O ideal normalizador e as muitas visões sobre a normalidade

“Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?”
(DRUMMOND DE ANDRADE, 1965)

Normalidade é um termo que aparece frequentemente nas produções acadêmicas das Ciências Sociais e Ciências Humanas. O uso do termo, contudo, pode ter variados sentidos  para as mesmas pessoas, não possuindo um sentido único ou demarcando especificidades. Os próprios autores que se ocupam do comportamento humano o empregam com uma determinação agora e com outra depois[1]. Afinal, o que é, por definição, normalidade? O termo “normal” no Dicionário de Filosofia (2003), está conceituado por Abbagnano como “aquilo que está em conformidade com a norma”; “aquilo que está em conformidade com um hábito ou com um costume ou com uma média aproximada ou matemática ou com o equilíbrio físico ou psíquico”.

Existe um motivo especial pelo qual esta definição nos atrapalha: através dela, se torna possível concluir que o normal é a média de uma maioria ou do comum, caracterizando o comportamento ou conduta da maioria das pessoas. É o que se chama definição estatística. No entanto, seremos anormais ao não reproduzirmos os costumes de nossa sociedade? Fatos assim são facilmente demonstrados historicamente: a escravidão, a mudança dos valores morais, a visão sobre a homoafetividade. Em uma mesma cultura, existem variações no decorrer do tempo e, mesmo assim, é possível identificar diferença dos padrões em cada localidade.

Aristóteles[2] afirmava que o homem é um animal político (“Homo zoon politikon”), o homem é naturalmente gregário. Diferentes grupos criam hábitos diversos, dependendo tanto do ambiente quanto do fator histórico ou da sua concepção de rerum natura[3]. Se desprender-se dos hábitos do seu grupo constituísse anormalidade, estaríamos determinando uma espécie de súplica por estagnação. As normas seriam invariáveis, impossíveis de qualquer mobilidade ou modificação. Nosso modo de viver, ao contrário, é um constante reavaliar do que temos feito e do que podemos fazer, de forma que as normas, leis, valores morais e padrões estéticos modificam-se com certa frequência no transcorrer do tempo. Nossa própria concepção de normal é variável.

No cenário pós-moderno, a norma estatística deu espaço à norma ideal. Uma pessoa seria considerada normal conforme está próxima do ideal: quer seja idealmente saudável ou idealmente inteligente, etc. Quanto mais próxima está do padrão idealmente estabelecido, mais perto está também do padrão de normalidade – que também seria idealmente estabelecido. Porém, a norma ideal pode tanto ser estatisticamente rara quanto inexistente na população na qual vai ser aplicada a pesquisa ou exame, além de ditar comportamentos-padrão para o encaixe com o que foi socialmente idealizado.

Um terceiro significado teve importante papel para a psicologia, embora não tenha sido cogitado por Abbagnano. Trata-se da concepção do normal como algo natural. Desta forma, seria normal a relação heteroafetiva e anormal a relação homoafetiva, por exemplo. Apesar de ser demonstrado que em alguns grupos específicos ou comunidades (como na Grécia ou Roma antigas) a homoafetividade pudesse ser estatisticamente mais frequente, as relações heteroafetivas seriam vistas como um vínculo padrão. A norma natural é um tipo de determinismo: baseia-se no identificar do que é natural, sendo o conceito de natural também um caso sujeito à muitas discussões, pois está ligado tanto ao campo estatístico quanto ao campo ideal.

Ao considerarmos normal aquilo que está “equilibrado”, precisamos estabelecer algumas definições. A primeira é: o que é equilíbrio? Se equilíbrio é objetivo e absoluto, então se faz impossível estabelecer um padrão ou entraremos nos campos do determinismo e corremos o risco de criar padrões estáticos. Se equilíbrio é subjetivo, não há como criar medidas. Vejamos dois exemplos clássicos: o primeiro é quando uma norma socialmente construída é capaz de trazer malefícios, mesmo sendo considerada dentro do padrão de normalidade. O segundo é quando um comportamento socialmente tido como anormal não é problemático nem para o indivíduo, nem para a sociedade – exceto por uma posição de “estranheza”. E se, de repente, a lógica do real fosse o avesso-de-si? E se, não mais que de repente, descobríssemos todos ser profundamente anormais em relação às normas até pouco estabelecidas?

