Não existe crise na educação

O seguinte texto é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade da educação do Rio Grande do Sul é mera coincidência…

Encontrei essa carta hoje na minha caixa de correio. Não havia remetente, não havia endereço…

Não posso entrar em mais detalhes. O conteúdo me abalou. Vi-me obrigado a publicá-la. Se essa pessoa estiver certa, somente as armas serão a solução….

“O que aqui escrevo pode ser perturbante… E não, não tenho provas… Mas neste país já foi comprovado que convicções bastam… então, posso afirmar que estou convicto do quadro que descrevo abaixo.

Não existe crise na educação. Esse é o primeiro ponto que precisa ser compreendido e analisado. O que temos é, muito claramente desenhado, um plano político de sucateamento da educação pública que vem se arrastando a anos e se intensificou, ou ganhou nova força, a partir das políticas de inclusão nas universidades públicas e privadas de nosso país.

Obviamente, muito do que irei aqui escrever e expor não tem como ser demonstrado. Se houvesse como ser, tais informações já estariam sendo utilizadas. Mas, em contrapartida, muito pouco de novo será aqui exposto. Trata-se mais de fazer as relações e apontamentos que a grande mídia brasileira, na sua conhecida parcialidade, tem evitado de fazer. O mesmo pode-se dizer dos sindicatos que tem alegado defender o setor da educação. Em uma análise simplória e bem direta, é preciso compreender que sindicatos não existiriam sem acordos com governos.

Dessa forma, inicio afirmando que a crise da educação tem beneficiado a existência de sindicatos, porque as crescentes tensões de categoria versus governo tem dado aos sindicatos um número considerável de filiados. Mas este é um fenômeno comum em todas as áreas e categorias. Existe uma relação comercial entre sindicatos e governos. Sempre houve, após a legalização dos mesmos e sempre continuará havendo.

Escrevi em minha introdução que o plano de sucateamento da educação ganha forças após a implementação de políticas públicas de ingresso ao nível superior. E este é um ponto frágil a ser discutido. Primeiramente (fora Temer) porque a questão “políticas públicas do governo Lula” sempre é motivo de histeria e comentários desnecessários. O que, de certa forma, só reforça minha tese de que o Governo Lula escancarou o preconceito e o ódio do brasileiro contra a população pobre. Ódio este que até então conseguiu ficar disfarçado.

Acontece que com a entrada da periferia na universidade, a elite brasileira viu seus privilégios sendo ameaçados. A mão de obra quase escrava começou a tornar-se mais qualificada. Em tese, a revolução comunista parecia – aos olhos do burguês (safado) – uma realidade muito próxima. Algo precisava ser feito… Afinal de contas, um povo minimamente instruído já torna-se um problema. Agora, uma periferia instruída é prelúdio do caos.

Começou nos grupos de Facebook. Comentários, postagens… “Perdi minha vaga na universidade pública porque um negro ‘fdp’ a roubou de mim…” Sim, eu li isso. Não! Não foi nem uma, nem duas vezes. A elite branca, que passou a vida morando no Parcão, no Menino Deus, realizou toda sua educação básica em escola privada e que fez curso pré-vestibular agora estava indignada porque seu futuro estava comprometido ao não poder cursar medicina na UFRGS. E não por não ter passado no vestibular, mas porque um negro acessou uma vaga que até  então estava reservada para a elite. Como se as vagas da universidade PÚBLICA pertencessem à elite. Aliás, interessante hipocrisia…

Mas as cotas estavam aí… Não é fácil tocar em um direito, ainda mais em um direito que pode mover uma massa como os estudantes. Não, não havia como retirar as cotas… Porém, a mente do burguês (safado) é uma oficina de artimanhas. “Não podemos excluir as cotas”, pensou ele… “Mas podemos evitar que os beneficiários das cotas as alcancem”. E bem, os alicerces para tal já estavam lançados…

As escolas de periferia, de onde provinha a maior ameaça das cotas, já estavam sucateadas se comparadas as escolas de regiões centrais. Não precisa ser um gênio para entender o que se passou na mente daqueles que controlam os fantoches sociais… “Vamos criar um sistema que impeça naturalmente a formação adequada da juventude. Com isso, manteremos a massa ignorante, mas sem mexer – diretamente – em seus direto às cotas…”.

