O falibilismo e uma (re)consideração sobre a relação entre ciência, tecnologia e seus progressos

Resumo

O presente artigo tem por objetivo uma breve análise da relação entre ciência e tecnologia quanto à preocupação com o progresso científico. Pressupondo-se que, de acordo com a metaciência popperiana, a ciência caracteriza-se pela sua constante suscetibilidade à revisão crítica, vemos que, de acordo com a exposição de Hermann Bondi (1976)(imagem destaque), a fé de realizarmos testes cada vez mais severos de nossas novas teorias tem por base outra fé, a no progresso da tecnologia. Portanto, diferentemente da visão muito difundida de que a ciência é a condutora do progresso da tecnologia, analisaremos o ponto de vista de que o progresso de uma deve-se ao progresso da outra e vice-versa. Concluiremos ressaltando que a ênfase popperiana na aplicação de regras metodológicas tem por objetivo a integridade do caráter revisionista de sua teoria do método, solapando as visões de que o trabalho científico seja uma forma de produção em círculo ou mero instrumento de adaptação.

Introdução

A teoria popperiana do método científico nasceu a partir das dificuldades oferecidas pelo emprego da lógica indutiva e as malfadadas tentativas dos indutivistas de tentarem fornecer uma justificação para ela apelando às noções como a probabilidade e a confiabilidade. A convicção popperiana é de que a falseabilidade como um critério de demarcação entre ciência e não-ciência tenha sido uma solução para todos esses reveses; surgidos a partir da aparente contradição entre a tese fundamental do empirismo, a de que apenas a experiência pode decidir, de forma conclusiva, quanto à verificabilidade  dos enunciados científicos e a impossibilidade de justificação lógica das inferências indutivas, apontada por Hume (VIEIRA, 2017). Popper, dessa forma, reverberou que os enunciados da ciência são decidíveis em único sentido: a partir de tentativas frequentes e sistemáticas de falseá-los.

Dessa forma, sinteticamente, no conceito de Popper, cabe ao cientista propor uma teoria que deverá abranger o que, à sua época, é conhecido, mas que, além e acima disso, viabilize previsões sobre o que futuras predições ou experimentos virão a mostrar (BONDI, 1976). Procedendo-se assim, caso o pesquisador alcance resultados em concordância com as afirmações da teoria, nunca devemos asseverar que ela foi demonstrada. Essa teoria só resistiu com sucesso a um teste e compete a ela prosseguir, predizendo novas consequências ou novos enunciados que consequentemente serão submetidos a testes empíricos. No entanto, caso aquele primeiro ensaio venha a contradizer a teoria, ela, então, encontra-se refutada e cabe à comunidade científica elaborar uma nova teoria; o que pode demandar bastante esforço.

Formular uma teoria acarreta, sempre, um salto imaginativo. A primazia da refutação na teoria do método popperiana é uma parte essencial desse esquema e origina-se da estrutura lógica das teorias. Uma teoria científica é um enunciado universal afirmando que todas as coisas de determinada espécie se comportam de uma maneira específica.  As teorias desempenham, portanto, um papel proscritivo ao indicar que certos fenômenos ocorrem de uma maneira e não de outra. Um único caso particular que contradiga a sua proscrição, portanto, haverá de refutá-la.

A partir de tal contexto, não existe algum processo mecânico para passar de um conjunto de observações ou experimentos a uma teoria universal. Uma teoria será científica se e somente se admitir refutação empírica. Temos aqui a igualdade entre refutabilidade e testabilidade, marca central do falibilismo popperiano (VIEIRA, 2017). Nele, busca-se a descrição melhor, isto é, a que abranja o mais amplo campo de fenômenos, e com maior precisão. Logo, a natureza do progresso científico, segundo Bondi, encontra-se antes em abalos do que em ganhos de conhecimento. A partir dos sistemas teóricos que ruem e abrem a oportunidade para sistemas novos e mais abrangentes, mas nunca sólidos ou permanentes. Nessa situação, o arcabouço metodológico da comunidade científica, ou tecnologia, nada mais é que um acompanhante desse processo evolutivo. Desenvolveremos a seguir tal aspecto.

Ciência e tecnologia: concomitância no progresso

O fato de a refutação desempenhar um papel relevante no processo descrito acima inviabiliza qualquer descrição fácil e direta do progresso da ciência. Para exemplificar essa afirmação, Bondi toma a teoria da gravitação newtoniana. Quando essa teoria foi proposta, de acordo com o autor, foram realizados variados testes. O amplo uso dela pelos astrônomos serviu para predizer a posição de satélites e planetas e para calcular eventos históricos, como a ocorrência dos eclipses. Sendo assim, essa teoria resistiu, ao longo do tempo, a brilhantes testes e trouxe uma sensação de firmeza para a comunidade científica, à época, uma vez que, em meio a tantos fenômenos difíceis de explicar, ao menos ela mostrava-se clara e sólida.

