Na comunicação o perigo não está nos extremos

por Renata Floriano*

O tempo todo somos confrontados com todo tipo de acontecimento absurdo do qual somos instigados a tomar algum tipo de posição, a favor ou contra. Da violência verbal até a consumação de assassinatos violentos, não é difícil posicionar-se do lado certo. Pelo menos, não à primeira vista. E eu não estou levando em consideração os famigerados haters de internet, que muitas vezes fazem uso desse meio como forma de propagar opiniões esdrúxulas pelos mais variados motivos. Faço referência ao cidadão médio que tem aquilo que podemos chamar de uma opinião moralmente aceitável. Aquela opinião mediana que parece não ofender ninguém, não cometer atos discriminatórios e aceitar a diferença com certa tranquilidade.

Esse tipo de cidadão, quando inquirido, irá responder que é contra o preconceito e a discriminação. Que considera como execráveis as posturas de discriminação explícita e a violência praticada contra quaisquer minorias. Tudo dentro de um discurso de moral aparentemente irretocável.

Porém, existem momentos nos quais a vigilância moral falha ou “adormece”, e esta mesma pessoa permite-se fazer piadas, trocadilhos ou debochar daquelas minorias que num discurso anterior parecia defender. E isso é mais comum do que se pensa. Esse tipo de manifestação entra naquela linha tênue, tortuosa e nebulosa que alguns chamam de humor. Afinal, rir é o melhor remédio! E a pergunta que fica é: – Remédio para quem?

E nesse meio do caminho entre os extremos violentos e intolerantes, surgem e permanecem os comentários maldosos; as piadas que se dizem inocentes, mas que no fundo fazem escárnio da dor de alguém; e até mesmo a opinião que muda abruptamente de lugar quando o papel social da minoria tenta sair da margem e afeta de algum modo a vida do tal cidadão mediano. Quem nunca ouviu alguém dizer:

– Não tenho nada contra os gays, até tenho amigos assim, só não gosto de gay espalhafatoso que se beija no meio da rua. Acho falta de respeito!

E tantas outras coisas do gênero que podemos citar, criando uma lista longa de exemplos.

Pois é. O tipo de pessoa que profere essa opinião não entra na mesma classificação daqueles que são radicalmente contra as minorias e agem contra elas com uso de violência. Contudo, essa opinião tortuosa entre a piada, o comentário maldoso ou a desaprovação “socialmente aceita” sobre a minoria – que estas pessoas medianas soltam de vez em quando – é o combustível que alimenta aquele extremista violento que elas tanto recriminam. A mesma piada proferida mesmo sem intenção sobre qualquer minoria por uma pessoa mediana é repetida pelo extremista agressor.

A dificuldade em ver essa relação está na comunicação entre ambos que nem sempre é feita de maneira direta, mas que ocorre da mesma forma. Aquilo que num primeiro momento pode ou parece ser totalmente inofensivo para quem emite, tem uma dimensão diferente para quem recebe, e uma dimensão maior ainda sobre quem se está falando. O que para uns tem aparência de humor ou de mera opinião, para outros tem o tom de incentivo, e para de quem se está falando tem o tom de discriminação.

É óbvio que entre as minorias nem todos irão entender as piadas sobre eles mesmos como ofensa. E aí surge aquela conversa de saber rir de si mesmo e tal. O que precisa se levar em consideração são as nuances desse tipo de situação. Uma delas é que para a minoria, fazer piada e rir de si mesmo é diferente de uma pessoa de fora desse grupo fazer o mesmo. Aqui entra mais ou menos aquela regra de que nós podemos falar mal da nossa família, mas quem está de fora não pode. Outra nuance está em que a pessoa pode não se reconhecer dentro dessa minoria por estar alienada quanto a própria situação e o papel social que a sociedade lhe impõe. Talvez por isso não sinta empatia pelas outras pessoas que se encontram naquela classificação social minoritária. E podem haver tantos outros motivos. O que não dá, de maneira alguma, é culpar a própria minoria pelas mazelas aos quais o sistema pretensamente homogêneo a impõe.

O ponto é que tão ou mais perigoso quanto a opinião e a ação extremista e intolerante que é propagada na sociedade, é a aquela opinião maldosa (minimamente preconceituosa) que é emitida pelo cidadão mediano sobre as tais minorias que ora ele defende, ora ele debocha. E tão difícil quanto manter-se vigilante sobre as próprias palavras e ações como relação aos outros é compreender a responsabilidade moral que temos sobre o modo como nos comunicamos. A comunicação dentro da sociedade um tem papel fundamental, como o próprio Aristóteles disse milênios atrás, sendo ela quem emite nossos conhecimentos e nossas intenções. Assim, tal como observamos nossas ações na sociedade devemos cuidar aquilo que comunicação nela e para ela.  Isso porque a comunicação nem sempre é clara, mas é dela que partem as ações objetivas que serão aplicadas tanto para o bem como para o mal.


*Renata Floriano é mestranda do Programa de Pós Graduação em Filosofia da PUCRS

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