Nem só de pão viverá o homem: a predominância do discurso liberal no Manifesto Brasil Nação.

A esquerda brasileira, embora crítica do pensamento liberal, persiste em repetir a prática liberal do atlântico norte de reduzir a sociabilidade à cooperação econômica. Essa persistência pode ser observada no fato de que mesmo após a primeira eleição de Lula, a democratização do acesso ao consumo continuou sendo a principal bandeira do governo. Não estamos dialogando com as políticas econômicas dos governos liderados pelo PT, mas com o discurso utilizado pelos governos. A dignidade humana e cidadã, a democracia, o acesso ao mercado produtivo, tudo se transformou em fomento ao consumo através de uma expansão do microcrédito. Esta análise, que não é original nem inovadora, serviu de base à famosa afirmação segundo a qual durante os governos liderados pelo PT, os pobres puderam melhorar sua vida e mobiliar a casa, mas da calçada para fora os problemas continuavam.

Lançamento do Projeto Brasil Nação na USP

Poderíamos dissertar sobre vários momentos onde o incentivo ao consumo substituiu a promoção da cidadania como acesso ao espaço público e reafirmação da autonomia humana nas deliberações. Em outras palavras, enquanto democratizavam o consumo, lançando o país em uma euforia de compras, o sublime era cada vez mais privatizado.[1] Pouco a pouco a relação do povo pobre com o mercado (de trabalho e consumo) foi melhorando enquanto a relação com o Estado se deteriorava.

Esperava-se que após o fim das conciliações, com o Golpe Parlamentar contra a Presidenta Dilma, este discurso econômico fosse substituído por outro mais abrangente com o fim de engajar a sociedade civil em projetos de retomada do espaço público e socialização do sublime. No entanto, tal espera tem sido em vão até o momento.

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Luis Bresser, principal nome do Manifesto, esteve na Câmara de Reforma do Estado do Gov. FHC.

O Manifesto Brasil Nação lançado por intelectuais liderados por Luis Bresser, no intuito de reengajar o debate sobre um projeto de país é um exemplo da persistência deste discurso. O texto do Manifesto possui todo mérito de refletir a insatisfação geral em relação às ações do governo ilegítimo de Temer, é uma insatisfação real, que toca todas classes sociais a medida que, na alteração radical da política econômica, interfere no planejamento da vida das pessoas. No entanto, a insatisfação não se reduz a tragédia econômica, e tratá-la como se assim fosse reduzir o papel da esquerda progressista à revisão da política econômica.

Para fazer justiça ao Manifesto, não devemos confundi-lo com um projeto, ele convida os intelectuais a produzirem o projeto e lança algumas diretrizes, não estabelece limitações. No entanto, a nível de análise de discurso, a base das soluções a serem propostas fica clara no fato de que o Manifesto dedica quase a completude de sua íntegra a demonstrar como os desarranjos econômicos do governo Temer afetam a própria ideia de nação brasileira. O texto é belo, e convincente é o seu teor, no entanto, nunca foi tão sábio lembrar as palavras de Jesus: “Nem só de pão viverá o homem.”

A política econômica de Temer pode dar fim a grande parte das conquistas sociais dos governos anteriores, principalmente àquelas que dizem respeito a redução da miséria, desta forma é importante manter em mente que grande parte da população que foi beneficiada por essas conquistas hoje quer mais do que dinheiro. Para entender estas reinvidicações podemos olhar para dois lugares, para o atlântico norte, onde a crítica comunistarista ao liberalismo pontua, desde a década de 80, a necessidade de novos processos mobilizadores, e para o nosso próprio país e lembrar que tais discursos não seriam novidade a nível nacional.

Nos EUA, o ápice da priorização da economia no discurso progressista se deu com o jargão “Its the economy stupid!” concebido pelo coordenador de campanha de Bill Clinton para minar a tentativa de  seu adversário de levar  o debate eleitoral para o âmbito da moralidade. A estratégia funcionou, a campanha inteira foi sobre capacidade de gestão e projetos para economia, e assim, Clinton ganhou. Essa vitória significou para os EUA a ascensão de uma política econômica que trouxe enormes benefícios para os mais pobres, fortalecendo a classe média e garantindo o ambiente propício para o mercado. No entanto, algo que passa despercebido a muitos é que foi durante o governo Clinton, um dos mais exitosos economicamente, que os Republicanos ganharam a maioria das vagas na Câmara dos Representantes pela primeira vez. É intrigante o fato de que após anos de conquistas sociais proporcionadas pelos Democratas, sob presidentes democratas, e sob os ataques republicanos, os últimos tenham ganho a confiança do eleitorado. Tão intrigante quanto o fato do Congresso mais conservador da história recente do Brasil ter sido eleito após anos de conquistas sociais para os mais pobres (maioria do eleitorado) sob os auspícios de governos de coalização de centro-esquerda. A primeira vez que elegemos uma mulher para ocupar a presidência coincidiu com a eleição do Congresso mais conservador desde o período da ditadura empresarial-militar que assolou o país.