Um indivíduo pode apresentar distintos sintomas, como: ter intermináveis monólogos com figuras imaginárias, ouvir vozes que o aterrorizam, oscilar de humor da euforia à angústia ou ter um medo muito intenso de sair de casa. Tais sintomas podem ser agrupados e após identificação, são enquadrados em quadros clínicos de forma a receber um nome. Exemplos: psicose, síndrome do pânico, neurose, etc. Esta é a forma de lidar com a doença mental no cenário contemporâneo. Cabe salientar que não foi sempre assim.

A NORMALIDADE E A HISTÓRIA DAS TEORIAS

O filósofo francês Michel Foucault [4](1926-1984) fez importantes contribuições acerca da história do tratamento da doença mental e de sua própria definição. A pesquisa foi baseada em discursos contidos no corpo de documentos encontrados das mais diversas formas em hospícios, hospitais e prisões. A obra constitui uma “visita/passagem” sobre a construção histórica do conceito de loucura e como as normas foram sendo modificadas com o passar do tempo.

A pesquisa começa no século XVI, durante o Renascimento. Neste período, os chamados “loucos” viviam fora das cidades, de forma isolada. A imagem que se tinha em torno deles era mística, esotérica e desapegada dos conceitos de razão ou saúde. Segundo o próprio Foucault, o doente mental era visto como “tendo um saber esotérico sobre os homens e o mundo, um saber cósmico que revela verdades secretas” (FOUCAULT, 1972.). Ao inverso de ser tida como falha na razão, a loucura era compreendida como um meio ou veículo sobrenatural da verdade. Quando internados – o que era demasiado raro -, o tratamento que recebiam não se diferenciava do recebido pelos demais internos: em geral sangrias, banhos ou ventosas.

“Seria extravagante acreditar que se é extravagante; como experiência do pensamento, a loucura implica a si própria e, portanto, exclui-se do projeto. Com isso, o perigo da loucura desapareceu no próprio exercício da Razão. Esta se vê entrincheirada na plena posse de si mesma, onde só pode encontrar como armadilhas o erro, e como perigos, as ilusões.” (FOUCAULT, 1972.)

Ao findar do século XVII, o Hospital Geral foi fundado em Paris. Nele, eram internadas pessoas com os mais variados sintomas, embora fossem categorizadas em quatro grandes grupos: os feiticeiros, os devassos, os loucos e os libertinos. Foram muitas as internações. Os pobres eram abandonados ali, sem qualquer tipo de assistência real: para o governo monárquico, sua melhora não tinha serventia. O Hospital Geral não tinha ligações imediatas com a medicina, e os doentes mentais sequer eram vistos como doentes – mas como indesejáveis socialmente. O critério era basicamente esse: eram selecionados os que não “serviam” à sociedade, e esse “não servir” se dava pelos mais variados motivos. Para os ricos, o médico atendia a domicílio (aquele mesmo médico que atende a família nas mais variadas situações). Se era necessário internação, seria efetivada em um leito do lar.

“Em Paris como em Amiens, ela participa das más tropas e dessas doze dualidades que dividem entre si a soberania da alma humana: Fé e Idolatria, Esperança e Desespero, Caridade e Avareza, Castidade e Luxúria, Prudência e Loucura, Paciência e Cólera, Suavidade e Dureza, Concórdia e Discórdia, Obediência e Rebelião, Perseverança e Inconstância. Na Renascença, a Loucura abandona esse lugar modesto, passando a ocupar o primeiro posto. Enquanto que em Hugues de Saint-Victor a árvore genealógica dos Vícios, a do Velho Adão, tinha por raiz o orgulho, a Loucura, agora, conduz o coro alegre de todas as fraquezas humanas.” (FOUCAULT, 1972.)

A medicina da época baseava-se no modo classificatório da história natural e, portanto, não poderia abarcar a complexidade de sintomas do que se chama loucura. As ciências médicas tentavam, mas não conseguiam construir teorias plausíveis e suficientemente metódicas e a diferenciação no tratamento para as classes sociais altas e baixas era nítido.

