O recurso às representações imagéticas na exposição de ideias

Noutro dia me encontrava num café conversando com uma amiga. Falávamos sobre assuntos simples, porém de forma complexa, como é comum ao pensamento (filosófico, principalmente). Num dado momento a pessoa que ocupava o lugar de meu interlocutor falava sobre a capacidade de se ver desenhar diante dela as formas de alguns argumentos. Essa asserção, em especial, me chamou a atenção.

O uso de imagens é comum e de grande valia para os mais diversos processos. No caso da educação, por exemplo, o artifício imagético encaixa-se como ferramenta na relação ensino-aprendizagem. Talvez ele se encontre no top 3 das ferramentas pedagógicas. A razão principal é a de que a imagem sensibiliza a proposta a ser ensinada. Transforma a linhagem da informação, tornando ela acessível aos sentidos daquele que a recebe.

Na produção dos textos das mais diversas áreas, a linguagem é sempre um ponto limítrofe. No geral considera-se uma tarefa e tanto o ato de exprimir em palavras a complexidade dos pensamentos humanos. A experiência externa extrapola os limites da linguagem, e a experiência interna, por sua vez, extrapola os limites atingidos pela própria experiência externa. No caso da primeira, você consegue muito bem descrever o objeto de forma ostensiva e, com isto, com uma aproximação maior da possibilidade de uma descrição universal – porém, no limite, trata-se de uma experiência interna, ou seja, uma imagem produzida no interior do seu cérebro: uma representação.

A experiência interna é um caso à parte. Ao que parece, a arte é o que mais se aproxima de uma descrição da experiência que o indivíduo faz dos seus próprios sentimentos. Por sua vez, a poesia utiliza da linguagem a fim de fazê-lo. Há de se considerar, no entanto, o recorrente uso da “licença poética” como artifício para a deturpação da linguagem como forma de adequá-la à criação de imagens que possam expressar o mundo interno. Ou seja, tanto a poesia como a pintura, escultura e afins só são possíveis através de uma representação imagética da realidade (externa ou interna).

(No caso da música, a representação imagética fez-se presente através da organização das notas por meio de uma linguagem convencional dada na partitura, ou até mesmo nos movimentos de regência do maestro que “desenha” o conteúdo estruturante da obra diante dos músicos)

A escrita filosófica enfrenta desde o seu início a dificuldade de expressar-se através da linguagem e, com isso, encontra na representação imagética um caminho para cumprir o seu papel. Platão mais do que ninguém sabia disso. Utilizou-se das mais variadas ferramentas imagéticas para representar as teses metafísicas controversas que apresentou em sua época – alegoria da caverna, mito de Er, alegoria do sol, linha dividida e afins. Apesar de condenar o uso das imagens na arte, que nos afastariam do real mundo das formas/ideias, o uso de representações teóricas, que buscam construir na mente no indivíduo a imagem necessária jamais fora abandonada.

O sábio nazareno, por exemplo, é famoso pelas suas parábolas, que buscavam exprimir algo que estaria acima da compreensão humana através de exemplos da vida cotidiana. Em todos os casos, sensibiliza o ouvinte ao tocar na sua própria vida a fim de criar nele a compreensão da ideia geral.

Na mesma semana daquela conversa da qual falei acima, estava dando uma aula na universidade quando alguém me interrompeu para fazer sua ode à escrita do autor que ensinava, justamente apontando para o uso que ele faz dos exemplos, estas imagens mentais que nos aproximam da ideia ou, melhor dizendo, aproximam a ideia do nosso mundo terreno. (O autor era o próprio velho rabugento de Danzig).

O uso da imagem, neste sentido, parece sempre bem vindo quando se trata da escrita teórica, em especial a escrita demasiado abstrata como acontece em muitas áreas do conhecimento (a filosofia, por exemplo). Não nos furtemos de uma observação acerca da plausibilidade dos exemplos imagéticos: da mesma maneira em que nos aproximam à ideia, o mau uso da imagem é constante fonte de erros interpretativos. A Imaginação do leitor, na sua complexidade natural que é afetada pela imagem criada e, por sua vez, auxilia o entendimento, pode ir além do exemplo e a partir daí ser fonte de confusão e engano. Em virtude dos nossos problemas de linguagem, nossas ferramentas permanecem igualmente numa linha tênue entre o entendimento e o engano. Ficam sempre à mercê do bom senso e do bom uso. Carecem, desse modo, de uma teoria de como usar a linguagem? Se for o caso, saberemos que o nosso uso cotidiano da linguagem é sempre, na verdade, uma metalinguagem.

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Rafael Ramos

Professor. Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Aluno no programa de mestrado em filosofia da mesma instituição. Bolsista financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Atualmente desenvolve sua pesquisa sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer. Paralelamente desenvolve estudos relativos à psicanálise e comunicação.

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