Narcisismo #1

A mitologia grega apresenta Narciso como sendo um homem de grande beleza e que despreza o amor da ninfa Eco, pois a considera indigna de seu amor. As outras ninfas rogam aos deuses para que Narciso seja punido e eis que Afrodite o amaldiçoa a apaixonar-se pela sua própria imagem. Narciso acaba vendo refletida sua imagem na lagoa de Eco e se apaixona instantaneamente. Diante de tamanha beleza, Narciso nega-se abandonar o local, com medo de nunca mais rever seu grande amor. E assim acaba definhando e morrendo, contemplando a si mesmo. 
O mito de Narciso transcreve claramente o estado em que encontra a humanidade hoje, seja no Brasil, seja no exterior. O homem apaixonou-se por sua imagem e esta fadado a morrer contemplando-se…

A humanidade caminha a passos largos e velozes para o seu fim. E não será a fome, a guerra, a peste ou qualquer outra catástrofe que irá extinguir a humanidade. Será, em suma, o egoísmo humano. Ao não ver o outro como SER humano e sim apenas como um objeto, o homem iniciou o processo de extermínio de sua própria raça.  Em busca de petróleo, inicia guerras e devasta o Oriente Médio. Em busca de ouro e diamantes, faz da África refém de sua própria condição de miserabilidade. A Europa, que nos séculos passados precisou se refugiar em outros continentes, hoje fecha a porta e condena a morte os refugiados que procuram abrigo. Esse é o espírito que hoje habita o coração da humanidade: o narcisismo. 


“Uma das verdades do século é que as democracias aliadas na guerra contra Hitler quase não se preocupavam com o extermínio. Estrategicamente, estavam em guerra contra o expansionismo alemão e de forma nenhuma contra o regime nazista. Taticamente (ritmo das ofensivas, locais de bombardeios, operações de comando etc), nenhuma das suas decisões tinha por finalidade impedir, ou mesmo limitar, o extermínio. E isso, apesar de elas estarem, logo de início, perfeitamente informadas. E igualmente hoje, nossas democracias, profundamente humanitárias quando se trata de bombardear a Sérvia ou o Iraque, praticamente não se preocupam com o extermínio de milhões de africanos por doença, a AIDS, que se pode controlar e da que se controla na Europa ou nos Estados Unidos, mas por razões de economia e de propriedade, razões de direito comercial e de prioridade nos financiamentos, razões imperiais, razoes totalmente pensáveis e pensadas, não serão dados os remédios contra essa doença aos africanos moribundos. Apenas aos brancos democratas. Nos dois casos, o verdadeiro problema do século é o acoplamento entre as ‘democracias’ e o que mais tarde elas designaram como seu Outro, a barbárie da qual são inocentes. E é preciso desfazer esse procedimento discursivo de inocentamento. Somente assim, nessa questão, podem-se construir algumas verdades.” O Século – Badiou

Ao invés de buscar uma superação das vulnerabilidades que assolam o cotidiano das pessoas, a humanidade busca, através de seus líderes, uma superação de suas próprias limitações e a superação do indivíduo sobre o coletivo. Assim, a  fome na África acaba sendo menos importante que a injeção de botox que deixará certa pessoa mais com aparência mais nova do que é. Ou ainda, o bombardeio do Oriente Médio, que visa a dominação militar do território e o monopólio do petróleo, tornam-se prioridades em comparação com o fim da seca da África ou com o controle do HIV no continente.

Ética tornou-se um conceito ultrapassado na sociedade neo-liberal na qual a humanidade se encontra. Aliás, não pode-se ser hipócrita e defender uma ética universal fundamentada sobre princípios adotados por certo grupo social, antropológico ou de governo. A ética, para ser universal, precisa trazer em seu escopo, princípios que possam respeitar todas culturas. Não é possível, sem ser hipócrita, querer definir um norte ético, uma linha divisória entre o certo e o errado. Para um povo que pratica o canibalismo, tal prática está correta. E aqui está a dificuldade de se fundamentar uma ética que possa ser definida como universal.

E por que falar de ética aqui? Porque somente com o resgate e a fundamentação de uma lógica que, para citar indiretamente Levinas, seja de alteridade, a humanidade poderá resgatar seu SER HUMANO e sair desse estado de narcisismo.

Parece simples, mas acima foi escrito que é praticamente impossível se estruturar uma ética universal. Então, o que pode ter de diferente em uma ética da alteridade? De fato, uma ética universal é utopia. Mas, uma ética da alteridade é bastante palpável. Porque a ética da alteridade possui apenas um fundamento, um axioma: colocar as necessidades da vida do outro acima das minhas próprias necessidades. Em outras palavras, é tornar como lei universal o resgate e a valorização da necessidade do outro, acima da vaidade pessoal. E aqui temos uma unificação de vários pensadores e líderes que defenderam as mais diversas causas sociais. A ética da alteridade traz em seu escopo a máxima de Jesus: “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Traz, também, a síntese do pensamento de Marx: “proletários de todo mundo, uni-vos!”. A revolução sem armas de Gandhi, o discurso de Martin Luther King, a luta de Mandala, a Revolução de Palmares, todos esses movimentos e lutas (e poderia-se citar mais uma infinidade) buscaram a superação do estado de narcisismo e a valorização das necessidades do outro.

A ética da alteridade surge de uma abertura de cada um. Não basta um governo atuar para a superação da vulnerabilidade à qual o povo está exposto. Tal governo será odiado. É necessário uma posição ética da população, tanto local quanto mundial para o resgate do outro. O ser humano optou por ser meramente um animal racional, privando-se de sua HUMANIDADE. Mas ainda há tempo. A questão sempre é a mesma, aqueles que desafiaram o sistema (aqui no caso, o estado de narcisismo) pagaram com a vida. Quem hoje está disposto a fazer a diferença?

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