Durante o século XVIII, a filosofia auxiliou a situar a loucura como algo interno do homem. Segundo Foucault, este período já poderia ser caracterizado como Modernidade. É nesta época que foi criada a primeira instituição destinada unicamente à internação dos loucos: o asilo. Interná-los em prisões lhes parecia injusto (às autoridades da época) com os demais presos. No asilo, os métodos terapêuticos eram sobretudo a religião e a culpa, mas o médico já se tornara a “suprema ordem”. É nesse contexto que inicia-se a medicação e também o isolamento, e assim foi preparado o terreno para o surgimento da Psiquiatria.

“No decorrer do século XVIII, a significação econômica que Colbert desejara dar ao Hospital Geral não deixou de se esfumar; esse centro de trabalho obrigatório tornou-se o lugar privilegiado da ociosidade. “Qual a fonte das desordens de Bicêtre?”, perguntaram-se os homens da Revolução. E eles responderão aquilo que já tinha sido respondido no século XVII: “A ociosidade. O modo de remediar a situação? O trabalho.”” (FOUCAULT, 1972.)

Ou ainda:

“Um recenseamento de 1690 enumera mais de 3.000 pessoas na Salpêtrière, grande parte constituída por indigentes, vagabundos e mendigos. Mas nos “quartéis” há elementos diversos cujo internamento não se explica, ou não se explica apenas pela pobreza: em Saint-Théodore há 41 prisioneiras por cartas régias; 8 “pessoas ordinárias” na casa de detenção; 20 “mulheres caducas” em Saint-Paul; Madeleine contém 91 “velhas senis ou enfermas”; o de Sainte- Geneviève, 80 “velhas infantis”; o de Saint-Levège, 72 pessoas epiléticas; Saint-Hilaire, 80 mulheres senis; Sainte-Catherine, 69 “inocentes malformados e disformes”; as loucas estão divididas entre Sainte-Elizabeth, Sainte-Jeanne e nos calabouços, conforme tenham apenas “o espírito fraco” ou uma loucura que se manifeste a intervalos, ou sejam loucas violentas. Enfim, 22 “moças incorrigíveis” foram postas, por essa mesma razão, na Correção.” (FOUCAULT, 1972.)

A nova medicina surge no século XIX, com uma bipolaridade no que tange aos conceitos de normalidade e patologia. O hospital era o local para onde iam aqueles que não possuíam família ou verba para um tratamento domiciliar, ou mesmo aqueles cujas doenças eram desconhecidas ou de possível contágio. Anteriormente, o tratamento concentrava-se na saúde do paciente e a visão de saúde mental era intimamente ligada ao que a religião ou o Estado definiam como normal ou moral. A loucura era, então, uma “transgressão da moralidade”. Posteriormente, os médicos efetuavam o tratamento baseando-se nos conceitos de normal e patológico. Assim, novamente o médico adquire o status de detentor dos padrões de saúde e observador da moralidade.

“É um curioso paradoxo ver a prática médica entrar nesse domínio incerto de quase-milagre no momento em que o conhecimento da doença mental tenta assumir um sentido de positividade. De um lado a loucura se coloca à distância, num campo objetivo em que desaparecem as ameaças do desatino; mas nesse mesmo instante o louco tende a formar com o médico, numa unidade sem divisões, uma espécie de par, onde a cumplicidade se faz através de velhas dependências.” (FOUCAULT, 1972.)

 O objetivo central de Foucault (1978) era relacionar o que diziam o senso comum e a percepção científica sobre a loucura. Contudo, notou que essa distinção se baseava na tênue linha separativa entre a normalidade e a anormalidade. O interesse de Foucault passa a ser, então, conhecer as verdades (modificáveis) sobre a loucura, como os homens conceberam essas verdades. Celso Kraemer [5](2009), também filósofo, afirma que Foucault queria demonstrar historicamente o modo como os homens se relacionavam não com a loucura propriamente dita, mas com o modo de representar a loucura para si mesmos. É um trabalho sobre a relação do homem com a sua própria concepção de loucura. Também é Kraemer que afirma que “talvez a loucura seja um tipo especial de normalidade” (KRAEMER, 2009.).

