O pote de ouro no final do arco-íris

Hoje minha postagem abordará um tema que, volta e meia, faz-se presente nas rodas de discussões, formais e informais. Vamos apresentar alguns aspectos que podem ajudar a responder a questão: “por que o Brasil não acaba com as periferias?”.

Essa pode parecer, num primeiro olhar, uma pergunta muito ingênua, e que pode acabar levantando respostas do gênero “isso é impossível”, “não temos dinheiro para tanto”, entre outras. Porém, meus caros leitores, a verdade me parece-se ser bem mais complexa (ao menos mais profunda).

Acontece que o Brasil descobriu um grande potencial em suas periferias. Um potencial político, econômico e, recentemente, turístico. Sim, a periferia tornou-se um ponto central no plano de qualquer governo. Mas, infelizmente, o papel que a periferia executa, ou os planos que os governos tem, não correspondem ao que a periferia precisa ou espera…

Não é segredo que grande parte dos políticos elegeram-se (e sempre se elegeram) com votos conquistados (muitas vezes com chantagens, promessas e a força) das comunidades do interior, que não tinham acesso a educação e pouco sabiam sobre política. Acontece-se que, em determinado momento histórico, nosso país sofreu um grande e complexo êxodo rural, criando as chamadas periferias nas grandes cidades brasileiras. Fica a dica de leitura sobre o tema: Quarto de despejo – diário de uma favelada.

Com o crescente número de pessoas deixando os campos e indo para as cidades, e com essa nova configuração do panorama econômico-social, novas medidas tiveram que ser tomadas pelos governantes desse país. Essas medidas, contudo, não realizavam o sonho de riqueza e fartura que os imigrantes do campo esperavam encontrar.

O sistema, sim sempre o sistema, viu nas periferias uma grande oferta de mão de obra barata, já que era desqualificada. E assim surgiram falsas promessas de empregos com carreiras e oportunidades, quando, na verdade, o que era ofertado (e continua sendo) são os serviços mais insalubres e com mais baixa remuneração. Dessa forma era descoberto o segundo potencial das periferias.

Sim, segundo. Porque o primeiro continuaria sendo a fonte de votos fáceis. Mas agora, precisava-se mudar a abordagem. Já não se poderia aplicar o voto de cabresto. Contudo, poderia-se iludir o povo (se bem que, em alguns lugares, existem registros de uso de força e ameaças a comunidades inteiras por causa de votos). Dessa forma, adotam-se as campanhas políticas com comissos, shows, sopas comunitárias, visitas às comunidades carentes prometendo projetos, investimentos, infraestrutura… E depois da eleição, o candidato, já eleito, simplesmente se esquece. Porque a periferia cumpriu seu papel.

E mais recentemente, foi descoberto a terceira potencialidade da periferia. Ela é ponto turístico! Sim, turistas vem ao Brasil, principalmente ao Rio de Janeiro, para visitar as periferias, ou as “favelas”. Parece uma piada, mas é a triste realidade desse país. Algo que deveria ser tomado como vergonha nacional, afinal de contas o Brasil aparece entre as 10 maiores economias do mundo, apresenta ao mundo, como destino turístico, um quadro dantesco, no qual está retratado toda a discriminação social, a péssima distribuição de renda e a precariedade da máquina pública brasileira.

E porque isso não muda? Porque é cômodo. a periferia fornece mão de obra barata, votos e é destino turístico. Ela é perfeita para o sistema. Não interessa ao sistema dar condições de acesso a educação para a periferia. Porque a periferia poderia erguer-se contra o sistema, citando indiretamente Leonardo Boff aqui, “chegará o dia em que os pobres se erguerão e tomarão as chaves dos celeiros que guardam os alimentos da humanidade”. O sistema teme esse dia. E a periferia é uma grande massa de pessoas talhadas a ferro, fogo e sangue. Um povo que não foge da luta, alias um povo que precisa lutar, pois a luta é seu motivo para viver. Então, para não enfrentar essa massa, o sistema proporciona condições para que a luta seja interna, para que cada morador da periferia tenha que lutar com seu vizinho por um ponto de reciclagem, por um ponto de estacionamento, por um ponto de esmola. Assim, perpetua-se o individualismo na periferia. E tem mais um detalhe. O povo da periferia não se suicida. eles lutam até morrer, mas não tiram a própria vida. Eles nos carregam nos ombros, mas nós lhes viramos a cara todo dia…

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