Não sentir

Nascer humano é complicado. Nossas mentes compostas de tantos e tantos sentimentos… Dessa forma, eu resolvi me reformar. Criei a vontade de fazê-lo, não existir. Modifiquei minha noção de ter para não ter. Assim me refiz ao longo da vida.

Nascer em um recheio de sensibilidade para mim sempre foi difícil em épocas de terror sentimentalista. A mim foi atribuído o selo de antipático. Sou eu, você, milhões de encadernados (fechados). Somos os que não se rasgam por emoções.

Vivi em um mundo em que não me obrigaram a ser o homem de alma doce, vivi entre saber ser o amargo. Desculpe-me, nunca fui capaz de atingir o desejo de tornar-se uma convulsão de vibrações conduzidas a momentos. Talvez desejasse me proteger das sensações do mundo, das sensações humanas.

Milhares enfartaram-se de momentos embriagados de felicidade, às vezes tão falsos, que me embebedavam fazendo-me fugir daquela “alcoolatricidade” humana.

Eu nasci humano e, de certa forma, minhas constâncias em não demonstrar nada para os demais, eram vistas como deselegante, de alguma forma eu me construí nesse limite, fazendo ecoar em mim a projeção de não sentir nada. Você sabe que é mercadoria em um mundo de mercadorias baseadas nesse tal sentimentalismo.

Eu me criei em um ninho pobre de expressões, nada de rancor, nada de medo, de nojo e, principalmente, amor a nada, era insípida em tudo e a todos. Não me sentia ao abismo ou em uma depressão, nada disso, só fui me envolvendo com a frigidez e não sofrendo com sintomas que os demais sempre se conduziam no dia a dia a mastigar. Porque escolher em ter emoções é, de alguma forma, escolher sofrimentos.

Eu me fiz limitante dessas pequenas dores, tanto fazia para mim algo, morrer ou nascer, aromas eram somente aromas, a dor era somente dor.

O que as emoções fazem quando elas lhe desestruturam?  Consome… Devora. Eu sei bem.

Ou se seguimos as normas do novo mundo de enxergar as sensações, ou as levamos para o suicídio, eu preferi matá-las. Posso não ter marcado a minha vida com expressões, porém, o zelo da ausência dos mesmos eu quis domar pelo meu próprio bem.

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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