Atualmente, distingue-se (ou procura-se distinguir) a loucura enquanto senso comum e categoria sócio-antropológica, da doença mental enquanto categoria psicológico-psiquiátrica. A medicalização possui um modelo biomédico e o costume é que se faça um atendimento individualizado, independentemente do contexto social do paciente. As internações são questionadas e existem movimentos fortes de luta antimanicomial[6], que deseja profundas reformas nos serviços psiquiátricos. Como termo, ainda é utilizado de forma generalizada e pouco precisa. Enquanto movimento, a luta está ligada à origem da Reforma Sanitária Brasileira da qual resultou a criação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Georges Canguilhem [7](1978), filósofo e médico francês, escreveu sua tese de doutorado sobre o tema da normalidade, com um título um pouco inesperado para a tradição positivista da época (1943): “Ensaio sobre alguns problemas relativos ao normal e o patológico”. Um dos pomos da obra é dedicado à discussão do que a medicina compreende por normal e por patológico, e como estabelece esses conceitos. Rompe com as idéias positivistas de Comte, onde a relação entre normal e patológico se dá através da semântica do hipo/hiper e é, portanto, de variação quantitativa.  Canguilhem desenvolve, então, a defesa da variação de ordem qualitativa – vai contra o conceito de média utilizado para estabelecer padrões de normalidade médica.

A relação do ser com o meio é defendida como essencial. Diz: “Um ser vivo é normal num determinado meio na medida em que ele é a solução morfológica e funcional encontrada pela vida para responder às exigências do meio” (CANGUILHEM, 1943: 53). É dessa relação do ser-que-vive com o meio que a necessidade do conceito de normalidade na consciência humana é explicada pelo autor. A patologia seria, então, relacionada à vida e não à saúde – por poder ser uma variação normativa da própria vida. Contudo vale lembrar que na medicina, a influência para os padrões de normalidade vem também da fisiologia, “ciência das situações e condições biológicas consideradas normais” (Ibid: 94).

“Quando Ey, aprovando os pontos de vista de Minkowski, declara: ‘O normal não é uma média correlativa a um conceito social, não é um julgamento de realidade, é um julgamento de valor, é uma noção-limite que define o máximo de capacidade de um ser. Não há limite superior da normalidade’, basta, na nossa opinião, substituir psíquica por física para obter uma definição bastante correta desse conceito de normal que a fisiologia e a medicina das doenças orgânicas utilizam todo dia sem se preocupar suficientemente em indicar seu sentido.” (CANGUILEM, 1984).

A doença mental é igual a doença cerebral (distúrbio orgânico) para a psiquiatria clássica. Existem mapas cerebrais que efetuam a localização das funções (afetivas, sensoriais, etc.) em cada área cerebral. Nesta abordagem, os distúrbios são encaixados em quadros patológicos (quais distúrbios cada quadro pode apresentar), sendo tratados com medicamentos específicos para sua especificidade orgânica. Em casos de muita gravidade – e aí entra o “como” denominamos a gravidade de um caso de patologia -, o paciente pode receber internação para melhor e maior administração da medicação.

No caso da psicanálise, o que distingue o normal do anormal não é a natureza, mas o grau. Ou seja: em ambas as caracterizações (normal e anormal) os indivíduos possuem uma mesma estrutura de personalidade, sendo “ativadas” de maior ou menor modo. Essas estruturas – chamadas estruturas neuróticas ou psicóticas – conforme sua ativação, seriam responsáveis pelos distúrbios no indivíduo. Freud foi quem tomou a terminologia da Psicologia Clássica e definiu esses quadros clínicos.

Para questionar os conceitos de normalidade nas formas de tratamento do não-normal (patológico), surgem linhas críticas. Um delas é a antipsiquiatria[8], que nega radicalmente a psiquiatria clássica e afirma que a doença mental é uma construção social.  Ou seja: a doença mental não existe por si só, é uma idéia para dar conta da diferenciação. A psiquiatria social [9]é outra teoria crítica – menos radical que a antipsiquiatria – e denuncia a retirada da dignidade dos ditos “loucos” através do método de tratamento e reclusão a que são encaminhados. Contudo, não nega que a doença exista. Ambas, portanto, pretendem entender o conceito do que é a anormalidade.

