Mundos Paralelos

As dificuldades e os conflitos diários gerados pelos contrastes sociais e pensamentos de poder em um mundo cada vez mais concorrido por pessoas desleais voltadas ao domínio de todos pela mentira e persuasão. Vivemos à mercê do sistema sem escolhas e sem destino, separados num mesmo mundo como por linhas paralelas pela hipocrisia e sentimento de superioridade. Deixando claro que esse mundo pode ser uma grande armadilha aos incautos, mas também pode ser a libertação dos que buscam a verdade.

Duas linhas separadas que andam no tempo, pelo tempo, tão próximas que se veem e nunca se tocam. São elas a face do destino que se move pelas suas margens, uma hora uma ri e a outra chora com o descaso da primeira que em fileira sacode a poeira da dureza impregnada na carne seca, trocando por um pouco de alento, que por dentro corta como navalha seus sonhos picotados que se espalham pelo vento.

Espero do outro lado da linha separada pelo espaço do tempo nas linhas que não se cruzam e nem se curvam invisíveis pelo pó nos olhos cimentados, na memória adormecida entre sonhos e prazer concebido nas histórias da mentira cabeluda já calva de vergonha, no silêncio que se encobre do tormento eterno do tempo que foge a galope torpe debruçado na cela do destino entre grades prisionais em efêmeras penitências vomitadas ao vento por senhores feudais que sobre o ego do poder o meu dorso cavalgam, me impondo a seguir seus fetiches burlescos, em verdades citadas nas minúsculas entrelinhas do contrato, reduzo-me a um não, assumindo a dor por fazer pouco caso ao destino escolhido pelo orgulho da insensatez.

O mundo nesse plano paralelo tortuoso se apresenta ao incapaz pensante que pensa que acha saber o suficiente ou mais que tudo, pelo ouvir das bocas insanas o delírio em poder ter mais e preencher o seu mundo superficial autômato. Deixou entrelinhas o seu destino e seu eu, para pôr adiante de sua visão caótica o sentido da verdade distorcida que nem a razão pode ver. Como posso me expressar em tão vã esperança que sacode a alma do outro ser que dentro de mim se contorce em suas limitações. Serei eu por acaso o mentor de mim mesmo?  Ou mergulho nas trevas da solidão fugindo do confronto. Ou finjo estar domado pela inocência cruel do sistema sorrateiro que como serpente rasteja entre as mentes sequestradas, lambendo o pó da ignorância perdida em seus caminhos onde já sem cultura, sem saber, me tira e suga o fluído mental, sufocando o meu pensamento que me leva a uma direção, me domina os medos e a verdade sendo uma só entre dois mundos paralelos.

Em um deles sou escravo da ignorância, das lembranças que restaram do tempo da razão. Noutro flutuo pela sombra da brisa que move a folha que risca minha face como giz e mostra o resultado da equação do eu mais eu, mas não eu. Sinto o toque do mundo real e reajo a mentira que da outra linha me persegue.

As linhas dos mundos paralelos se agrupam num só plano não se tocam e nem se cruzam, causariam o caos no espaço tempo da relatividade. Por ser um só eu, cada eu produz seu próprio destino em seu mundo paralelo moldado sobre a razão de sua existência, movida por circunstâncias do resultado em questão.

Embarco na linha do destino do meu mundo paralelo onde a dor é prazer e o prazer sacrifício, vou enxertar meu ego no caule dos espinhos e sangrar o orgulho e a prepotência, transfigurar meu ser irreal a um mundo real e viver pelo que sou. Sou fruto dos resultados do perfeito projeto do Criador sem emendas sem rasuras, preservando-me na pureza das crianças como resposta ao sistema.

Nesse mundo paralelo dos homens ou mundo atual, os dois lados se misturam, se embriagam do néctar do poder, do prazer, pagando à prestações seus pecados carnais, com gosto amargo de quem sucumbe e só lhe sobra como pagamento, a borra do café num fundo sem fundo da taça de fel.

O mundo real do lado de lá da linha que agora se alinha afunilando prestes a se chocar com dois destinos que não vão se suportar como preconceito que explode no peito da mulher que pariu e não pode alimentar com o seu néctar da vida o fruto do seu ventre. Noutro o poder da luxúria mostra como riqueza cultural a nudez carnal abundante e a vergonhosa nudez mental refletida na demência capital do poder casual que no ego da podridão defeca uma sociedade recolhida em seu vazio de vida, na emoção perdida pela soma dos porquês, da retórica vivida, descontada do lucro das Marias e Aparecidas, exprimidas entre paralelas vidas não escolhidas, calçando suas capas serviçais das senzalas teatrais sem escolha e sem vida a viver.

A madame coberta de grana verde como grama, entoando Miami, sobrevoa a favela, em visita ao Tio Sam, por perfumes busca  pelo prazer do poder  de ter no seu seio a esperança de ser.

Pobre Maria Aparecida sobe o morro vendo a nave prateada, que muito alto sobrevoa ao destino do poder que subjuga pela força o pouco que a poucos é dado por acaso do favor desmerecido dos que detém a força da moeda, que somando a mais sobre mais acumulam em cenas teatrais com afrontamentos épicos em tempos de colheita farta sem plantar, sem regar, sem colher e sim enriquecer sobre Joãos e Marias que se dobram ao poder do alto escalão da excelência que amedronta sem fraco espírito, sujeitando-se ao mantra da palavra enganosa como escravos da justiça, domados pela promessa do ópio da diversão ensandecida, perplexamente imóveis diante da tela da TV.

Penso no eventual eminente choque social, das linhas do tempo, onde ter fortuna dá poder sem sabedoria, e quem produz onde pouco tem o que tem o dinheiro não compra nem por um alto preço do tempo que foi roubado pela vida de tormentos, prazeres, dores e alegrias.

Maria Aparecida não chora, não conhece o outro lado da linha paralela. Na vida nunca perdeu, porque nunca teve muito a perder, mas ganhou muito por saber ser feliz com o pouco que tem, tendo mais no que é e menos no que pode ser.

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Foto de perfil de Flávio Luís Schnurr

Flávio Luís Schnurr

Descendente de pais russos; artista; escultor; designer e escritor. Procura viver dentro da realidade sem perder seus princípios de vida na mais absoluta verdade. Catarinense radicado em Curitiba há mais de 30 anos.

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