Militância… mas que militância é essa???? – I

Algo está se tornando comum (ou já se tornou comum – e, por isto, perdeu sua força de impacto): fazer greves e protestos.

Eu já disse isso em mais de meia dúzia de vezes; a maioria em sala de aula – sim, política é tema recorrente em minhas aulas, seja por instigação dos alunos ou porque alguma agenda se mostre importante a ser discutida – fazer greve perdeu sua força. E porque perdeu força? O que há de errado em fazer greve? Por que já não funciona mais?

Bem, a resposta para todas estas questões eu certamente não tenho. Mas tenho feito algumas observações que podem vir a ajudar a entender tal fenômeno.

Dentre todas as observações e especulações que tenho a fazer, a mais relevante é a seguinte: o governo aprendeu a lidar com as greves. Ou, em outras palavras, os grevistas e sindicatos caíram na mordomia de repetir a mesma receita batida a cada vez que se veem diante de uma situação que precisa ser enfrentada. E o mais curioso é que parece que ninguém jamais imaginou que o governo aprenderia a lidar com tais atos de insubordinação.

Mas  a triste realidade que se apresenta hoje é essa: o governo sufoca as greves e os grevistas não sabem fazer mais nada. E pior: as greves tem cada vez menos simpatizantes, dentro e fora de suas categorias. As categorias já não convencem mais ninguém com seu discurso batido de que é preciso paralisar para forçar o governo a recuar. E a sociedade civil já se volta contra qualquer ato de greve porque sabe que isso significa ruas fechadas, passeatas, transtornos… Todos são contra a greve, menos os grevistas, que, em meia dúzia de “gatos pingados” acreditam que podem fazer frente a governos que tem, quando se trata de greves, apoio da população e a mídia a seu favor.

Claro que a descrença no poder das greves afeta as categorias de formas diferentes. Os bancários encontram nas greves a forma ideal de pressionar governos. E por quê? Simplesmente porque as greves bancárias afetam todas as instâncias, principalmente o cidadão que não consegue conviver com os bancos fechados e, assim, não receber seu salário. Ou seja, os bancários anunciam a greve e o povo e empresas se voltam contra o governo e este acaba por ceder. E tem o aspecto privado também incluso. Bancários são uma categoria extremamente unida. Bancos entram em greve juntos e lutam juntos, indiferente se são públicos ou privados.

Mas nem tudo são rosas. Quando olhamos para os setores ou políticas básicas, as coisas mudam de quadro. Quando postos de saúde fecham por causa de greve, quem acaba sendo punido são justamente os grevistas e não o governo que levou o serviço a parar. O mesmo acontece com as políticas da educação, assistência social e segurança. Parece que por ser serviços públicos eles merecem o repúdio da população. Mas as pessoas (que são contra a greve da saúde) não reclamam se um ente querido descobre que tem câncer e é atendido gratuitamente pelo SUS. Ou quando conseguem vagas de graça na educação infantil, básica ou no ensino médio. Nestes casos, as políticas públicas são úteis.

Agora, quando os atores destas políticas entram em greve para reivindicar melhorias no atendimento, infraestrutura e melhores salários (o corte de salário sempre é a “cereja do bolo” quando se fala em descaso com políticas públicas), as pessoas esquecem que os grevistas estão reivindicando melhorias que serão usufruídas pela maioria da população. E é nessas horas que se levantam os gritos e as bandeiras em prol de privatizações, em acabar com a “vagabundagem” do serviço público e que nas iniciativas privadas as coisas funcionam.

Então, diante disso tudo, já não sei mais o que é melhor… Porque os governos ouviram os apelos e estão trabalhando a pleno vapor para reduzir o Estado. Em poucos meses estaremos todos dependentes de educação privada, saúde privada e segurança privada. Porque é isso que o povo clama.

Mas, cadê a militância? O que fazem os demais funcionários públicos (fora aquela “meia dúzia de gatos pingados” que protestam e sonham em derrubar governos)? Bem, fazem greve, mas de pijama… ou de sunga e biquíni. Ou ainda, escrevem “textão” e lançam indireta no Facebook. Nem para discutir política com amigos, familiares e alunos se prestam.

É, são tempos difíceis….

Temos o que merecemos? Acredito que sim… e é só o começo…

Onde está seu coração, aí estará seu tesouro… (ou nos tempos atuais: onde está seu tesouro, aí estará seu coração…)

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Ricardo Luis Reiter

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Áreas de interesse: filosofia social, política, ética, escola de Frankfurt, filosofia da religião.

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