EZO NON ECZISTE

Saúde e normalidade, seja como conceituação técnica ou enquanto senso comum (sócio-antropológico) são temas que geram variadas controvérsias. Essa conceituação determina, por exemplo, o destino social ou institucional de um indivíduo dentro de uma sociedade (afinal, existe um “fora da sociedade” que não seja puramente histórico?), sem consenso para sua definição. Acontece que a mesma sociedade que criou o normal criou também o anormal: as duas variantes coexistem, o mesmo ser-que-vive pode ser considerado anormal aqui e, se retirado desta comunidade e colocado em outra, recebe a nomenclatura de “indivíduo normal”.

Possivelmente, o mesmo ocorreria se dispuséssemos de um meio seguro de voltar no tempo e inserir indivíduos contemporâneos em séculos anteriores. A história da loucura, tão pesquisada por Foucault, apresenta a relação de diferentes épocas com os considerados loucos. Os padrões nunca foram definitivos e apresentaram falhas que levaram pessoas hoje consideradas mentalmente sãs à sanatórios, hospitais ou prisões. Não existe garantia que os conceitos contemporâneos não estejam cometendo os mesmos erros e generalizações através de seus métodos. Afinal, onde o a normalidade se insere na dinâmica do real?

Monica Aiub[10] cita que para a filosofia clínica a pergunta “eu sou normal?” não tem sentido. Segue um trecho de seu parecer:

“O ‘anormal’ de uma sociedade pode ser apenas alguém distanciado de sua cultura de origem, ou uma voz dissidente do poder instituído. O que em outras épocas era considerado loucura, hoje pode ser padrão de normalidade. O que era considerado um absurdo nos padrões da ‘norma’, poderia ser uma grande descoberta, algo capaz de revolucionar a sociedade.” (AIUB, 2011.)

Celso Kraemer também aborda uma questão-chave sobre a norma: “Dessa forma, para sustentar o referente da normalidade, nós precisamos fabricar a anormalidade, os intoleráveis em cada momento histórico, para servir de mecanismo regulador para nossos exercícios de poder” (KRAEMER, 2009.). Essa fabricação da anormalidade se deve ao fato de não termos um referente neutro sobre o qual possamos avaliar normalidade e anormalidade. Ou seja: ponderamos um e outro à partir do confronto deles próprios. Normal e anormal ainda figuram no campo do ideal dentro da norma, criando um ideal normalizador.

É nesse sentido que existe o iminente perigo de patologização da normalidade, onde a norma não visa apenas regrar, mas também punir. Afinal, antes de criar enquadramentos para a loucura, precisamos questionar profundamente o que é a lucidez e o que é a razão. A loucura exclui a lucidez? Os ditos loucos têm sua razão suspensa? Os não-loucos são lúcidos? A razão possui limites? É possível deixar de ser lúcido? É impossível ser lúcido e louco ao mesmo tempo? Se levarmos a lucidez como padrão estatístico, então o que é mais numerosamente aparente é o correto?

Um exemplo hipotético, apenas a cargo de ilustração: suponhamos que uma pessoa que vivia absolutamente isolada do que nomeamos “civilização” chega até nós sem nunca antes ter visto uma cadeira. Alguém lhe diz o que é uma cadeira e para que serve. A pessoa imagina esta cadeira de uma maneira mirabolante, repleta de parafernálias inúteis. O mesmo acontece quando outros objetos lhe são apresentados. Esta pessoa deveria ser considerada anormal? Está, na verdade, distanciada de sua cultura de origem e, por isso, não consegue estabelecer padrões de figura-função para os objetos específicos. Não se consegue estabelecer tais padrões para o desconhecido, até que se conheça.

Freud [11](1856-1939) possui um parecer sobre eventos como esse: para ele, o pathos só pode ser avaliado com precisão se os elementos do imaginário social da cultura no qual ele emerge forem levados em conta. Muitos aspectos são responsáveis pelas reorganizações psíquicas. Declara também: “(…) não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão”(FREUD, 1930.).

