Narcisismo #2

Na postagem anterior (Narcisismo #1), foi apresentado o estado atual em que se encontra a sociedade, num âmbito mundial. Agora, porém, será apresentada uma leitura da mesma tese, a nível nacional. Em outras palavras, procurar-se-a responder a questão: é o brasileiro um narcisista?

A resposta pode ser simples ou complexa, dependendo do quão profundo se deseja entrar nela. Mas, ambas partem da mesma premissa: o brasileiro é narcisista.

Uma resposta simples terminaria por aqui, apenas respondendo a pergunta. Já uma resposta mais complexa, própria da filosofia, buscaria por apresentar o que fundamenta tal resposta. E como este é um blog de filosofia, é essa resposta que será apresentada.
Não são simples os fatores que formaram o caráter narcisista no brasileiro. Muito se deve a sua origem, a origem do “cidadão brasileiro”. Mas também existe um fator atual, que manipula e implanta “verdades” subversivas nas mentes das pessoas; o fator mídia.
Não é segredo que o “cidadão brasileiro” é fruto de uma miscelânea de culturas. Como também não é segredo que tais culturas, ou tais povos culturais, não desejaram estar aqui. Os nativos brasileiros, os índios, foram enganados, escravizados e massacrados. Tiveram suas terras roubadas, sua cultura e tradições violentadas e viram um rio de sangue lavar o continente.
Os africanos, cujos descendentes constituem a maioria da população brasileira, foram arrancados de suas terras e jogados como animais nas senzalas das fazendas. Deixaram de ser seres humanos para tornarem-se objetos descartáveis. Precisaram adaptar e prostituir sua cultura para manter viva a lembrança do lar de onde vieram e para onde nunca mais voltaram. Quando viram a Lei Áurea ser assinada, viram-se sem nada, sem casa, sem trabalho. Eram, e continuam sendo, forasteiros em uma pátria que não os acolheu.
Mas o “cidadão brasileiro” traz em suas veias o sangue real de Portugal. Sim, de fato a Coroa portuguesa estabeleceu moradia no Brasil, mas jamais reconheceu o mesmo como seu lar. Quando a oportunidade surgiu, voltaram para sua terra, deixando uma colônia em ruínas. 
Ainda precisa-se citar as colonizações europeias, principalmente alemã e italiana. Esse é o ingrediente que falta para sedimentar o pilar histórico do narcisismo. É preciso frisar que os imigrantes vieram por livre e espontânea obrigação. Era algo do tipo “vá ao Brasil ou à forca”. Os imigrantes eram, em sua maioria, bandidos, pessoas sem posses, marginais, e, de modo geral, a escória da sociedade européia. Em outras palavras, não se orgulhe de ter sobrenome europeu porque isso não significa nada.
Uma vez apresentado esse panorama, percebe-se que o “cidadão brasileiro” traz contido em si um desprezo por essa terra e por aqueles que aqui habitam. E esse desprezo é praticamente involuntário e está escondido no mais profundo de cada um. E é esse sentimento, esse desprezo pela Pátria, pelo Brasil (onde ninguém deseja estar) que leva cada cidadão a cair em um estado de narcisismo.
Bem, a humanidade em geral tem uma tendência a ser narcisista. O brasileiro acrescenta a essa tendência humana um fator histórico. E a partir desse fator histórico, desse narcisismo histórico, que surge a intolerância contra as classes mais baixas e contra os programas sociais do governo. É fruto desse narcisismo o preconceito cultural (o termo racial já é pejorativo em si mesmo) e sexual (seja na relação homem – mulher, seja em relação a orientação sexual). Também é resultado desse processo todo fanatismo, as brigas entre torcidas (sejam estas partidárias, esportivas, etc.), o ódio religioso, as chacinas… Mas ainda não está completo o cenário. 
Mesmo o fator histórico pode ser superado. É prova disso a formação dos povos da Europa. É um processo longo, mas que pode resgatar e criar (no caso do Brasil) um sentimento positivo de coletivo em relação a pátria. Porém, no Brasil, cada vez se caminha mais na direção oposta.  E a grande culpa disso é do que aqui chamar-se-a de grande mídia. E nesse grupo entram todos os meios de comunicação que manipulam o “cidadão brasileiro” no seu dia a dia. É fato que a mídia brasileira é de péssima qualidade e que as notícias que circulam são manipuladas. E a mídia hoje, através de seus programas e comerciais, foca-se na afirmação do individual sobre o coletivo, resgatando e fortalecendo o fator histórico do narcisismo. 
Com isso, cria-se uma nação fragilizada, marcada por uma eterna disputa de superioridade entre seus cidadãos, que culmina em uma democracia de elite e dominada pela corrupção. Sim, a corrupção é uma manifestação do estado de narcisismo em que os indivíduos, e consequentemente, a sociedade se encontra. A esfera política apenas reproduz, em larga escala, o que ocorre no cotidiano do “cidadão brasileiro”. Tanto a lavagem de dinheiro da Operação Lava Jato, quanto o super faturamento de um sabonete (ou a sonegação de impostos) feita por um mercado de esquina, trazem em si o mesmo mal: o desejo de tirar vantagem do outro. Ou, em outras palavras, a afirmação da minha superioridade sobre o outro. Em suma, o prevalecimento do que é importante para mim: narcisismo.
No texto anterior, foi apresentado que uma saída para esse estado vicioso seria uma ética da alteridade. E essa é, talvez, a única opção para o Brasil. Não bastarão leis que punam jovens infratores mais do que eles já são. Não bastará pena de morte, ou um genocídio das populações em comunidades periféricas (e muitos defendem essa medida). O que o Brasil precisa é de cidadãos comprometidos com a verdade e que tenham desejo em construir uma Pátria que seja de todos. O “cidadão brasileiro” precisa romper com seu fardo histórico, e a nação precisa aprender a pagar essa dívida histórica (principalmente com o povo descendente da África e com os índios), para, desse momento em diante, todos poderem colocar a necessidade do outro acima de si próprio. Existe um longo e árduo caminho ainda a ser precorrido. É trite afirmar, mas nada vem sendo feito para reverter esse quadro dantesco.
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