O Preço

Antes de adentrar no tema dessa postagem, quero chamar a sua atenção, caro leitor, para um trecho da música O Preço (Charlie Brown Jr):
Dei um trocado prum pivete no farol
Olhei pro lado, tava o pai
Pensei: Velho filha da puta, explorador!
Mas vai saber… Sei lá
Cada um tem sua história
Eu tô aqui pra aprender, não pra julgar
Quem pode me julgar? Quem?
Pelo menos desde cedo o pivete vai aprender a se virar (ah vai)
E graças a Deus, eu não tive um pai assim
Meu pai, um grande homem
Me ensinou como ser homem também
Longe do velho eu passei fome
Isso é passado, amém
Mas eu tive quem sempre olhou por mim, yeah

O número de crianças e adolescentes nas ruas das grandes cidades do Brasil tem diminuído nos últimos anos, mas, mesmo assim, continua gritante. Gritante por vários fatores, sendo que o principal diz respeito a invisibilidade social dos mesmo. Semelhantes a pingentes nas ruas da capital, as crianças e adolescentes passam despercebidos aos olhos do cidadão comum que cruza com elas no seu itinerário corriqueiro. Não são vistas, e se são, o são com um olhar de reprovação, repugnância, asco e medo. Ou ainda com o mais cruel de todos os olhares: o olhar da “pena”, o olhar de quem dá um trocado, de quem dá uma bolacha para redimir sua maldita consciência.
Mas está esta atitude errada? Ouso dizer que não. Por que ouso? Porque como profissional da assistência social sempre me foi repassado que jamais se dá esmola ou alimentos para crianças e adolescentes pedindo na rua. Mas a prática me mostrou um outro caminho. Digo sim que as pessoas devem dar um alimento para aquela criança que está o dia todo na calçada pedindo. Deem um alimento, não dinheiro. Mas não parem ali. Não fiquem só no gesto. Porque o problema está justamente aqui. Está em parar no dar e sair praguejando contra a desigualdade social, contra a corrupção, contra o Bolsa Família.
Todo cidadão é responsável por existirem crianças e adolescentes em situação de rua em qualquer canto desse país. Quando alguém é assaltado por uma criança ou adolescente, todo cidadão deveria responder ao crime por ser cúmplice. Quando uma criança ou adolescente é assassinada, o sangue dela está nas mãos dos cidadãos. E se for assassinada por algum órgão da segurança, então todos devem  responder pelo crime, além de limpar as mãos manchadas de sangue. 
Agora você deve estar se perguntando: como assim?
A resposta é muito simples. Quem faz  a democracia é o povo. É ele quem deve verificar para aonde vai o dinheiro público. Ou seja, quando alguém dá uma moeda para uma criança, ele deve também verificar quais as medidas legais a serem tomadas. A mais imediata, nesse caso, é acionar o Conselho Tutelar. Afinal de contas, a criança está tendo seus direitos fundamentais violados. Outra medida é acionar os órgãos de assistência social, principalmente a secretaria de assistência social de seu município. Porque aquela criança tem uma família e essa deve ser acompanhada pela assistência, justamente para evitar que tais violações de direitos se perpetuem. É preciso reestruturar a família. Somente assim pode-se sonhar em, um dia, erradicar o trabalho infantil da sociedade brasileira.
Mas, e quando a criança não tem família? A secretaria de assistência social, por meio de seus equipamentos, encaminhará a criança para a chamada “família extensa” (tios, avós, algum parente que possa se responsabilizar pela criança). Em últimos casos é realizado o acolhimento institucional das crianças para os abrigos governamentais do município, ou do Estado. Esses espaços contam com profissionais qualificados que farão a reinserção da criança (ou adolescente) dos espaços protetivos, garantindo os direitos básicos dos mesmos.
É mister entender que o bom funcionamento das políticas públicas passa pelo interesse social em sua boa execução. Não basta alguém saber uma irregularidade do Bolsa Família, por exemplo, e não fazer nada. É preciso ir até o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) de sua região e fazer uma denúncia anônima. Isso bastará para que seja realizado uma auditoria e, comprovando-se o não preenchimento dos requisitos para a inserção no programa, o benefício será cancelado.
Também não basta ficar compartilhando informações via redes sociais, sem saber a procedência e a vericidade dos fatos. Hoje o que mais se encontra são postagens, com interesse político, inventando notícias que visam difamar as políticas sociais vigentes. É preciso um olhar crítico e atento antes de sair compartilhando qualquer coisa e bancando a marionete política.
Ademais, é preciso, por parte do cidadão brasileiro, um interesse maior para a manutenção das políticas que visam erradicar a violência contra crianças e adolescentes do país.  Dê sua moeda, se isso lhe fará dormir melhor a noite. Mas o faça com a garantia de que a criança ou o adolescente não perca sua dignidade ao receber seu gesto. Denuncie toda e qualquer violação de diretos que você presenciar. Não é dando moedas e alimentos para as crianças e adolescentes que estão na rua que você vai garantir um futuro promissor pra elas. Lembre-se que todo adulto de rua já foi criança, e muito provavelmente de rua. 
Não julgue, lembre-se da música no início dessa postagem. Todo mundo tem uma história. Nenhuma criança quer estar na rua. Nenhuma criança escolhe vender bala no metrô, fazer malabares na sinaleira ou pedir na frente de um mercado. Nenhuma criança escolhe a prostituição infantil porque gosta de ser violentada. As crianças e adolescentes, principalmente de rua, não escolhem. Elas arcam com o preço das escolhas de todo o cidadão. O sangue delas está na mão de cada cidadão brasileiro. Durma com esse fardo sobre seus ombros, se puder. E lembre-se disso quando for dar sua moeda. Repito, não sou contra, até prefiro que a criança receba algo para comer do que vê-la passar fome o dia todo. Mas lembre-se do fardo, da responsabilidade. Lembre-se de fazer mais do que dar um pão ou uma moeda. Olhe para suas mãos e veja o sangue de todos aqueles que morrem por causa de sua inutilidade enquanto cidadão brasileiro. Principalmente por causa de sua conivência com a corrupção, com a opressão policial, com o discurso de ódio e com o descaso para a violação de direitos dessas crianças e adolescentes.
Só para constar, crianças e adolescentes vão para a rua porque veem na rua um espaço mais saudável do que a casa de onde vieram. E elas vieram da periferia. Porque a regra é essa: pobre vai pra rua quando a situação em casa torna doentia a tal ponto de ser impossível viver lá; rico se mata porque tem vergonha de ser encontrado na sarjeta. Ao menos o pobre acredita na vida.
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