Ceccarelli[12] igualmente destaca algo neste sentido:

“Uma das astúcias do Eu em constituição para lidar com o desamparo psíquico é lançar mão do imaginário social para dar representações às pulsões. (…) O trabalho de cultura nada mais faz do que criar estratégias (aparentemente novas) de recalque e repressão que mascaram o mal-estar (Unbehagen) inerente à cultura.” (CECCARELLI, 2011.)

 Em “The disordered mind: philosophy of mind and mental illness”, George Graham [13] argumenta que define-se insano aquele cuja mente possui a racionalidade afetada de modo profundo. Seria a incoerência com o real, mas o que é o real? Segundo a terminologia filosófica, o real existe em si independendo do modo como o representamos. O real – bem como a verdade – possuem uma característica chamada neutralidade valorativa: quando os fatos existem independentemente do que você concebe por real ou ilusão. Tendo em vista que tudo que existe está dentro da trama do real e nada do que possamos conceber ou conhecer se dispõe fora disso, precisaríamos diferenciar o que está é real e o que está dentro do real.

O louco, por não ter suas ações aceitas no real, não deveria ser considerado como alguém fora do real. Vive no real e tem aspirações humanas como você e eu. A patologização da anormalidade, causada pelo ideal normalizador socialmente construído transforma a norma para induzir ao erro através da padronização dos seres individuais. Não existe norma neutra que sirva de comparativo. Não existe um indivíduo que seja capaz de passar pelos padrões de normalidade nas mais diferentes culturas do globo terrestre, sem modificar seu modus vivendi. Sobretudo, ser anormal pode não excluir a possibilidade de ser normal. São amplos os sentidos e amplos os significados.


[1] A exemplo H. J. Eysenck, professor da Universidade de Londres, que escreveu um livro onde um capítulo é inteiramente dedicado à discussão da normalidade, sexo e classe social. Contudo, fora deste capítulo o termo é utilizado de diversas maneiras.

[2] Filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. É visto como um dos fundadores da filosofiaocidental.

[3] Do latim “a natureza das coisas”.

[4] Filósofo e graduado em Psicologia. Trabalhou também na ala psiquiátrica de internados no hospital, como voluntário, antes de escrever sua obra “História da loucura”.

[5] Professor da Universidade Regional de Blumenau,  no departamento de Filosofia. Doutor em Filosofia pela PUC-SP com a tese “A liberdade em Michel Foucault”.

[6] A Reforma Psiquiátrica não uma interação pontual, mas a interação cotidiana entre a loucura e a sociedade. O desejo é de uma sociedade sem manicômios, acusadas de agravar os problemas.

[7] Filósofo e médico francês. Especialista em epistemologia e história da ciência.

[8] A antipsiquiatria aplica-se a uma coleção de movimentos (e não a um movimento único) de críticas à psiquiatria tradicional/clássica.

[9] Ao contrário da antipsiquiatria, defendem o elo entre a medicina e a história, mantendo o conceito de loucura enquanto doença mental.

[10] Filósofa clínica.

[11] Médico neurologista, fundador da psicanálise.

[12] Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais e da Societé de Psychanalyse Freudienne.

[13] Filósofo da mente americano.

Referências que talvez você curta:

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 4ª Ed., 1995.

FOUCAULT, Michel. A história da loucura na idade clássica. São Paulo: Ed. Perspectiva. 1997.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 6ª Ed., 2004.

FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Ed. Imago. 2ª Ed., 1995.

GRAHAM, G. The Disordered Mind: An Introduction to Philosophy of Mind and Mental Illness. Internacional n/a: Ed. Routledge, 2009.

MORATO, E. M. “As afasias entre o normal e o patológico: da questão (neuro)linguística na questão social” in O direito à fala: a questão do preconceito linguístico. Florianópolis: Ed. Insular, 2ª Ed., 2002.

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Lisiane Pohlmann

Uma forma de vida bípede baseada em carbono. Graduada em Filosofia, Administração e Serviço Social, especialista em Violência e Direitos Humanos, é pós-graduanda em Intervenção em Violência Intrafamiliar e trabalha com divulgação científica. Reside no Rio Grande do Sul.

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