Novos Deuses

Por Ricardo LuisReiter
Sinto-me um revolucionário! Minhas palavras não tem medidas; tem veneno! Aliás, exalo veneno em cada ponto. As vírgulas tem a maldade de uma apunhalada traiçoeira nas costas de um amigo. As palavras saem carregadas de ódio. Sou o Kratos[1] do mundo real. Minhas palavras são espadas que ferem todo aquele que coloca-se em meu caminho. Não existe alma viva que permanece de pé diante de mim, o senhor da verdade. Minha palavra é lei, meus comentários são decretos; eu sou um mito.
Não tenho amigos, tenho seguidores. Aliás, uma legião de seguidores. E não qualquer legião, mas sim uma legião fiel, disposta a entrar nas mais ferrenhas lutas por mim. Todos me temem, porque sabem que se sobreviverem as minhas palavras, serão caçados por meus escravos.
Sim, escravos. Porque eu manipulo a minha legião. Aplico-lhes uma lavagem cerebral tão profunda, a tal ponto que eles já não pensam mais em nada. Mais nada lhes importa, a não ser minha ordem. Basta que eu dê um comando, e eles se lançarão em direção a batalha com tal ferocidade, que mais lembram uma matilha de lobos famintas do que pessoas.
E eu apenas me delicio observando. Observando o caos criado. Observando pessoas perdendo seu sono, sua vida social por minha causa. Pessoas que deixam de viver; aliás, que fazem de sua vida uma grande missão: propagar minha palavra e minha vontade ao mundo.
Não importa o que eu diga, não importa o quanto eu manipule informações e distorça a história; eles são fiéis a mim. Eu os convenci de que sou o grande messias, o arauto da verdade. Posso afirmar que o nazismo foi a maior ditadura de esquerda, ou que o capitalismo só pretende o bem estar social. Posso dizer que determinada marca produz seu produto a partir de fetos. Posso ainda reduzir toda a história mundial a um órgão excretor. Eles, minha legião, me garantirão a verdade.
Não sei nada, mas devido a coragem que tenho de escrever e dizer o que eles querem ouvir, torno-me um deus contemporâneo. Aliás, um deus extremamente poderoso. Senhor da história e do tempo. Dobro tudo a minha vontade. Sou imortal, porque tenho o mais bem elaborado escudo que poderia ser elaborado e a mais cruel ferramenta de tortura em minhas mãos…
Mas de que se tratam essas ferramentas místicas?
Muito simples. O meu escudo é o anonimato da internet. E minha feroz ferramenta são as redes sociais e fóruns. Não importa quem eu sou no mundo real. Basta-me ser um deus no mundo virtual. E para tal uso de meu escudo que garante que jamais minha identidade seja revelada. Sou o Super Homem moderno. Mas ao invés de usar cabines telefônicas para assumir minha forma divina, eu uso qualquer aparelho conectado a internet. Até porque não é interessante livrar nosso mundo real dos vilões. Antes é necessário curvar o mundo virtual a minha vontade, varrer para seu devido lugar essa escória da humanidade que pensa diferente de mim.
Para mim o mundo virtual é o real. E o que você conhece por mundo real não passa de um simulacro, de um ambiente de cópias imperfeitas. Somos reais no mundo virtual.
Eu sou um Deus. Você dúvida? Dê-me o link do seu perfil no Facebook e eu prometo acabar com sua vida num piscar de olhos.



[1]Kratos, o Fantasma de Esparta,é o personagem principal da saga épica, mitológica Godof War. Tomado de raiva, irá, ódioe em busca de vingança, Kratos caça e mata um por um os deuses e titãs do Olimpo, trazendo a destruição ao mundo e desencadeando o fim dos tempo.
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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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