“Mutila dor”

Eu me sentia uma peça de carne sob a vigilância de seus próximos cortes, me sentia uma fatia de carne sob o julgamento do que seria livre e do que se entregaria a trituração, mas nada se livraria.

Algumas vezes somos nossa própria lâmina, existem duas ligadas a mim, que me fizeram escravas delas. Pertencente ao meu corpo conduzido a me fazer fraquejar, assim me despedaçava todos os dias, como se tentasse “modelar” com a desfiguração a minha estrutura. De alguma forma manter-me intacta não era o prazer do meu interno, desagradava a ele me sentir inteira.

Era dominante em mim estar morto mesmo em vida, rasgar-me a mil pedaços era uma dose de satisfação ilusória, que se deixava enganar a si mesmo. Pergunto todos os dias ao meu subconsciente, por que fazer e para que fim. Porém, respostas sempre se ocultaram.

Há uma culpa (que não sei ao certo qual é) enorme, castigada dentro e principalmente exigente fora de nós, vemos marcas, rasgos na alma e sob ela, como se a agonia fosse liberada em forma de mutilações. Mutilar a dor com a própria dor.

É um mau jogo fora de limite em que se descarrega uma dosagem de calma e de alguma forma preenchimento, mas que, em seguida é despejado o peso do arrependimento. O que promete ser alívio e satisfação em alguns instantes se tornará dor e desespero.

A culpa de um fumante por aliviar sua tensão com seu tabaco, a culpa de um alcoólatra por aliviar seu estresse na virada do copo, a culpa do viciado na sua heroína. Cada um com sua breve dosagem de morte, porque tudo em demasia é morte, e minha morte era eu mesmo.

Chego ao ponto em que o desejo de dissipar o meu mal (mãos) é frequente, mas vou percebendo o quanto inválido eu sou em desistir da minha própria tortura. Pertencemo-nos e o meu desequilíbrio por esse mal me faz satisfatório. Entretanto uma satisfação mortal.

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Myra Soarys

Intensa. Provocadora e sabe o quer. Adora Literatura de cordel e música boa. É pintora e desenhista. De personalidade forte. Um pouco impaciente. Expõe seus pensamentos. Os mais sadios e os mais doentios.

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