O mito, a política e a religião

 “No décimo segundo anos após esses acontecimentos, Megacles, enfrentando dificuldades num conflito de facções, abriu negociações com Pisístrato e, propondo que este desposasse sua filha, trouxe-o de volta, empregando um expediente antiquado e extremamente simples. Começando por fazer correr um boato de que Atena estava trazendo Pisístrato de volta, descobriu uma mulher, alta e bela, de acordo com Heródoto pertencente ao demo de Paeânia, embora conforme outros relatos uma florista trácia de Colito, de nome Fie, trajou-a para que se assemelhasse a uma deusa e a trouxe à cidade com Pisístrato. Este surgiu na cidade dirigindo uma biga com a tal mulher em pé ao seu lado. A população, tomada de pasmo, acolheu-os reverentemente.”
Constituição de Atenas, Aristóteles.

O mito é, desde tempos imemoriais, um dos mecanismos mais poderosos de coesão social. Na antiguidade, ele servia como um explicador dos fenômenos naturais, embora de forma alguma resuma-se a apenas isso. Naturalmente, num mundo nas quais não havia praticamente nenhum tipo de conhecimento sistemático e organizado da natureza, o ser humano era levado a explicar de alguma forma sua própria organização social e, nesse bojo, os fenômenos naturais que governavam sua vida diária, como as estações do ano ou o movimento dos astros no céu. Um dos campos mais férteis dos mitos era com relação ao poder político. Com efeito, inúmeros mitos, senão todos, surgiram como uma forma de legitimação da hierarquização social, na qual o governante frequentemente era associado a um ser divino, como em Israel, ou o próprio governante era visto como um ser divino, por exemplo no Egito, em seus mitos sobretudo religiosos. Mesmo em uma sociedade um tanto menos presa aos mitos religiosos, como a grega, eles também acabavam exercendo um papel importante, como relatado no trecho acima por Aristóteles em sua Constituição de Atenas.
O Brasil, desde até mesmo antes de seu  “achamento”, ou melhor, invasão, por parte dos europeus, sempre foi pródigo em mitos. Ainda na Idade Média, vários foram os mitos e lendas a cercarem o chamado “mar tenebroso”, o Oceano Atlântico. Embora já navegado por fenícios e romanos na antiguidade, nessa época da história europeia já não praticava-se navegação por ele e, destas viagens antigas, restaram apenas memorias remanescentes entre o povo, mais tarde transformadas em lendas e mitos, e um ou outro livro de relatos escrito por viajantes como Piteas, geógrafo e navegante grego, que acredita-se tenha chegado até a atual Islândia, ou por navegantes vikings, como relatado em suas sagas, os quais, para grande satisfação da historiagrafia, há algumas décadas foi de fato comprovado que cruzaram o oceano e chegaram não apenas à atual Groenlândia, como também às costas do atual Canadá, sendo bastante possível que tenham mesmo entrado em contato como povos indígenas da região.
Para nós, o mito mais importante sem dúvida é o referente a  um certo  São Brandão, monge irlandês que teria vivido pelos anos c. 484 – c. 577. Tendo navegado, de acordo com a lenda, rumo ao oceano Atlântico, e depois de ter enfrentado toda sorte de seres mitológicos marítimos, teria chegado numa ilha à qual mais tarde ficou conhecida pelo nome de Ilha do Brasil. Foi mais ou menos a partir da descrição de  São Brandão, composta por volta dos século X ou XI,  que o Brasil tornar-se-ia associado no imaginário europeu a um paraíso tropical, e a sua “descoberta” na  verdade foi  apenas a confirmação de algo já imaginado e gestado durante séculos no imaginário europeu, o que nos trouxe consequências extremamente funestas e sentidas ainda hoje.
Mas não precisamos recuar muito no tempo para vermos os mitos em ação no Brasil, muitas vezes moldando nossa visão de mundo e até possuindo um caráter de verdade inquestionável.  Existem vários e vários mitos “modernos” rondando por aí, servindo aos mais diversos propósitos. Um deles , e possivelmente um dos mais importantes na história recente do Brasil, é o mito do sonho de Dom Bosco (São João Bosco), que supostamente teria previsto a construção de Brasília em 1960. Para analisarmos melhor este mito, seu uso e utilidade, é preciso recuarmos ao contexto histórico na qual este mito floresceu.
A construção de Brasília (feminino da palavra “Brasil”, criativo, não?) ao contrário do que se supõe, não é um projeto recente. O primeiro propositor de algo assim foi  Sebastião  José de Carvalho e  Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal, muito embora a primeira referência de fato documentada seja atribuída aos inconfidentes mineiros, que pretendia interiorizar a capital do novo estado em São João Del Rey. Desse momento em diante, sempre houveram sugestões esporádicas sobre a interiorização da capital da antiga colônia e agora país independente, sempre resultando em duas mãos cheias de nada, exceto em 1922, na qual, por insistência de representantes do  Estado de Goiás, o presidente do Brasil à época, Epitácio Pessoa, ordenou a colocação da pedra fundamental da futura capital do Estados Unidos do Brasil, nome oficial do país à época, num lugar chamado Morro do Centenário, distante a 7,5 km da cidade de Planaltina. Entretanto, logo a seguir a ideia mudancista esfriou e foi totalmente abandonada.
