Música ou Arte?

por Fábio Fleck 

Alguma vez você já se perguntou o que é a música? E já se perguntou o que é a arte? 

 Neste pequeno texto, pretendo levá-lo a uma breve reflexão sobre o que é a Música, o que é a Arte e como se dá a relação de ambas e suas classificações básicas – iniciais-.

Não é de meu interesse aprofundar nenhum tema aqui exposto, a pretensão é apenas convidá-lo a uma básica reflexão, para que com isso, você possa pensar estas duas palavras, sob novas perspectivas, não necessariamente as apontadas aqui, mas sim, obter um novo caminho e tentar conduzir-se nestas “novas vias”, as quais você pode, talvez, chegar apenas realizando o exercício proposto de deixar-se levar por esta interpretação livre.


Por definição técnica, precisaríamos de pelo menos três elementos básicos para constituir a música, sendo eles: harmonia¹, ritmo² e melodia³, a partir destes, podemos elencar uma série de subelementos para a classificação mais assertiva sobre a ótica técnica. 
E a arte? 
Arte, como dizem os antigos, é a revelação do belo. Conforme os meios de expressão, podemos dividir as artes em:
I. Artes Visuais (ou artes plásticas) – cuja percepção é visual, imediata e completa, por exemplo, arquitetura, escultura, pintura, etc. A obra, uma vez terminada, não precisa mais de intermediário para ser percebida.
II. Artes Sonoras – cuja percepção é auditiva e sequencial, por exemplo, música. A matéria prima é o som. Os sons existem enquanto os intérpretes cantam, tocam ou declamam.
III. Artes combinadas – por exemplo, teatro, ópera, balé, cinema, etc.
A música, arte de combinar os sons, vem sendo cultivada desde as mais remotas eras. Os chineses, três mil anos antes de cristo, já desenvolviam teorias musicais complexas como, por exemplo, o círculo das quintas. Para os gregos e romanos a musa EUTERPE tinha a atribuição especial de proteger  música. Para os católicos, a padroeira dos músicos é SANTA CECÍLIA, uma musicista cristã sacrificada no ano 232 d.C.
A música, escrita pelo compositor, para ser percebida pelo ouvinte, necessita de um elemento intermediário, ou melhor, de um intérprete. A música não é apenas uma arte, mas também uma ciência.  (Med, Bohumil. Teoria da Música /Bohumil Med – 4. Ed. Ver. E ampl. – Brasília, DF: Musimed, 1996 p.9)

Penso que a música está dentro da arte, mas ela não é apenas arte. E mesmo estando dentro dela, trata-se de um conceito próprio, emancipado e autônomo. 

Ou seja, para ser música, necessariamente precisamos dos elementos técnicos, uma vez que, sem estes, não temos música de maneira organizada. Quanto ao canto gregoriano, por exemplo, justamente não creio que pode ser considerado como “música” e sim canto, precisamos separar a música da canção, da poesia e até mesmo do canto como “parte integrante dela”. 

Canto dentro da métrica5, da melodia3 e até mesmo harmonia1, pode ser um elemento, mas não o “definidor” do conceito de música. Já quando falamos em qualidade, aí a questão torna-se extremamente subjetiva, pois na verdade, a pergunta é: Qualidade para quem? O que é qualidade? Quais requisitos nós teremos? E quais comparações faremos? Entraremos talvez em juízos como: gosto, estilo, estética musical e percepção individual! Obviamente, há um padrão técnico para aferir qualidade como admitido acima, mas ainda que falássemos de técnica, teríamos aqui certos problemas de subjetividade.  

No quesito técnico, sabemos que, sem alguns pré-requisitos, não temos música, mas continuamos tendo arte, pois a arte sim é extremamente subjetiva e perceptível de maneira individual e toca cada um de uma maneira diferente. Evidentemente temos também, dentro disso, uma linha a qual podemos chamar de “padrão”. 

Quando temos apenas um elemento, temos elementos e não música como um todo. Já a música atonal6, não possui preponderância de um tom7, mas existe um caminho, mesmo que cromático8, ou outros meios, os quais passam por vários tons, ou campos tonais9 diferentes, ai temos que é sim música, mesmo que com vários “acidentes musicais10, só não possui o padrão usual da hierarquia musical, ou sequencial. Talvez Adorno11 tenha usado o entendimento desta não “serialidade12, para fazer sua crítica sobre os improvisos no Jazz13. – este pode ter sido, talvez, um dos elementos que ele usou – O Filósofo alemão frank­furtiano Theodor W. Adorno, pianista e aluno do compositor austríaco Alban Berg, classificou o jazz como um típico fenômeno de “regressão da capacidade auditiva” associado à indústria cultural14. Adorno também o caracterizou tecnicamente como sendo essencialmente invariável e fundamentado na sincopa16. Tais afirmações, não me parecem tecnicistas, aparentemente a comparação foi feita entre a música erudita e a música popular. Enfim, é claro que é um tema delicado e difícil de ser tratado mais superficialmente ou de modo tão especulativo. 

O fato é que dentro da arte, a liberdade da expressão é algo supremo e por isso, muitas pessoas não se conformam que mais especificamente, a música, sendo ao mesmo tempo arte e técnica, precisa da organização, pois sem esta parte técnica, seria ainda mais difícil e confuso seu aprendizado e execução. 

