Nem toda boca sabe amar

Bocas que falam, que desvaleram, que omitem, que esquecem, que disseminam, que escandalizam.

Bocas que diminuem, que envergonham, que maltratam, que vagabundeiam, que adoecem.

Bocas que circulam, que agonizam, que respiram, que se afogam, se arrepiam.

Bocas que se concentram, que se dividem, que nunca mais se explicam e se vão.

Não há maturidade para essa lábia maldita. Esse sistema somente sabe gritar e vai se diminuindo a cada soco verbal.

E a boca foi aberta. Erradamente foi calculada a dirigir-se por meios termos sem conexões. A boca zombou e errou em falar o que não se devia, e a boca magoou os ouvidos alheios, que o fizeram sangrar, entrando em eterna surdez.

E a boca não sabia cuidar das suas próprias verbosidades e parecia se morder em aflição.

A boca correu calada por dias, repensando suas falas, seus adjetivos, ditos “podremente”. Talvez ela não desejasse magoar os ouvidos alheios, talvez ela quisesse tão somente encaixar a sua lábia em uma conexão surreal.

Assim o tempo a amadureceu, a fez entrar em seu próprio silêncio, não se despediu, ou se deu o próprio adeus para nunca mais se deleitar das suas falas pesadas.

E deu-se o tempo certo para a labiosa tornar-se adulta. A boca que enganava que gritava que magoava que não respeitava, por fim encaixou na sua maior certeza e virou uma só ao enxergar, ali no tempo certo, a boca que amava.

Houve o encontro perfeito de palavras ditas mesmo em silêncio puro, nada de agressão, unicamente de respeito. Houve o crescimento pessoal necessário, conduzindo aquela lábia fervorosa ao caminho do entendimento. E sentindo que para ser ouvido o essencial é cobrir suas palavras raivosas e sentir o sabor da boca que te acalma.

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Foto de perfil de Myra Soarys

Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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