Frustrados em sua investida, os políticos goianos, os principais interessados no tema, pois supunham que a transferência da capital federal  iria trazer desenvolvimento e povoamento  ao praticamente desabitado  planalto central,  enveredaram por outros meios…
Depois de um certo tempo, o governador de Goiás,  José Ludovico, incumbiu um sujeito chamado de Segismundo Melo para que compusesse um livro contendo todos os pronunciamentos de personalidades favoráveis à mudança da capital federal  para o interior.  Obtendo uma cópia de algumas profecias de São João Bosco, de um padre chamado Cleto  Calimar, encontrou o seguinte trecho
“Entre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada bastante extensa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Nesse momento disse uma voz repetidamente: – Quando se vierem a escavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.”
Distorcendo intencionalmente o sentido do texto, Segismundo Melo imprimiria seu livro contendo este trecho de Dom Bosco, devidamente acrescentado com a seguinte legenda:
“São João Bosco, que profetizou uma civilização, no interior do Brasil, de impressionar o mundo, à altura do paralelo 15°, onde se localizará a nova Capital Federal”.
E, assim, através de manipulações, distorções  e mentiras, nasceu o poderoso mito do “sonho de Dom Bosco”, atualmente parte do currículo obrigatório de história ensinado nas escolas do Distrito Federal.
Foi, portanto, este mito, uma das muitas armas usadas para justificar um projeto megalomaníaco e extremamente dispendioso, especialmente quando se leva em conta que o Brasil, naquele tempo, não passava de fato de mais uma “república de bananas”, um país afundado na mais absoluta miséria de praticamente toda sua população, quase toda ela filha ou neta de africanos sequestrados em África e, logo após perder sua “utilidade” econômica com o fim da escravidão, foi simplesmente expulsa da casa de seus antigos senhores com uma mão na frente e outra atrás, senhores esses que, como em toda república de bananas, constituindo uma pequena minoria populacional em meio a este mar de miséria, possuía um  nível de vida luxuoso que estava a anos-luz de distância do restante da população.
Mas este mito, se analisado mais profundamente, revela algo mais importante: a simbiose entre o poder religioso e secular. Com efeito, muito frequentemente os mitos surgem em um contexto religioso para justificar a estrutura de poder,  a chamada  “ordem social”. Nesse sentido, o mito de Dom Bosco é realmente um exemplo perfeito disso: o poder político recorrendo ao poder religioso para dar legitimação a seus indisfarçáveis interesses políticos. Investido da “benção” de Deus e de uma legitimação divina, os políticos favoráveis a tal projeto agora podiam lançar mão do Todo-Poderoso para alegarem que a transferência da capital era na verdade o cumprimento de algo que fatalmente teria que acontecer pois que era uma “disposição divina”, e não algo que renderia imensos dividendos tanto políticos, isto é, popularidade e votos, quanto econômicos, como a venda ou a valorização de imensas fazendas para abrigar a futura cidade construída entre o nada e o lugar nenhum. E assim foi feito. Tudo aconteceu como o planejado, com a benção de Deus, o cumprimento da “profecia”. E claro, foi um ponto de virada para o país, por pelo menos dois motivos:
1)                         a construção de Brasília foi o início da colonização do interior do território brasileiro, com suas costumeiras consequências que se fazem sentir ainda hoje: extermínio e morte de populações indígenas e quilombolas, tomada de suas terras, trabalho escravo, grilagem, especulação imobiliária, destruição da natureza, concentração fundiária, formação de latifúndios improdutivos etc;
2)                         A construção de uma cidade inteira, como é óbvio, exigiu somas altíssimas para sua “consumação” (em aspas porque, no dia 21 de abril de 1960, data oficial da inauguração de Brasília, a cidade estava muito longe de ser totalmente terminada, apenas alguns prédios como o palácio do Planalto e o Congresso Nacional estavam concluídos), o que foi o início do crescimento fora de controle da dívida externa brasileira junto aos bancos internacionais, além da inflação galopante das décadas seguintes, que chegaria a surreais 1000% ao mês nos anos 90, já que o governo foi obrigado a pintar papel e colocar em circulação no mercado como moeda para ajudar na empreitada.
Como se vê, os mitos, longe de terem morrido e estarem a descansar em algum recanto obscuro do passado anterior a nossa orgulhosa sociedade “científica” e “racional”, continuam mais vivos que nunca. Provavelmente, não é que os mitos desapareceram, nós é que, tão mergulhados em nossa arrogância e pretensão de dominar a natureza através da ciência e da técnica, não conseguimos enxergá-los, e somos ingenuamente conduzidos por eles como o personagem Dom Quixote, de Cervantes, era conduzido por seus delírios a acreditar que realmente estava sendo um grande personagem quando, na verdade, estava apenas sendo louco. Mas um louco arrogante.
Fontes
O Sonho. Disponível em: http://www.memorialjk.com.br/bsb/pgs/sonhodb.htm.Acessoem: 02/04/2016.
Em Torno do Conceito de Mito Político. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581998000300005.> Acesso em: 02/04/2016.
A Cartografia do Distrito Federal. Disponível em: https://www.ufmg.br/rededemuseus/crch/costa_medeiros_a-cartografia-do-distrito-federal.pdf. Acesso em: 02/04/2014.
Nauigati Sancti Brendani  Abbatis. Disponível em: http://markjberry.blogs.com/StBrendan.pdf>  Acesso em: 02/04/2016.
por Eduardo Viveiros de Sousa
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