O remédio filosófico

Ao final do livro VI da República de Platão, há algo que me chama a atenção ao ver os dois personagens debatendo em altíssimo nível; Sócrates introduz um dos principais pontos da teoria platônica, comentando (com Adimanto) a respeito da existência de duas categorias de seres: o do mundo visível e os do mundo inteligível, que constituem dois segmentos. Por sua vez, cada segmento divide-se em outros dois: o segmento do mundo sensível divide-se numa parte que compreende as imagens dos objetos sensíveis, e noutra que compreende os próprios objetos sensíveis. Já o segmento do mundo inteligível divide-se, por sua vez, numa parte que compreende os conceitos científicos, e em outra que compreende as ideias. Portanto há quatro tipos de objetos, aos quais correspondem quatro atividades cognitivas: a imaginação, a crença, o pensamento dianoético (Relativo ao conhecimento ou às capacidades intelectuais) e intelecção. Os primeiros dois constituem o universo da opinião, os outros dois, o mundo da ciência e da verdade.

Por meio dessa dicotomia feita por Platão, podemos aplicar esse mesmo pensamento em inúmeras problemáticas na vida humana. Nesse caso, o mundo inteligível como sendo mais comumente chamado de mundo das ideias, seria o referencial de vida perfeita, já o mundo sensível, a nossa realidade.

Ao me deparar com essa filosofia, percebo a aplicabilidade dela no dia a dia e identifico que há a confusão desses dois universos, trazendo inúmeros males para os indivíduos que cometem esse erro. Primeiro porque o universo ideal sempre será inatingível, seja você quem for. Segundo porque ao recair nessa lógica, a dificuldade de sair desse universo é muitíssimo problemático, gerando assim até aspectos de depressão e distúrbios psicológicos até piores do que o primeiro.

Sendo assim, criam-se inúmeras formas de diminuir o tédio que me recordam a letra de “I can’t get no satisfaction” da banda Rolling Stones, na qual o personagem da música tenta diversas vezes se sentir realizado com seus desejos. Entretanto, ele nunca se satisfaz (seja dirigindo seu carro e ouvindo o rádio, seja com as camisas mais brancas possíveis, seja fumando seu cigarro, etc).

Desse modo, Platão nos ensina que criarmos expectativa sobre nossa realidade (seja sobre um carro novo, presente de aniversário, um relacionamento, um livro indicado, um país melhor, etc.) não é o melhor caminho para se ter uma vida melhor. Por essas e outras que eu sempre recomendarei o amor fati de Nietzsche, no qual ele ama e aceita o presente, desapega do passado e se desgruda do futuro. Uma porque o penúltimo já passou e não há como modificá-lo, já o último porque ele ainda não aconteceu. Nesses aspectos a sabedoria nietzscheana é arrebatadora para vivenciar a experiência de vida boa. Sem excessos de passado (depressão) e de futuro (ansiedade).

Além de vivenciar o presente por meio de Nietzsche e destruir quaisquer ressentimentos acumulados durante nossa vida, reverencio inclusive a prática da famosa lei do “Imperativo Categórico” de Kant, no qual ele dirá na sua obra “Metafísica dos Costumes” o seguinte:

O imperativo categórico é, pois, único, e é como segue: age só, segundo uma máxima tal, que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal.

Ou seja, aja de tal maneira que aquilo que for posto em prática possa valer para todos sem causar danos a ninguém.
Talvez algum dia possamos utilizar a Filosofia como solução para responder às diversas questões do ser humano e reverenciar uma vida melhor para o ser humano. A partir desses ensinamentos acima, não haverá erro e com certeza a sociedade se tornará um lugar melhor. Seja para você leitor e para quaisquer indivíduos.

Imagine no nosso mundo ideal se nossos políticos brasileiros vivenciassem apenas o imperativo categórico? Como seria esse novo universo? Seria ótimo, não é? Pois bem, terei de concordar com você. Esse é o efeito do remédio filosófico. Sempre mudando nossa forma de ver o mundo.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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