O Anúncio

Vivemos em uma época confusa, onde o tempo escorre de nossas mãos. Um tempo líquido que flui do nada para o nada, tornando-se permanente, onde tudo é fugaz. Onde sentimentos se solidificam em necessidades supérfluas. Temos compulsões, precisamos nos expor ao máximo para preencher a falta de humanismo. São tempos de secretas angústias onde o amor é mais falado do que vivido, vazio, com absoluta exposição e busca constante dos contatos de pele, de amor selvagem passageiro, em misturar saliva como se degusta uma nova bebida. Relacionamentos superficiais, onde precisamos curtir, fotografar, filmar, comentar, vender, vender… Comprar, comprar, comprar…

Estamos em uma busca desenfreada para preencher os vazios de sentimentos que fogem através das convulsões consumistas. Queremos ser o que não somos e que pensamos ser. Será que a inteligência que nos foi dada conspira contra nós?  Realmente nós, humanos, temos a capacidade de controlar e administrar algo tão complexo?  Vejo no dia a dia um total despreparo no uso da inteligência de certos indivíduos por não saber fazer uso correto dela. Sabemos que ela pode ser usada para fazer crescer e desenvolver, mas em contrapartida, se usada de forma incorreta, pode se espalhar como um câncer, destruindo a sua vida e de quem o cerca.  Temos livre arbítrio? Sim, temos e eles sabem disso? Talvez, não! Consumimos tudo, além do corpo e da alma, nos entregamos à onda da ilusão, na qual navegamos sem saber o destino.

Li um anúncio num jornal, sem importância, talvez ninguém o leia, muitos que o leram pensaram: o que é isso? Para que serve? Logo, o jornal estará servindo de embrulho para algum objeto, desmanchando na chuva ou num depósito de lixo onde o anúncio se perderá.

Qual a história por trás do anúncio? Qual foi o desfecho? Uma tragédia, uma traição, uma desilusão causada pelo vazio humano que nos consome ou somente lucro?

Pensamentos me levam a refletir, quanta tragédia e felicidade se escondem em coisas simples como no anúncio que, na verdade, é só mais um, como milhares, mas alguém teve a necessidade de chamar atenção de alguma forma.

O ANÚNCIO, é o texto de hoje, extremamente vazio de palavras, mas nos indica um acontecimento, uma história que nos leva a imaginar, viajar, quando então nos deparamos com um imenso conteúdo de histórias sem fim, me vejo lá dentro, vejo pessoas que conheço, ocupando trechos dessa história, perambulando em meus pensamentos, estão lá, cada uma com seu conto, sua decepção, sua alegria, sua tragédia pessoal. Estão todos no anúncio vazio de palavras, mas com muitas histórias sem fim.

Você já fez um anúncio por algum motivo, já falou aos sete ventos, gritou pela sua necessidade de ser ouvido, sentido, notado? Sentiu-se vazio de tudo, cheio de ilusões que preenchem seus vazios libertando-o da realidade que dói e se livrou de um objeto que lhe traz lembranças dolorosas, quer esquecer um passado inesquecível ou pensar num futuro inimaginável prestes a acontecer? Somos tão vazios que nos prendemos a vazios preenchidos de ilusões flutuantes, que vão e vêm sem se fixar e revelar o humano dentro de nós. O vazio de sentimentos de alma é frio, um ambiente vazio e solitário, gelado, não tem presenças, não tem almas, nem corpos, nem sentimentos para produzir calor. Calor se produz com sentimentos fortes e duradouros, com toques, abraços, com euforia de crer que somos úteis e doadores de amor, seres dotados e capazes do gerar mais e mais calor, só o calor é que fará germinar as sementes dos sonhos, sem calor, o frio as encolhe e seca.

O mundo superficial nos leva a falar muito de sentimentos, expondo-os como uma solução que nunca alcançaremos se não a buscar dentro dos nossos corpos frios carentes de amor. Nós nos relacionamos com desconhecidos, amamos a distância com palavras lindas e depois dormimos numa triste solidão, chorando abraçado com o amigo travesseiro. Temos medo de amar, de buscar e conhecer o verdadeiro, de espantar os fantasmas de que ninguém é bom o suficiente para nos dar felicidade. Para quem interessa a sua solidão e tristeza?  O único prejudicado é você que vai passar por esse mundo sem experiências amorosas verdadeiras, mergulhado num falso orgulho, sem ter vivido o real motivo da sua curta existência por só ter aprendido a olhar os benefícios materiais momentâneos, iludido por falsas orientações, valorizando as pessoas pelo que tem e não pelo que são e podem te dar. Criamos o mundo da desconfiança por não confiar, por medo de dar e receber, vendo como inimigo tudo que desconhecemos, rejeitando. Como então encontraremos a felicidade se a odiamos e não a buscamos, discriminamos, temos medo que ela se aproxime e leve os nossos bens, nosso ego e nossa querida solidão?

Construiremos a felicidade olhando para dentro, sem medo de errar. Somos seres imperfeitos em constante evolução, aprendemos com os nossos próprios erros e não com os erros do próximo. É o espinho na própria carne que dói. Evoluímos dentro de um corpo que um dia vai desaparecer, mas continuaremos evoluindo por sermos eternos.

Assim como eu, que fiquei curioso com esse anúncio e acabei viajando dentro dele, creio que você também deve estar. Mas, como falei, é só um simples anúncio vazio e de poucas palavras, mas que surpreendentemente me levou tão longe em meus pensamentos e quem sabe pode contar a sua história. O fiz desse modo na intenção de desenvolver o senso crítico e levar as pessoas a pensar, refletir e preencher esse vazio dentro de cada um. Temos que reaprender a pensar a cada dia, rejeitar coisas prontas e mastigadas que não nos dão oportunidade de opinar ou discordar, simplesmente nos levam a seguir um padrão pré-determinado.  Pensei em não colocar aí embaixo o anúncio, são todos iguais, sem conteúdo e sempre com a mesma finalidade, vender ou livrar-se de algo.

Mas, devido a grande curiosidade vamos ao texto:

“VENDO UM PAR DE ALIANÇAS“

Vendo assim, realmente não tem importância nenhuma.

Mas mesmo assim, tenha uma ótima leitura e encontre a sua história!

Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de Flávio Luís Schnurr

Flávio Luís Schnurr

Descendente de pais russos; artista; escultor; designer e escritor. Procura viver dentro da realidade sem perder seus princípios de vida na mais absoluta verdade. Catarinense radicado em Curitiba há mais de 30 anos.

Pular para a barra de ferramentas