética e Ciências da Religião. Pós-Graduando em Sociologia e Antropologia. Ênfase em Teologia da vida espiritual. Ênfase em Filosofia, nas áreas de Filosofia da Educação; Ética; Antropologia Filosófica; Filosofia da Ciência; Tópicos de Filosofia Contemporânea; Filosofia da Religião; Técnicas de Redação; Existencialismo, Pragmatismo. Ênfase Sociologia Clássica e Teoria Sociológica Contemporânea, Racionalização, Modernidade, Pós-modernidade, Contingência e Técnica. Ênfase em temas como: O papel do Professor; Compreensão e crítica do estilo de vida pós-moderno. A reflexão dos problemas de saúde mental sob a ótica da Filosofia e Sociologia. Reflexão sobre a morte. Os riscos da modernidade. Educação Contemporânea. A cultura do narcisismo. Sociedade do Consumo. A religião e o ateísmo. O trabalho na pós-modernidade. Possui 24 artigos publicados, 6 artigos escritos no ano de 2016 e em 2017 escreveu 2 livros, totalizando 4 livros escritos, mas não publicados.

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