O cinismo político

por Giovanni Novelli¹

A palavra “cinismo” tem uma origem extremamente peculiar na etimologia. Ela vem do Grego KYNIKÓS, que se aplicava aos seguidores da filosofia de Antístenes, literalmente, “o que lembra um cão”, de KYON, “cão”. Na cultura grega, acreditava-se que o ser mais desinibido e sem vergonha era esse querido animal.

Entretanto, o que me deixa em dúvida é quando alguém chama um parlamentar de cachorro. Será que o político está sendo ofendido ou seria o contrário? Imagino que os veterinários de plantão possam responder essa indagação facilmente.

Esse cinismo perpassa de maneira tão instaurada na nossa querida capital federal que os nossos estadistas esqueceram o significado da palavra “igualdade”. Afirmo isso por conta das inúmeras mordomias que cada um deles usufrui dia após dia. Seja com motorista particular, isenção de impostos, auxílio-terno, auxílio-moradia, etc. Detalhe: tudo as nossas custas.

Todas essas situações me relembram algo que a querida Hannah Arendt explicita ao dizer (no texto Entre o passado e o futuro, p. 158 – Editora Perspectiva) que “a distinção entre governantes e governados pertence a uma esfera que precede o domínio político, e o que distingue este da esfera econômica do lar é o fato de a cidade basear-se no princípio de igualdade, não conhecendo diferenciação entre governantes de governados”.

Certamente percebemos que os conceitos estabelecidos pela filósofa não estão sendo condizentes com a realidade brasileira. Todavia as questões éticas não podem deixar de ser pauta nas instituições de ensino pela lembrança e para que algo desse tipo não se repita (incluo no hall de países exemplares a própria Finlândia, na qual possui-se essas discussões éticas e políticas desde o início da formação intelectiva do indivíduo). Sendo assim, conclui-se que a conscientização das próximas gerações é o primeiro passo para a mudança (novamente trazendo a tona a receita de bolo: educação).

Ao ligarmos a querida televisão, somos lembrados constantemente do cinismo político. Dia após dia recebemos inúmeras notícias a respeito de irregularidades na gestão pública vigente ou passada por causa de desvios do dinheiro público. O termo “corrupção” está presente em todo o noticiário que se refere aos homens públicos. Imagino que todos nós gostaríamos que se tratasse apenas de uma temporada no “House of Cards” ou que tudo isso fosse apenas (como Freud dizia) um mero ato falho que com meras sessões de terapia se resolve.

Trago duas novas notícias para você: infelizmente isso não é nenhuma das duas opções acima! E outra, tenha sempre em mente que a corrupção não acontece somente no congresso nacional! Você que fecha alguém no trânsito de propósito, fura o sinal, recebe um troco maior do que o necessário e fica quieto, pega uma caneta do chão e não devolve para o respectivo dono, o(a) senhor(a) também é corrupto(a)! Esse “Kraken” (vulgo corrupção) está presente nos menores detalhes!

Por mais recompensador que seja (ao menos no Brasil) a cultura do  “jeitinho”, não estaria na hora de mudarmos isso? Certamente parece interessante ter uma metamorfose cultural, não acha?

Dessa vez terei que discordar do nosso cantor Cazuza quando afirma (na música Ideologia) que “Meus inimigos estão no poder”. Eu não diria apenas que eles estão nesse patamar. Eu  afirmaria que estão (também) dentro de cada um de nós.

¹Giovanni Novelli é acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná.

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Giovanni Novelli

Acadêmico de Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Preocupado com as questões éticas, políticas, econômicas e sociais da atualidade.

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