A situação começou a mudar quando Newcombe, antes do início do século passado, descobriu uma discrepância entre as predições da teoria newtoniana e o movimento do planeta Mercúrio. Para Bondi, em larga margem, a comunidade científica estava diante de uma refutação da então teoria da gravitação vigente. Embora a teoria de Einstein tenha provido de motivação diversa, ou seja, tenha sido fruto de uma alteração do clima intelectual da época, Newcombe fez aquilo que poderia ser menos “provável”.

Tal refutação teve um efeito impressionante. O fato de a teoria newtoniana tombar, vítima da crescente precisão da observação e do cálculo, trouxe à comunidade científica a sensação de que nunca mais haveria segurança. Tal situação, porém, de acordo com Bondi, “[…] é a substância de que é feito o progresso” (BONDI, 1976, p.19). Sendo assim, não podemos falar do progresso em um sentido particular, isto é, de acordo com a concepção de que ele se torna mais e mais aprimorado e abrangente. Como mostramos, podem ser realizadas descobertas que reduzem de forma clara o conhecimento possuído; e essas descobertas funcionam como estímulos criadores na ciência. Ao reduzirem o que encarávamos como conhecimento bem fundamentado, elas representam as verdadeiras raízes do progresso científico e, por consequência, conduzem a avanços na compreensão da natureza.

Com esse relato, é importante ressaltar que caso uma teoria tenha ultrapassado numerosos testes e depois tenha sofrido uma refutação, conforme ocorreu com a de Newton, não é procedente alegarmos que todas as previsões anteriores dela estavam erradas. Embora a teoria não seja mais sustentável, ela continua a descrever um significativo corpo de experiência, assevera Bondi. Nesse contexto, embora exista uma nova e aperfeiçoada teoria da gravitação, a de Einstein, sempre que não são realizados cálculos de extrema precisão sobre o movimento dos satélites e dos planetas, cabe à comunidade científica recorrer à teoria newtoniana por causa de sua maior simplicidade. Segue-se que a diferença está situada na atitude tomada diante da teoria que, pela sua estrutura lógica, é uma afirmativa universal que abrange uma gama restrita de fenômenos dentro de uma limitada medida de precisão e acuidade.

No processo de conjecturas e refutações, portanto, o que sofre abalo é a interpretação da teoria como algo que seja a Verdade (com V maiúsculo); algo que, ao ver de Bondi, não possui relação com a ciência. Sendo assim, a natureza do progresso científico está mais em abalos do que em ganhos de conhecimento. Embora seja errado não considerar o ganho de conhecimento como um avanço. Ele também é fundamental, mas não é a linha direta para o progresso científico.

Tendo tal situação em vista, a fé que depositamos na possibilidade de, amanhã, realizarmos testes mais aprofundados do que hoje, de acordo com a descrição de Popper, assenta-se na nossa fé no progresso da tecnologia. A tecnologia fornece ao experimentador e ao observador os meios ou recursos utilizados por eles. Ela, ao progredir, nos permite medir novas coisas ou medir velhas coisas com maior precisão, segundo Bondi. Portanto, a base do progresso tecnológico é o progresso científico, sendo errônea a ideia de que a ciência está a conduzir o primeiro. A relação entre eles é semelhante à entre a galinha e o ovo, portanto. O progresso de um deve-se ao progresso de outro. Porém, há critérios na própria ciência que nos levam a ver certas coisas como progresso, ou seja, a possibilidade de realizar experimentos que sejam mais e mais penetrantes.

A comunidade científica, por sua vez, está sempre a se apoiar nessa relação entre teoria e experimento. Nesse cenário, uma e outro encontram-se inteiramente ligados; e uma vez que cada experimento está ligado a uma teoria passível de ser contraditada, Bondi usa tal fato para justificar a sua afirmação de que o ideário de obter a Verdade não faz parte da ciência. Sobre a base tecnológica da ciência, o autor ainda comenta:

[…] digamos tratar-se de um aperfeiçoamento que estamos continuamente testemunhando. Sempre julgo intrigante imaginar que a comumente chamada revolução da física, nas duas últimas décadas do século passado (com a descoberta dos electrons, dos raios-x e assim por diante), deve, até o ponto em que posso julgar, sua particular colocação no tempo histórico, não somente à circunstância de que bombas de vácuo, razoavelmente eficazes, surgiram então, pela primeira vez, mas também à circunstância (que entendo igualmente importante) de que se dispôs da plasticina para garantir a boa vedação das bombas. A base tecnológica do progresso científico torna-se dessa maneira muito clara. (BONDI, 1976, pp.22-23).

Conclusão: a importância da ênfase na aplicação de regras metodológicas para a manutenção do caráter revisionista da epistemologia popperiana

Acabamos de ver que o pressuposto falibilista da epistemologia popperiana, que vê a ciência como um empreendimento que, na busca da compreensão do mundo, preza pela elaboração de teorias capazes de serem submetidas a testes leva à concepção de que o conhecimento progride mais por abalos do que por ganhos. Assim, como vimos no caso da teoria newtoniana, exposto por Hermann Bondi, a história da ciência nos mostra que a ruína daquilo que antes era tomado como conhecimento assentado levou a ciência ao seu avançado e atual status. 