O primeiro passo é o sucateamento dos professores. Aumento de jornada de trabalho, salário abaixo do piso, vale alimentação que carinhosamente é apelidado de vale fome… Segundo passo, é repassar às escolas um valor que jamais garantirá uma estrutura mínima para atender bem aos alunos. Terceiro passo, a falta de investimento na estrutura física das escolas… O cenário final? Um verdadeiro circo de horrores. Mas acreditem, em meio a tanto caos, ainda se colhiam flores. A escola pública resistia. Apesar dos esforços da burguesia (safada) em reverter o status quo, os professores, com o apoio da comunidade realizavam verdadeiros milagres.

Mas eis que surge um evento novo. Uma eleição. E um candidato surge. Um candidato que fundamenta toda sua campanha no escárnio e no deboche. Um candidato que desdenha do papel social do professor. Um candidato que é eleito. E que instaura o caos final.

Alegando não haver verbas, congela aumentos de salários dos servidores do executivo, principalmente dos funcionários da saúde, segurança e educação. Por 21 meses – 630 dias, 15.120 horas, 907.200 minutos – o salário desses servidores vem sendo parcelado. Greves têm tomado as escolas semestralmente. Anos letivos têm sido executados de forma comprometida. Não temos como saber os impactos de todo este desmonte na educação da vida destes jovens a longo prazo…. Mas sabemos que poucos entrarão na UFRGS…

Mas, haverão aqueles que dirão que tudo isso é teoria da conspiração. Que, de fato, o Estado está falido. Ora, estes farão descaso e vista grossa às informações que têm vindo de dentro do Banrisul. Informações estas que têm apontado que a verba do salário do funcionalismo estaria aplicada e rendendo juros ao citado banco.

Mas, como assim? Como pode um Estado vender-se de tal maneira? Bem, até onde me consta, o Banrisul financiava o agronegócio de alguns outros Estados brasileiros. Em troca, recebia juros sobre o valor emprestado. E não é segredo que a única função de um banco existir é para aumentar seu capital através de juros. Acontece que uma das primeiras medidas do governo Sartori foi proibir tais empréstimos.

Agora, pense comigo, se você estivesse faturando bilhões por ano sobre empréstimos e eu viesse e proibisse você de fazer isso e que investisse todo dinheiro na minha empresa, recebendo bem menos juros, você concordaria? Parece-me que existe uma história muito mal contada aqui… Para mim, fica claro que o Banrisul não perdeu seus lucros, apenas mudou a fonte deles… Deixou de lucrar com o agronegócio para lucrar sobre salários de funcionários públicos…

Surgem, obviamente, algumas perguntas: O que fazer? Para que lutar pela educação? Qual é a solução?

Confesso, com pesar, não ter estas respostas… Mas posso afirmar, com toda minha convicção, que a luta pela educação é uma luta na qual toda a sociedade deveria fazer-se presente. Não pode se tratar apenas de greves. Ou de atos públicos. É preciso, antes de mais nada, parar de Temer (desculpem o trocadilho) governantes. Entender que existe um caos que não é tão caótico como se tem apresentado ou vendido. Nesse circo de horrores quem grita mais forte ganha o espetáculo. Porém, acontece que nada cala a voz da periferia, dos professores, dos alunos e dos trabalhadores que diariamente são massacrados.

O que tem acontecido é que estamos dispersos, cada um gritando em seu quadrado… Se gritarmos juntos, quem nos calará?

Mas, como eu disse no início, isso tudo não passa de uma grande ficção… de terror…”

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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