Entendo que podemos reduzir a música a atos, ao exemplo de uma sinfonia15 que em determinados momentos omite o ritmo2, mas que mesmo omitido um elemento, a música permanece ali. Mas ainda assim, a simples omissão de um elemento, reduz a música a um ato e não a sua totalidade de descrição do conceito.

Sabemos que existem inúmeros elementos para caracterização do termo: “música” e que já deixamos vários destes de lado.

Cada vez que fazemos isso, vamos banalizando o termo e o conceito até chegarmos ao ponto da artificialidade completa, onde, no inicio tivemos os sons da natureza para nos ajudar a criarmos os primeiros passos da música até a organização inicial do método grego. Podemos chegar a um ponto, em que a música não mais existirá, teremos que qualquer ruído, barulho, ou mesmo silêncio poderá ser considerado música pelo fato de omitirmos os limites conceituados tecnicamente. 

A pergunta sem resposta e que considero mais difícil e, portanto, mais importante é: Se a música é técnica e mesmo assim é arte e se ela está dentro da arte, mas é autônoma, até que ponto ela é música e até que ponto ela é arte? O equilíbrio e a mescla das duas, ou o “conjunto da obra”, é arte, ou é música? Ou mais música, ou mais arte? Isso acho difícil de definir!


Termos utilizados no texto:
¹ Harmonia: é o campo que estuda as relações de encadeamento dos sons simultâneos (acordes). Tradicionalmente, obedece a uma série de normas que se originam nos processos composicionais.
² Ritmo: Cadência (sons cadenciados) em intervalos de tempo periódicos.
³ Melodia: É uma sucessão coerente de sons e silêncios, que se desenvolvem em uma sequência linear com identidade própria. É a voz principal que dá sentido a uma composição e encontra apoio musical na harmonia e no ritmo.
Canto Gregoriano: O canto gregoriano é um gênero de música vocal monofônica, monódica (só uma melodia), não acompanhada, ou acompanhada apenas pela repetição da voz principal com o organum, com o ritmo livre e não medido, utilizada pelo ritual da liturgia católica romana, a ideia central do cantochão ocidental.
Métrica: Divisão de uma linha musical em compassos marcados por tempos fortes e fracos, representada na notação musical ocidental por um símbolo chamado de fórmula de compasso.
 6 Música Atonal: Em seu sentido mais amplo, é a música desprovida de um centro tonal, ou principal, não tendo, portanto, uma tonalidade preponderante. Atonalidade, neste sentido, geralmente se aplica a composições escritas de 1908 até os dias atuais, embora anteriormente já fosse usada com menos frequência.
7 Tom: Um tom é um intervalo utilizado na escala diatônica (e consequentemente em grande parte da música ocidental). Corresponde à diferença de altura entre duas teclas brancas do piano quando há uma tecla preta entre elas ou ainda entre duas teclas pretas. O tamanho exato de um semitom (em relação às frequências) depende do temperamento que é utilizado.
8 Cromático: É uma escala que contém 12 notas com intervalos de semitons entre elas.
9 Campos Tonais: É o conjunto de acordes formado a partir das notas de uma determinada escala. Esses acordes são extraídos de uma das quatro escalas estruturais: a maior, a menor, a menor harmônica e a menor melódica. Também pode ser chamado de estrutura tonal visto que o desenvolvimento da harmonia está inteiramente ligado ao aparecimento e desenvolvimento do conceito de tonalidade.
10 Acidentes Musicais: É o conjunto de acordes formado a partir das notas de uma determinada escala. Esses acordes são extraídos de uma das quatro escalas estruturais: a maior, a menor, a menor harmônica e a menor melódica. Também pode ser chamado de estrutura tonal visto que o desenvolvimento da harmonia está inteiramente ligado ao aparecimento e desenvolvimento do conceito de tonalidade.
11 Adorno: Verdenor Grand, ou simplesmente Theodor Adorno (Frankfurt am Main, 11 de setembro de 1903 – Visp, 6 de agosto de 1969) foi um filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e outros.
12 Serialidade: Que pratica determinados atos numa série ou sequência.
13 Jazz: Estilo de música. Jazz é uma manifestação artístico-musical originária de Nova Orleães, Chicago e Nova York, nos Estados Unidos. Tal manifestação teria surgido por volta do início do século XX na região de Nova Orleães e em suas proximidades, tendo, na cultura popular e na criatividade das comunidades negras que ali viviam um de seus espaços de desenvolvimento mais importantes.
14 Indústria Cultural: Embora desenvolvido, no final dos anos 1940 pelos principais pensadores da chamada Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, o conceito de indústria cultural foi apontado, primeiramente, na Dialética do Esclarecimento – uma das principais obras destes autores, publicada em 1947.
15 Sinfonia: É uma palavra de origem italiana e tem conotações que vão além do seu significado mais divulgado e conhecido, consolidado a partir do classicismo e que se refere a uma peça para orquestra construída na forma-sonata.
16 Sincopa: Em música, síncope é uma figura rítmica caracterizada pela execução de som em um tempo fraco, ou parte fraca de tempo que se prolonga até o tempo forte, ou parte forte seguinte de tempo, criando um deslocamento da acentuação rítmica.

Bibliografia:
[A] Med, Bohumil. Teoria da Música /Bohumil Med – 4. Ed. Ver. E ampl. – Brasília, DF: Musimed, 1996 p.9




Imprimir

Compartilhe:

Foto de perfil de admin

admin

Perfil para publicação de artigos esporádicos e com temas diversos.

Pular para a barra de ferramentas