O que quero sugerir com essas comparações é que a política econômica é parte do caminho para a construção/disputa de um projeto de nação, mas não é o caminho inteiro, e muito menos um fim em si própria. Apenas as pessoas são fins em si mesmas, todo o resto são meios para o aprimoramento humano. A perspectiva de melhora não pode ser oferecida como depósito de confiança em um ou outro ator político, mas como recompensa por um esforço público.

O argumento moralizante da política tem seu brilho realçado diante da falha da política econômica. Em nosso país não é incomum o discurso que relaciona fracasso econômico com falha de caráter, principalmente através do sensacionalismo em torno da corrupção. Para além dos aspectos simplistas e antipedagógicos deste discurso, o que quero apontar é o fato de ele vir sendo reapresentado há mais de seis décadas e sempre logrando êxito. Dessa forma, antes de mais nada, se o objetivo é disputar um projeto de nação, temos que responder a esse argumento, seja minando suas bases, apropriando-se dele ou construindo um discurso moral alternativo. Em qualquer forma, o Manifesto repete os traços da política liberal que coloca a economia no epicentro da vida do brasileiro, e enquanto reflete tais aspectos, os resultados esperados são aqueles já atingidos por textos como a Carta ao Povo Brasileiro.

O ex-Ministro e Professor de Harvard, Dr. Roberto Mangabeira Unger defende que o caminho para a autodeterminação é a ressublimação do espaço público como âmbito das grandes realizações.

Por fim é necessário incluir ao texto do Manifesto a intenção de um discurso moral de distinção clara entre certo e errado na atividade política brasileira. Esta distinção, vendida de forma tão simplista pelos conservadores, precisa estar presente no discurso progressista de forma a equipar a sociedade civil para grandes momentos de decisão onde por ventura o argumento econômico não estiver a mão, ou simplesmente não couber. Não devemos aderir ao simplismo conservador de dividir a sociedade entre aqueles que concordam comigo, aqueles que estão mal informados e aqueles que estão mal intencionados, mas é necessário que, a despeito do que pareceu certo no passado, daqui para frente teremos critérios claros para identificar o certo e o errado, e teremos vigor moral suficiente para escolher o certo. Os últimos dias do governo Dilma nos mostraram um discurso claro sobre o que era certo (defender a democracia), a despeito do que pareceu certo em momentos anteriores, e o governo Temer, vem nos mostrando de forma explícita o que é errado (a política de alianças orientadas por um pragmatismo utilitarista), a despeito do quanto tenhamos nos beneficiado desses erros em momentos anteriores.

É necessário uma síntese moral, a partir de uma narrativa contextualizada em nossa história política, que disponha de forma clara o que deve ser considerado inaceitável daqui por diante, o que é discutível e o que é o certo a ser feito.

O senso comum de que “nem só de pão viverá o homem”, precisa ser reiterado entre os intelectuais progressistas para fomentar a compreensão de que o povo não quer só pão, mas também a verdade e a dignidade da autodeterminação, e que a produção de ideias novas, de novos motivos para o esforço conjunto, não pode ser impedida por nenhum tipo de ferramenta criada pelos tiranos do passado e/ou do presente.

[1] O conceito de privatização do sublime é originalmente do Prof. Roberto Mangabeira Unger (Harvard).

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Marcelo Silva

Marcelo Silva, 26 anos, doutorando em Filosofia Prática pela UFRJ, graduando em Direito e mestre em Filosofia Política, Liberalismo e Pragmatismo. Com pesquisa em Teoria da Justiça, Teoria Institucional, Teoria Moral, Análise Econômica do Direito e Liberalismo Político. Leitor e ouvinte de Blues, Jazz e da literatura e música brasileira, de Cartola a MC Zói de Gato, de Villa Lobos à Manezinho Araújo, de Machado de Assis à Ruben Fonseca. Militante progressista e amante de um bom café.

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