Nesse contexto, e em contraste com a concepção usual, a tecnologia é uma acompanhante do progresso científico. Com isso, a base do progresso tecnológico é o progresso científico e, assim, tecnologia e ciência desenvolvem-se mutuamente em uma relação similar à entre a galinha e o ovo. Sendo o progresso avistado quando a comunidade científica tem a oportunidade de realizar experimentos mais e mais penetrantes de suas teorias.

Popper ressaltou que a ciência tem um valor que excede a sua mera sobrevivência biológica (POPPER, 1975). Ela não se caracteriza apenas pela sua utilidade e embora não possa atingir nem a verdade perfeita e nem a probabilidade, o ímpeto da comunidade científica ainda são a obtenção do conhecimento e a procura da verdade. Nas palavras do filósofo austríaco, a consequência dessa situação é que:

Não sabemos: somente podemos conjeturar. E a fé científica, metafísica (embora explicável biologicamente), nas leis, nas regularidades que podemos descobrir – descobrir – guiam nossas conjeturas. Como Bacon, poderíamos descrever nossa própria ciência contemporânea – ‘o método de raciocínio que os homens aplicam agora à natureza’ – como consistindo em antecipações precipitadas e prematuras’ e em ‘preconceitos’. (POPPER, 1975, p.382, grifos do autor).

Nesse contexto, os testes sistemáticos, ou o recurso à tecnologia, funcionam como um recurso de austero controle dessas nossas conjeturas ou antecipações maravilhosamente imaginativas e audazes, ressalta o filósofo. O método científico de pesquisa não consiste em defender e imunizar as teorias propostas. Ao contrário, tenta-se destruí-las. Para isso, a comunidade científica emprega todo o seu arsenal lógico, matemático e técnico a fim de obter novas “antecipações precipitadas” que serão submetidas a novos testes. Assim, a aplicação de regras metodológicas para esse percurso se faz indispensável. Porém, vejamos alguns limites que a envolvem.

Pela sua forma, esse destaque que Popper deu às transformações do conhecimento científico confronta-se com o ideal epistemológico de que a ciência tem por meta a construção de sistemas dedutivos axiomatizados (VIEIRA, 2017). De acordo com o o filósofo, um brilhante desdobramento dedutivo não é garanta de racionalidade para um sistema teórico.

Logo, a ênfase popperiana na necessidade de regras metodológicas no trabalho do pesquisador relaciona-se fortemente com o seu falibilismo. Assim, essas regras metodológicas devem assegurar a falseabilidade dos enunciados da ciência. A preocupação popperiana nesse contexto é que uma análise estritamente lógica ou formal desses enunciados não seja capaz de solapar a prática da elevação de uma teoria científica a uma verdade inquestionável ou irrefutável. Situação que inviabiliza que aprendamos, com a nossa experiência, o quanto podemos errar. Posicionamento que também impede a adoção de uma postura convencionalista, além de evitar a má-interpretação de que o trabalho científico seja mero instrumento de adaptação ou um método de produção em círculo. Não importa até onde os tempos atuais possam nos levar, nas palavras de Popper, a história das ideias científicas nos mostrou que:

Com o ídolo da certeza (incluindo os graus de certeza imperfeita ou probabilidade) cai um dos baluartes do obscurantismo que barra o caminho do avanço científico, reprimindo a audácia de nossas questões e pondo em perigo o rigor e a integridade de nossos testes. A concepção errada da ciência trai-se em sua pretensão de ser correta; pois, o que faz o homem de ciência não é sua posse do conhecimento, da verdade irrefutável, mas sua indagação persistente e temerariamente crítica da verdade. (POPPER, 1975, pp. 383-84, grifos do autor).Sa

Referências

BONDI, Hermann. Que é progresso em ciência? In: Problemas da revolução científica: incentivos e obstáculos ao progresso das ciências. Organização de Rom Harré. Tradução de Leônidas Hegenberg e Octanny S. da Mota. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.

POPPER, K.R. A lógica da investigação científica. In: Popper, Schlick e Carnap. Tradução e seleção de Pablo Rubén Mariconda. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

VIEIRA, Daniel Mota. Popper, verdade e progresso científico: possibilidades e limites na elaboração de uma epistemologia objetiva [recurso eletrônico]. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.

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Daniel Mota

Licenciado em filosofia pela UFRRJ. Pesquisador em filosofia da ciência, com ênfase em Karl Popper. Defendeu a sua monografia sobre a importância da noção de verdade objetiva para a filosofia da ciência popperiana, intitulada 'Popper, verdade e progresso científico: possibilidades e limites na elaboração de uma epistemologia objetiva'. Interesses em física, principalmente na física moderna, e na história da Ciência.

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